Jacu pia

Quantos anos você tem? Some 300. Eu, por exemplo, faço 350 daqui a um mês, e isso tem me feito pensar.

Trezentos anos extras é o presente mais rico que a gente recebe na infância quando os pais, professores e amigos vão colocando sobre teus ombros a nossa herança maior, trezentos anos de arcaísmos, valores odiosos, malandragens consagradas, tudo embalado pra presente em piadas toscas, em frases feitas, em conselhos de amigo. Eis a verdadeira educação nacional, realizada com primor e empenho por todos os que nos cercam. Quando alguém diz “falta de educação”, é desse MBA em idiossincrasias que estamos falando. Onde já se viu responder aos mais velhos, seu mal-educado?

Trezentos anos? Talvez seja mais, muito mais, mas trezentos soa bem, já passa a ideia. Quando o tráfico de escravos começou pra valer? Deve ter sido por aí.

Quando eu era menino sonhava com o ano 2000, todos sonhavam. Como eu serei, pensava, com… (fazia as contas) 36 anos? Inimaginável. Trinta e seis num mundo do futuro já era futurologia demais, e nunca pensei além disso.

Meus futuros capotaram algumas vezes e a culpa é minha, assumo. Pilotei meu presente abusando das leis do juízo, e entre alguns cavalos de pau e uma ou outra capotada, fui mudando de rota sem saber quando a estrada nova acabava, e onde. Larguei uma escola, fui pra outra, comecei uma carreira, pulei pra outra e, pouco antes dos temíveis 36 e do mítico ano 2000, embarquei no que até hoje chamamos de futuro: em 1996 comecei a “trabalhar com internet”.

Não, não há uau algum nisso. Eu não sabia nada, ninguém sabia nada e 90% do que eu vim a aprender caducou a cada cinco anos. Eu atrelei minha carreira a uma metamorfose ambulante.

Internet? La donna è mobile, qual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero, e toca o povo a se adaptar como pode.

Pois bem, me adaptei como pude, e sempre temi o momento em que a tal da internet tocasse uma música que eu não soubesse dançar. Batata: um belo dia a internet pagodizou-se (digo isso porque abomino pagode, não por qualquer analogia concreta, podia ser funkizou-se, operificou-se, sertanejizou-se, rock-a-billyzou-se, odeio todos) e eu perdi o passo. Cá estou eu de novo entre a mutação e a extinção nesse darwinismo profissional forçado. E, para piorar, beirando os 350 anos. Não é divertido, mas já estou acostumado.

Ok, ok, obrigado, eu não pareço ter 350. Eu conto o segredo: quando eu percebi esse fardo extra de 300 anos eu comecei por conta própria uma lipoaspiração moral. Complacência com malandragens? Lipo. Achar que o trabalho alheio não vale nada? Lipo. Admirar quem não merece? Lipo. Fechar os olhos pro inaceitável? Lipo. Comer presunto e arrotar peru? Lipo. Calar a boca e remar? Lipo. E essa lipo é a pauta deste artigo.

Eu falo muito. E está piorando.

Eu produzo sem parar. Parodiando Mario de Andrade, produzir pra mim é verbo intransitivo. Artigos, palestras, videos, tiradas, posts… eu produzo como um furacão e a troco de vento. Demorei pra achar minha verve e agora a torneirinha não fecha, e não demorou muito pra trombar de frente com os 300 anos que nos cercam.

Você imaginaria que a coisa mais futurista possível, a internet, fosse absorver os trezentos anos? Pois é, nem eu. A internet jovem, revolucionária e anárquica abrasileirou-se e entrou no ishquema, amancebou-se com os brilhos da publicidade e seu dinheiro fácil, com a pompa dos eventos e com a aristocracia dos privilégios. A internet veio pro inferno e abraçou o diabo. E eu, talvez por falta de “educação” ou de bestunto ou simplesmente por falar demais, resolvi comentar extensa e repetidamente que o rei estava nu… e broxa. E que tinha pau pequeno.

Pois bem, isso não pode. Isso é um pecado capital, daqueles que custam a cabeça, o emprego, a empregabilidade, o respeito público, o direito à memória, convites pra boca-livre, etc etc etc. E eu aprendi tudo isso numa frase só: em tempo de muda jacu não pia.

Eu não sei o que é jacu, e não quero procurar no google. Deve ser um bicho feio que troca de pele, de pena, de couro, sei lá. Pensando bem, se ele deixa de piar é porque deve ser pássaro. E eu que sempre achei que jacu fosse alguém que se veste mal.

Essa frase deve ter uns 300 anos, embora o amigo e colega que a arremessou também tenha nascido na década de 60. Eu, pelo visto, tenho menos “educação” que ele, acho que faltei nessa aula.

Aprendi isso ontem, e a frase coroou um diagnóstico profundo e (como sempre na internet) grátis, onde ouvi o que parece que eu merecia: sou um cara amargo, que eu banco o outsider, que eu deveria desistir da área, e, por fim, como bom jacu deveria não piar.

Eu sempre me achei jacu: nunca me visto direito. Um dos meus pesadelos mais comuns é estar com a roupa errada (ou sem nenhuma) na pior situação possível. Quando me chamam pra eventos bacaninhas de internet (o que tem acontecido cada vez menos, pois eu pio), eu nunca sei o que vestir.

Ouvi o desabafo do colega sem questionar. Vesti a carapuça, inclusive. Quem sabe eu sou jacu mesmo e minhas fases de muda são… penosas demais, voa pena pra todo lado. Talvez eu devesse parar de piar e, como diria Voltaire, cultivar meu próprio jardim. Calar a boca e remar. Não fazer marola. Os incomodados que se mudem. (O repertório em favor de ser enrabado estoicamente é vasto e criativo.)

Acatei a pancada, agradeci a sinceridade e prometi publicamente não ser mais um triste espetáculo público. Alguns bons amigos tomaram as minhas dores (não publicamente, claro), foi bom, mas eu estava tristíssimo e fui dormir. Dormi pesado, tive pesadelos, mundo acabando, apocalipses. Engolir sapos faz parte do pacote de drivers da brasilidade XP, mas faltei na aula sobre como digeri-los, e dá-lhe sonhos ruins.

Acordei, me olhei no espelho e tive uma surpresa: essa nova lição centenária sobre aves discretas só pegou de raspão. Não ganhei mais 300 anos de idade, e aparentemente continuo um jacu perplexo e pouco fashion à beira dos 50.

Quer saber? Vou continuar piando sim. Abro mão do meu diploma de brasilidade clássica e todas as benesses que acompanham essa “educação”. Essa mania nacional de ser feliz não me move nem comove. Fazer o que se deve não rima sempre com risadas.

Como diria o outro René: Pio, logo existo. Ou existo, logo pio. Follow me os bons, e os incomodados que unfollow. E que venham os 50.

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