O Despertar…

Ayi Kwei Ahmar nasceu 1939 na cidade de Sekondi-Takoradi em Gana, se formou em Sociologia pela Univerdade de Harvard em 1959. Sua vida e o conjunto dos seus romances revelam uma profunda preocupação com a actual crise cultural africana.
Os sete romances publicados até a data e a sua autobiografia, intitulada The Eloquence of the Scribes (2006), ilustram um incansável ativismo intelectual na procura de um compromisso entre os intelectuais “verdadeiros” e engajados que os destaquem daquilo que considera serem as multidões de arrivistas pseudo intelectuais. Para Armah, um sistema educacional assente numa planificação e administração cuidadas deveria constituir a base para um renovado ethos africano.
Extraído de uma entrevista dada por Armah em 1990, este artigo constitui uma tentativa de apresentar a abordagem desconstrutivista de Armah do modelo de ensino colonial apelando para uma renovação da filosofia do sistema educacional para a criação de uma nova África.
Abaixo segue o link da entrevista: https://goo.gl/77GCAy
Despertar
Se estamos preocupados com o nosso despertar é porque estivemos dormindo por muito tempo. Nós fomos colocados para dormir por catástrofes históricas. Sabe, quando as pessoas se envolvem em acidentes elas precisam de ser postas para dormir, do contrário, se estiverem totalmente conscientes quando este acontece, ela não sobrevive. Sendo assim, dormir é algo útil, mas após um longo sono nós precisamos de um Despertar.
“Uma alma desperta não precisa de um líder que dite os caminhos a serem seguidos.” — Ayi Kwei Armah
Desde que essas catástrofes tiveram início, nossas mentes foram colocadas num estado de ignorância dormente através de uma série de anestésicos culturais e intelectuais. Drogas.
Às vezes essa droga é chamada de religião, e nós a buscamos para termos alívio. Entenda, as pessoas não usam drogas porque são más, elas as usam porque estão sofrendo e acham que isso as ajudará a diminuir essa dor.
Agora, qualquer que seja o nome da droga que nos entorpecemos, o efeito é o mesmo: nos fazer achar que não somos nada.
Despertar significa reconquistar o conhecimento sobre nós mesmos, aquilo que nós realmente somos. Para fazer isso, primeiro, temos de cortar nosso vício no veneno que nos pôs para dormir. Segundo, nós precisamos cultivar valores que nos ajudem a reimaginar a nós mesmos e o nosso Universo circundante.
Tal trabalho exige uma preparação cuidadosa que consiga olhar através dos falsos valores que são jogados em nós. Após isso ainda precisamos identificar outros valores regenerativos e colocá-los no centro de nossas conversas, de nossas ações e principalmente de nossas instituições.
Veja bem, eu não disse discursos, eu disse conversas.
Discursos são eventos incríveis, sim, mas eles são apenas eventos, eles não são processos. Eles acontecem e eles podem ser esquecidos. Conversas são feitas diariamente e coisas que fazemos diariamente são mais importantes do que coisas incríveis que acontecem vez ou outra e são facilmente esquecidas.
Precisamos também de uma mudança nas nossas ações, pois a partir dessa mudança é possível perceber o que é certo a se fazer e até mesmo o que se dizer, mas se não pudermos fazer isso, implantar essa postura no nosso comportamento então isso será pior do que inútil porque servirá apenas para mascarar as coisas erradas que fazemos.
Sabendo disso nos fica claro que uma pessoa que faz o mal, mas não sabe escondê-lo é menos perigosa do que alguém que faz o mal e é esperto o suficiente para saber manipular as palavras e esconder o que fez.
Uma mudança nas instituições, pois uma mudança no nosso comportamento, nas nossas palavras e em tudo o que fazemos é efêmera se nos ancorarmos em algo que não é sólido. As instituições nos ajudam a manter o que é certo e expurgar o mal que nos aflige.
Em essência, o objetivo do nosso Despertar é criar um novo modo de viver.
Mas Despertar não é um processo simples. Um despertar que é repentino ou brutal está fadado a ser incompleto. Para fugir disso ele têm de ser gentil, profundo, sem pressa e bem pensado. Há um perigo inerente a um despertar que seja incompleto; um despertar que seja feito com pressa causa um grito à ação no corpo que o coloca em movimento sendo que a mente ainda dorme profundamente, assim o resultado é…
Sonambulismo: ação física sem atenção mental, intelectual e espiritual.
Um Despertar completo, em contrapartida, é bem pensado. É um processo em que o corpo não é obrigado a se levantar até que a mente também desperte, que a mente tenha tomado total conhecimento do que a circunda; até que ela tenha planejado as rotas de ação mais efetivas criando espaço para alternativas, assim, caso uma rota esteja bloqueada, outras continuam abertas.
Há uma forma incompleta de Despertar que aparenta ser completa na superfície. É uma cegueira mascarada de visão.
Quando estamos despertos, temos corpos saudáveis habitados por mentes pensantes. Quando várias pessoas desse tipo se unem através de um objetivo — conscientemente — e realmente se envolvem, a resultante dessa interação é algo incrivelmente poderoso.
Porém, às vezes, corpos capacitados podem ser direcionados não por suas próprias mentes, mas por seus corações generosos ou sua confiança que se encontra confusa e permitem que o corpo siga a mente pensante de outra pessoa. Quando isso acontece, nós temos uma comunidade feita de líderes e uma multidão de seguidores.
Tal comunidade pode parecer desperta, dinâmica, excitante e viva, mas na realidade ela ainda é vítima do sonambulismo. Uma alma desperta não precisa de um líder que dite os caminhos a serem seguidos.
Líderes

