O Que é Verdadeiramente Ser Adulto (ou: Uma perspectiva cosmológico evolutiva da humanidade)

Não. Esse texto não é sobre pagar contas e arrumar a casa (rsrs).

Sou dono de um Espaço Coworking na minha cidade e gosto muito de ler coisas sobre a cultura Coworking. Hoje li um texto que falava sobre Empreendedorismo Sustentável.

É algo sobre o que eu tenho pensado muito ultimamente… O texto fala de questões ecológicas e afins, mas eu iria mais longe…

Até que ponto somos responsáveis pelo que o outro faz, pelos comportamentos que estimulamos nos outros? Até que ponto uma empresa é responsável pelo uso que é feito dos produtos, serviços, ideias que ela vende?

Por exemplo: eu sempre quis ter um bar. Sempre gostei de entreter as pessoas e achava que um bar era um local ideal para os mais diversos tipos de entretenimento (um parque de diversões a la Disney seria melhor, mas…..).

Mas aí eu me pego pensando: enquanto uns veem ali uma oportunidade de se divertir, desopilar, passar o tempo, ter conversas interessantes, outros encontram lá um local perfeito pra dar vazão aos seus vícios e escapar dos seus problemas enquanto gera outros mais…

Quando penso, por exemplo, em bandas/artistas como Aviões do Forró e Wesley Safadão… Tipo, ali é responsabilidade ZERO, preocupação zero com o que eles estão vendendo (a saber: cachaça, chifre, promiscuidade etc.). Do ponto de vista comercial é perfeito: “Ora, o público QUER isso. Consome isso. Paga caro por isso! Porque não dar o que eles querem enquanto ganhamos um dinheirinho?”.

Há quem diga também: “Ah, tal qual o funkeiro ou o rapper que fala da favela, eles são apenas cronistas de suas próprias realidades”…

Essa semana li uma entrevista com o fenômeno do funk, o empresário, cineasta e produtor Kondzilla, onde ele dizia que o que ele fazia (clipes musicais de MCs esbanjando a estética da ostentação — carrões, mulherões, dinheiro, armas e baladas) era entretenimento, porque pra ver sofrimento basta que as pessoas abram a porta de suas casas na favela.

Me pergunto: será mesmo que ele tá fazendo um bem? Será que isso realmente ajuda as pessoas da comunidade dele? Até que ponto é crônica? Até que ponto é estímulo? Um ode a um estilo de vida que 99,99% das pessoas da comunidade dele nunca vão alcançar…

Outro dia me envolvi numa breve discussão no Facebook (eu sei, eu sei, roubada, né? Eu tenho evitado, mas juro como essa nem foi brigando. Foi bem de boa). Uma amiga postara uma matéria que dizia que na segunda temporada de Stranger Things a personagem Barb voltaria, porque os produtores ouviram as reclamações dos fãs de que aquilo foi um desrespeito e que era uma questão de representatividade: só porque a menina era o estereótipo da nerd virgem ela morreu, enquanto a amiga que foi transar com o mauricinho da turma sobreviveu… Na discussão questionei se, por causa disso, todos os filmes, livros etc. a partir de agora não deveriam só falar de amor e coisas bonitinhas. Ninguém mais pode morrer a não ser que seja alguém bem mal?… Seria o fim dos filmes de horror, de ação, e de histórias que falam sobre a realidade e dureza da vida…

Ai, gente, é só entretenimento, só diversão. Pelo amor de deus! Lá vem essa Geração Mimimi politicamente correta…”. Confesso que vez em quando eu penso assim também, em especial quando vejo os fervorosos discursos feministas… Penso “Pow, capas de revistas em quadrinhos de super heroínas não podem ter mulheres sensuais porque é uma afronta às mulheres comuns, uma deturpação da imagem das mulheres?”. Mas quando olho por essa perspectiva da responsabilidade, o argumento delas faz todo sentido!

Não quero ser iconoclasta, ou mesmo um chato, e dizer que só é bom se for alta cultura… Só é bom se for MPB, música erudita etc. e tal… Mas há que se pensar quem vem primeiro: o ovo ou a galinha? O entretenimento imita a vida ou a vida imita o entretenimento? Não é um círculo vicioso? Não estamos criando espelhos? O que será que vemos quando nos olhamos? Pense num adolescente ou criança olhando pra esses espelhos…

Pense num mundo onde só existisse esse tipo de entretenimento… É a verdadeira alegoria da Caverna de Platão. Nossas formas simbólicas, os produtos do nosso espírito, a arte, nossas músicas, livros, filmes, jogos, nos falam de nosso mundo interior e exterior… Que mundo estamos pintando com o que estamos produzindo? Como percebe a si mesma uma pessoa que nasce nesse mundo, olhando pra esses espelhos?

