Sobre nosso velado intercâmbio de Atenção

Coisas que não nos damos conta em nós mesmos #1

Há alguns anos, numa de minhas sessões de análise, meu terapeuta leu pra mim um trecho do livro Aprender a Aprender do Idries Shah, que falava sobre a necessidade de Atenção (de dar e receber) que todo ser humano experimenta durante toda a vida e sobre a qual poucos de nós têm consciência e sobre a importância que estar consciente disso tem pra nossa formação.

Recentemente tenho pensado bastante sobre um monte de coisas que acho que são tão importantes na vida de um indivíduo, mas que, dado o modo como nossa sociedade educa suas crianças, acabamos por passar uma existência inteira sem saber. Uma delas, me ocorre sempre, é essa questão da Atenção.

Mesmo uma pesquisa superficial das comunidades humanas mostra que, enquanto a tendência de alimentar-se desordenadamente, o sentimento de posse e outras características comuns são educadas desde cedo ou suprimidas — enfraquecidas — o fator atenção não recebe mesmo tratamento. A conseqüência disso é que o ser humano, privado de qualquer método para lidar com seu desejo de atenção, permanece confundido por ele, já que este desejo habitualmente mantém-se primitivo por toda a vida.

Hoje, felizmente, vasculhando a internet encontrei o exato trecho do livro traduzido pro português (acredito que uma raridade, uma vez que o google books dá um preview, mas não mostra tudo). Então, tomei a liberdade de copiar o trecho inteiro e colocar aqui no Medium como forma de espalhar ainda mais esse conhecimento. Acredito que essa também tenha sido a intenção do tradutor.

Agradeço desde já a ele, Ademário Iris da Silva Junior, por essa boa contribuição (o link pra página onde o tradutor postou o texto tá aqui no final) =)

Segue o texto como postado em seu blog:

CARACTERÍSTICAS DA ATENÇÃO E DA OBSERVAÇÃO

Esta é uma tradução feita por mim. Livre para uso não-comercial, desde que citado o autor original e o tradutor.

CARACTERÍSTICAS DA ATENÇÃO E DA OBSERVAÇÃO
A obtenção, propagação, recepção e também o intercâmbio de atenção

Um dos pontos-chave do comportamento humano é o fator atenção.

Qualquer um pode verificar que diversas circunstâncias, em geral supostamente importantes ou úteis nas realizações humanas de qualquer tipo (sociais, comerciais etc), são, de fato, situações dissimuladas de atenção.

Argumenta-se que, se uma pessoa não tem consciência do que está fazendo (neste caso, de que está, basicamente, requerendo, difundindo e intercambiando atenção) e, como conseqüência, pensa que está fazendo algo diverso (contribuindo para o conhecimento humano, aprendendo, comprando, vendendo, informando etc.), ela (a) será mais ineficiente tanto na ação consciente quanto na ação inconsciente; (b) terá menos capacidade de planejar seu comportamento e © cometerá erros emocionais e intelectuais, porque toma por coisa diversa o que, na realidade, é atenção.
Se isso é verdade, é muito importante que os indivíduos constatem que:

  1. O fator atenção está operando em praticamente todas as atividades.

2. A motivação aparente de uma atividade pode ser diferente daquela que realmente ocorre e que isso é freqüentemente gerado pela necessidade ou desejo de atenção (dando, recebendo, intercambiando).

3. A atividade de buscar atenção, como qualquer outra demanda por comida, aconchego etc, quando posta sob controle da vontade, certamente resulta em maior margem de manobra para o ser humano, o qual deixaria de estar à mercê de fontes aleatórias de atenção, ou de estar mais confuso que o normal, se os acontecimentos não evoluem como se espera.

CERTOS PRINCÍPIOS PODEM SER ENUNCIADOS. ELES INCLUEM:

1. Muita atenção pode ser ruim, (ineficiente).

2. Pouca atenção pode ser ruim.

3. A atenção pode ser ‘hostil’ ou ‘amigável’ e ainda assim satisfazer o apetite por atenção. O aspecto moral torna isso confuso.

4. Quando as pessoas estão sedentas de atenção, elas estão vulneráveis às mensagens que com freqüência acompanham o exercício da atenção a elas dispensada. Ou seja, alguém que demanda atenção, poderia ser capaz de obtê-la somente da pessoa ou organização que, daí em diante, poderia exercer uma influência indevida sobre a mente do indivíduo sedento de atenção.

5. As crenças do presente foram freqüentemente inculcadas em momentos e sob circunstâncias ligadas à sede por atenção, não tendo sido implantadas pelos meios a elas creditados.

6. Muitas mudanças bruscas de opinião, ou de associações e compromissos, podem ser creditadas à mudança na fonte de atenção.

7. As pessoas são quase sempre estimuladas por uma oferta de atenção, pois muita gente está freqüentemente com necessidade de atenção. Esta é uma das razões porque novos amigos, por exemplo, podem ser preferidos aos mais antigos.

8. Se as pessoas pudessem aprender a aplacar sua fome de atenção, elas estariam numa posição melhor do que a maior parte da cultura atual permite, para que desenvolvessem outras coisas. Elas poderiam aumentar a efetividade de sua capacidade de aprendizagem.

