Chuva:

Há tanto que não escrevo. Me sinto ébrio, sou um mago e minha tinta, meus feitiços... Desdobro uma eloquência sutil, meus dedos ágeis titubeiam e dialogam com a pena. Sinto a doce aspereza do papel responder ao meu toque, sua cândida brancura tingir-se de um negrume azulado. A pena faz sua dança em intrincados movimentos, concedendo ao papel elaborados padrões outrora chamados de... palavras.
Meus membros entorpecidos, o ar abafado, a sua presença é palpável, sinto como se pudesse vê-lo. A monotonia do tráfego mesclada à sinfonia citadina encontra seu contraponto em sons equidistantes, sons quebrados, sons de... chuva. Estou no banco do motorista abraçado em lúgubre solidão, minha pena cessa, algo deseja entrar... a chuva! As gotículas perfeitamente esféricas criadas bem acima disso, nos céus, se chocam aleatoriamente nas janelas, elas pedem para entrar, elas querem que eu as deixe entrar.
Justo, não nego um visitante e com um toque no painel eu desço os vidros. O trânsito, como que obedecendo meu toque, flui. O carro anda e um festim aquoso se inicia. Agora sou como o vidro, escudo da chuva. As gotas pedantes de exílio se chocam contra minha face sem dó. A sensação é terna, porém, desconfortável quando realizo que essas gotas vacilantes sobre meu rosto, essas sublimes dádivas lançadas dos céus, do universo, serão o mais próximo que poderei chegar da Natureza. Essas gotas, serão o mais próximo que poderei chegar de mim mesmo...