Pode parecer forçação de barra, mas até as piadas das quais nós rimos. Pense nelas. Tão engraçadas, né? Causam-nos uma sensação tão agradável… Tão legal e inocente contar uma piada machista ou que desvaloriza o outro numa mesa de bar entre amigos. Todo mundo sabe que é brincadeira. Ninguém ali tá falando sério. Todos riem. É um momento de descontração. Daqui a muito tempo nos lembraremos deste como um momento legal de nossas vidas, em que estávamos bem e não fizemos mal a ninguém… Mas pense no que foi que nos levou a rir em primeiro lugar… Porque rimos disso? É intrínseco ao ser humano, é biológico? Um índio lá na sua tribo riria da mesma piada? Será que não fomos ensinados de que isso é engraçado? O que isso nos diz sobre nós e sobre o modo como percebemos e criamos o mundo ao nosso redor?

É ruim pensar sobre isso, né? Incomoda. Mexe com nosso conforto. É quase como forçar o peixe a pensar sobre a água em que vive. É pesado, é difícil. Pensar sobre o mundo em que vivemos e como nós nem nos damos conta de como ele (e nós dentro dele) funciona é um exercício de abstração. Melhor não pensar…

A diferença é sutil e pode parecer besteira, mas quão diferente seria nosso mundo se a responsabilidade pelo que fazemos se estendesse um pouquinho mais longe, chegando ao outro? Se nós não simplesmente lavássemos as mãos como se, uma vez que está em posse do outro, não nos dissesse mais respeito?

Não tenho respostas. Não sei se um mundo que só ouvisse Beethoven e afins seria melhor que o nosso. Também fico pensando, tal qual o biólogo que ama todas as formas de vida, se tudo que existe não é rico e faz parte da diversidade cultural do homem. Se acabar com determinada forma de entretenimento não seria o equivalente a extinguir uma espécie cultural…

Mas a questão da responsabilidade não me sai da cabeça.

É como se fosse o próximo passo no processo de amadurecimento da humanidade, sabe? Tenho a ideia de que nós, enquanto espécie, estamos amadurecendo num processo que se assemelha ao desenvolvimento de um indivíduo.

Dizer: “Que se dane. Não tou nem aí com o que o outro faz com o que eu produzo” é uma atitude que me parece bem infantil. Imagina você falando: “Não tou nem aí pra o que meu filho pequeno faz com a faca que eu construí”.

Será que não deveríamos estar olhando mais uns aos outros como filhos ou como pessoas queridas? Parar e pensar “Porra… realmente o que eu tou fazendo pode, mesmo que indiretamente, estar tornando o mundo um pouquinho mais complicado”, me parece uma atitude mais adulta.

É realmente uma mudança de mindset…

Uma vez li uma frase supostamente atribuída ao Dalai Lama que dizia: “O planeta não precisa de mais pessoas bem sucedidas. O mundo precisa desesperadamente de mais pacificadores, curadores, restauradores, contadores de histórias e amantes de todos os tipos”.

Mas o universo é indiferente, impessoal. Os outros animais não têm responsabilidade sobre nada, não se preocupam com nada. Porque nós deveríamos dar a mínima, se ninguém acima de nós dá? Mas é justamente isso: e se não existir ninguém acima de nós? Quem seriam, então, os pais, os adultos dessa história? Quem deve assumir as responsabilidades?

Uma outra frase que li diz: “Não estamos no universo, somos o próprio universo, uma parte intrínseca dele. Somos um ponto focal onde o universo está se tornando consciente de si mesmo”. Se pararmos pra nos enxergarmos como fruto de um processo evolutivo que vem desde o Big Bang, isso também faz todo sentido. Será que não seríamos (até onde sabemos) essa primeira vez, essa parte do universo que pode olhar pra si e pros arredores e assumir alguma responsabilidade sobre pra onde estamos tudo e todos indo?

Uma criança nasce e sobre nada tem responsabilidade. Com nada se preocupa. Mas aí cresce e passa a ser responsável pela própria vida e, eventualmente, pelas vidas de outras pessoas. Como espécie também nascemos sabendo de nada, responsáveis por nada e, tal qual uma criança, cometendo todo tipo de erros necessários ao nosso aprendizado.

Hoje, à beira do que pode ser um novo conflito mundial de proporções sabe-se lá quais (vide as recentes notícias sobre Trump, Síria, Coréia do Norte, Rússia, essa galera toda), talvez esteja na hora de deixarmos de ser esse adolescente rebelde que enxerga, mas evita as responsabilidades, e assumirmos o adulto que estamos nos tornando. Tal qual para o adulto, os erros agora têm consequências mais graves e duradouras…

Não cabe mais sermos o Tony Stark que produz armas com a desculpa de que as usa para defender a humanidade. Não cabe mais sequer produzirmos armas!

Tenho amigos contra e a favor do desarmamento da população no Brasil. O discurso dos contra sempre envolve o argumento de “De posse de uma arma, o bandido vai pensar duas vezes antes de fazer mal a mim e aos meus”. Mas quem é o bandido?

Outro dia assisti um documentário bem interessante no Netflix chamado A Revolução do Altruísmo. Dentre outras coisas, algo que o documentário fala é dessa visão, essa separação perpetrada pela maioria das pessoas e grupos humanos, a divisão: Eu x O Outro; Nós x Eles. É algo que fizemos por uma necessidade de sobrevivência. É uma de nossas heranças evolutivas. Precisávamos nos unir às pessoas mais próximas pra nos defender e competir com os grupos humanos rivais para poder sobreviver.