9. Entre as coisas que pessoas não-famintas (no sentido da atenção) poderiam investigar, está a atração, em termos comparativos, de idéias, indivíduos etc., à parte de sua função puramente supridora de atenção.

10. O desejo por atenção começa na mais tenra infância. Sem sombra de dúvida, ele é, naquele ponto, ligado à alimentação e proteção. Isto não quer dizer que este desejo não possa ter maior ou futuro valor no desenvolvimento. Pois, em adultos, o desejo de atenção pode ser amoldado para além de seu uso ordinário de mera satisfação.

11. Mesmo uma pesquisa superficial das comunidades humanas mostra que, enquanto a tendência de alimentar-se desordenadamente, o sentimento de posse e outras características comuns são educadas desde cedo ou suprimidas — enfraquecidas — o fator atenção não recebe mesmo tratamento. A conseqüência disso é que o ser humano, privado de qualquer método para lidar com seu desejo de atenção, permanece confundido por ele, já que este desejo habitualmente mantém-se primitivo por toda a vida.

12. Numerosas observações das interações humanas têm sido feitas. Elas mostram que o intercâmbio entre duas pessoas sempre tem o fator atenção.

13. A observação mostra que o desejo de atenção das pessoas tem idas e vindas. Ao não perceber que esta é a sua condição durante esses acréscimos e decréscimos de desejo de atenção, o ser humano atribui suas ações e sentimentos a outros fatores, como, por exemplo, à hostilidade ou à amabilidade dos outros. Pode dizer que teve um ‘dia de sorte’ quando seu desejo de atenção foi atendido rápida e adequadamente. O reexame de tais situações tem mostrado que elas são mais bem explicadas pela teoria da atenção.

14. Opiniões baseadas no suposto maior prazer que a atenção dá quando ela é obtida ao acaso, não se sustentam quando examinadas com cuidado. — Eu prefiro ser surpreendido pela atenção — pode ser parafraseado pelo dito: — Eu prefiro não saber de onde vem minha próxima refeição. Isto simplesmente enfatiza o estado primitivo do entendimento deste assunto.

15. Situações que parecem muito diferentes quando vistas através de uma perspectiva ultra-simplificada — que é a mais adotada normalmente — podem ser vistas como equivalentes pela aplicação da teoria da atenção. Por exemplo: pessoas seguindo uma figura autoritária podem estar exercendo o desejo por atenção ou o desejo de dar atenção. O intercâmbio entre as pessoas e a figura autoritária pode ser explicado pelo comportamento de atenção mútua. Alguns ganham exclusivamente atenção deste intercâmbio. Outros podem ganhar mais.

16. Uma outra confusão é causada pelo fato de que o objeto de atenção pode ser uma pessoa, um culto, um objeto, uma idéia, um interesse etc. Em razão dos focos de atenção serem tão diversos, as pessoas em geral não identificam o fator comum entre eles: o desejo de atenção.

17. Uma das vantagens desta teoria é que ela permite à mente humana interligar de maneira coerente e inteligível muitas coisas que têm sido sempre (e erradamente) ensinadas como sendo muito diferentes, não suscetíveis a comparações etc. Este treinamento errôneo tem, é claro, deformado a possível eficiência de funcionamento do cérebro, embora apenas culturalmente e, não, permanentemente.

18. A inabilidade de perceber quando a atenção é estendida e também de encorajar ou de deter sua evocação, torna o ser humano singularmente vulnerável a ser influenciado, especialmente a ter idéias implantadas em seu cérebro e ser doutrinado.

19. Fazer crescer o tom emocional é talvez o método mais primitivo de aumentar a atenção em torno daquilo que inflou a emoção. É o prelúdio ou acompanhamento de quase toda forma de doutrinação.

20. Ensinamentos de tradições, ensinamentos filosóficos e outros tipos de ensinamento têm sido usados para prescrever exercícios para o controle e o foco da atenção. Seu valor, entretanto, foi em grande parte perdido, por que os exercícios individuais, prescritos para pessoas necessitadas deles, têm sido transcritos e repetidos como verdades únicas e praticados de tal modo, com pessoas e numa velocidade e sob circunstâncias tais que, por sua própria aleatoriedade, não têm sido capazes de efetivar nenhuma mudança no treinamento em atenção. Este tipo de tratamento tem produzido obsessão, no entanto. E continua a fazê-lo.

21. Aqui e ali, provérbios e outros fragmentos de material escrito indicam que houve em algum tempo o conhecimento generalizado da atenção nas linhas agora descritas. Infelizmente, tirados do contexto, estes indicadores sobrevivem como fósseis, no lugar de serem guias úteis ao exercício da atenção pelo homem contemporâneo.

Atenção sobre si mesmo ou sobre um professor, sem o exercício de certificar-se daquilo que está sendo oferecido para além do próximo e do imediato, é algo como um curto-circuito. Como Rumi disse: ‘Não olhem para mim, mas tomem o que está em minhas mãos’.

Idries Shah, em “Learning How to Learn”, 1978.

Link: http://blogln.ning.com/profile/AdemarioIrisdaSilvaJunior?xg_source=profiles_memberList

***

É isso =)