De volta para casa
Decido falar sobre as coisas e principalmente as não coisas que senti desde que os últimos grãos de areia saíram dos meus fios secos e mais claros, se é que ainda não há alguns remanescentes nas minhas raízes. Tudo começou no fim. Nada antes dele havia acontecido de tão surpreendente assim, mas depois. Depois daquele café amargo e daquele suco de laranja com gosto de até logo e da última brisa no rosto antes de entrar no ar condicionado pressurizado e plástico, tudo foi sentido de um jeito diferente e mais forte,como se cada detalhe tivesse uma importância imensa e como se aquelas estradas e o menu e os talheres e os dois degraus para a cozinha e o frango e os shorts e os cheiros e as toalhas que voaram com o vento deixassem de ser o que de fato são e ganhassem um significado diferente, um peso extremamente leve e um pouco difícil de carregar, quando relembrados. Decido falar sobre desconectar-me de quem não era nada e de repente foi tudo e sobre como não se pode voltar a ser o que já não se é. Ensaios de 30 e poucos anos não ensaiados percorridos sem gps e com canções que antes não eram nada e agora são perguntas entoadas para respostas que eu acho que já tenho. Decido falar sobre veranizar almas, as nossas e as alheias, e sobre perceber a doce, ácida e cafeinada verdade de que o caminho se percorre só, completa e genuinamente só, e no entanto, ele é tanto sobre amar.