Não hesitamos em nos defender de um mal e querer o bem para nós. Não hesitamos em fazer o mesmo pelos nossos familiares. Não hesitamos em falar mal de quem apoia o partido oposto. Mantemos o bairrismo para com o pessoal da cidade vizinha. Não hesitaríamos em entrar em guerra e matar para evitar a invasão do nosso país pelo país ao lado. Estamos o tempo todo dividindo-nos entre Nós e Eles, raramente atentando para o fato de que, dependendo das circunstâncias, Eles muitas vezes são Nós também…

Quem seria Nós e Eles no caso de uma invasão alienígena? Deixaríamos de lado a guerra entre países para cooperarmos uns com os outros contra os ETs? Há quem diga que a humanidade só se uniria um dia, frente a um desafio como esse. Foi exatamente o que o personagem Ozymandias tentou fazer em Watchman.

Quem é o bandido se não “o outro que quer me fazer mal”? E se eu pudesse por um momento esquecer disso e olhar pra o bandido como Nós, ou melhor, como Eu ou uma parte de mim, outra parte do mesmo universo que está se tornando autoconsciente?

Todos temos nossas próprias histórias e dificuldades. Ninguém sabe pelo que passamos. O bandido também teve a história dele. Já parou pra se perguntar porque ele faz o que faz? Será que é só “vagabundagem”? Será que a pessoa que pede esmola no sinal está ali porque é “vagabunda”? Será que é mais fácil estar ali do que trabalhando? Se é “mais fácil”, porque não estamos todos ali? Somos assim tão nobres?

Há uma frase interessante do Thich Nhat Hanh que diz: “Quando o outro me faz sofrer, é porque o sofrimento dele está transbordando. Essa pessoa não precisa de uma punição, ela precisa de ajuda”. Pare pra pensar: alguém que está bem, que está feliz, faz os outros sofrerem deliberadamente? Porque então pensamos que o bandido o faz?

Do alto dos meus 29 anos (digo isso porque com o passar dos anos minha visão sobre as coisas têm mudado muito e creio que vai continuar mudando, ou seja: posso estar errado), acredito que na verdade o bandido é um ignorante. Ele ignora completa ou parcialmente as consequências de seus próprios atos. Ele sofre tanto que é incapaz de enxergar claramente o mal que faz. Que os atos dele acabam por causar danos às pessoas ao seu redor, que por sua vez sofrem e se cegam para os danos que elas mesmas causam. É semelhante aos atos e pensamentos autodestrutivos que temos quando estamos sofrendo por amor, quando somos deixados por quem amamos ou quando perdemos um ente querido: estamos cegos e nada do que nos digam muda isso. Um belo dia acordamos e achamos absurdo tudo aquilo que pensamos, dissemos, fizemos.

O bandido sofre e por isso causa sofrimento. As pessoas atingidas pelo bandido sofrem e por isso causam também sua parcela de sofrimento que acaba voltando pro próprio bandido e assim por diante. É um círculo vicioso e se ninguém parar e interromper o fluxo, levar o tapa e não revidar, mas compreender, literalmente “dando a outra face” (sim, acho que era a isso que Jesus se referia e não a ser besta e gostar de apanhar), isso nunca vai parar.

Então não. Armar as pessoas não me parece ser a solução. Fazer paz com a guerra não me parece ser a solução. Ensinaríamos a um filho sobre a paz, batendo nele? Tudo são exemplos. Tudo é um espelho. Estamos pintando o mundo com as cores que escolhemos.

A mudança, me parece, não deveria vir de fora, mas de dentro. Começando em cada pessoa. Porque são as pessoas as responsáveis por tudo. O resto são consequências dos nossos atos individuais que se somam no coletivo.

Seria tão estranho um mundo onde as pessoas pensassem assim?

Sim, eu sei, é um tanto utópico. Mas é justamente a busca pela realização das utopias que move o mundo! Foi essa busca que nos trouxe até onde estamos hoje! Foi a busca por uma vida melhor que fez de nós quem somos. Mas será que sabemos bem o que é o melhor? Será que o melhor é o sucesso a qualquer custo? Se eu for a única pessoa bem sucedida da terra, não estarei sozinho no topo?

Às vezes parece que nos ensinaram tudo errado, né?… Mas não tenhamos raiva. Nossos pais, assim como nós agora e nossos filhos no futuro, também são ignorantes em certos aspectos. Ninguém nunca consegue ver o todo sozinho.

Mas sou otimista e acho que nossa geração tem começado a ver isso. Talvez sejamos uma geração que é capaz de enxergar e de assumir essa responsabilidade, por mais difícil que seja.

Espero sinceramente que sim. Que assumamos a responsabilidade pelo outro, mesmo que nas pequenas coisas como não jogar o lixo na rua. Será que fazendo isso as coisas não poderiam ficar um pouquinho melhores? Isso não é algo pelo que valeria a pena se esforçar?

Esse pra mim tem sido cada vez mais o significado de ser adulto. Não a pessoa que trabalha pra pagar contas, mas a pessoa que assume a responsabilidade por fazer um mundo melhor.

=)