Tendemos a achar que líderes são importantes porque eles possuem o conhecimento e a experiência dos caminhos que todos nós devemos atravessar. Mas pense… se eles realmente fizerem o trabalho deles assim como imaginamos, então eles não teriam mais seguidores. Haveria apenas uma comunhão de pessoas que trabalham em respeito mútuo.
Àqueles de alma desperta compartilham seu conhecimento de forma que traz as pessoas ao mesmo nível em que estão. Se cada pessoa de uma comunidade sabe o caminho a seguir, toda a comunidade avança em conjunto de uma forma muito mais potente do que quando confia cegamente no cão-guia a que chamam de “líder”.
O problema de uma comunidade feita de líderes e seguidores é que, a partir do momento que o líder se vai a comunidade inteira desmorona, ela se torna acefálica. Ela não possui cérebro. Ela apenas vaga erroneamente. Precisamos de uma comunidade onde a liderança flua por todo o seu corpo e não apenas seletivamente.
Por séculos a África — em sono profundo — foi formada por comunidades dependentes de líderes. Sim, nós tivemos heróis, líderes e salvadores e fizemos certo em tê-los amado, mas o que acontece quando eles se forem? Nossos problemas persistirão. Já é tempo de mudar as estruturas de nossas comunidades de forma que as pessoas não dependam fatalmente de líderes; que eles tenham líderes tão bons que nunca mais dependam deles… É tempo de encontrarmos modos de abrir os olhos das comunidades… é tempo de encontrar métodos de disseminar o conhecimento e os objetivos para todos.
“…se a comunidade evoluísse até certo ponto então os líderes não mais seriam necessários.”
Uma das terríveis fraquezas da África foi a busca descomedida pelo poder e o acobertamento do conhecimento. Esses “ocultistas” fizeram isso porque viam o conhecimento como fonte de poder, e não estavam errados nisso, mas ao usar esse poder para si mesmos ao invés de toda a comunidade eles cometeram erros que estamos pagando até o presente momento.
A História recente da África é repleta de líderes que falharam em criar comunidades auto-pensantes.
Uns falharam por não ter tempo suficiente, outros porque foram mortos… Alguns ainda, falharam por não terem a oportunidade, e por fim e não menos memorável os que falharam por não ter o mínimo desejo de empoderar os desapoderados porque ficaram com medo ao perceber que a fonte de seu poder estava naqueles desapoderados e que se a comunidade evoluísse até certo ponto então os líderes não mais seriam necessários.
Esse é o porque de apesar dos inúmeros líderes que já tivemos, algumas pessoas ainda estão em sono profundo. Apesar dos pesares, nós também tivemos pensadores que apontaram para essas questões, um deles foi Cheikh Anta Diop…
Os Valores de Cheikh Anta Diop

Visitei o Senegal dez anos atrás porque precisava de saber mais.
Não sobre ele, mas sobre o seu trabalho e todo seu background.
Um amigo, Ousmane Sembene que hoje é meu irmão me levou até a casa de Cheikh Anta Diop várias vezes. Nós não chegamos a nos ver pessoalmente porque por uma razão ou outra sempre nos desencontramos, cheguei até a brincar que “não estava escrito” para nos vermos… Eu gosto de pensar que independente do trabalho que ele tenha feito, seria uma honra para pessoas como eu continuar o seu trabalho.
As questões que Diop levantou nos seus escritos foram:
- Quem de fato somos nós?
- Qual é a nossa situação?
- Qual é a nossa real História?
- Quais são nossas perspectivas?
- Quais são os recursos naturais, intelectuais e espirituais que possuímos? Como reclamar esses recursos e usá-los para moldar nossas perspectivas?
O senhor Diop passou sua vida trabalhando para encontrar essas respostas e o fruto dessa pesquisa está contido no legado que ele deixou para nós.
Segui esse legado por tantos anos que fico triste por saber que seu trabalho não é conhecido pelos falantes de inglês porque Diop escrevia em francês.
Chegando no Senegal, contatei algumas universidades locais explicando que era capaz de traduzir o trabalho de Cheikh Anta Diop possui as habilidades necessárias para tal. Eles disseram não.
Assim, o que temos hoje em sua maioria são pequenas frações de um ou outro livro seu traduzido.
Essas frações são importantes, sim, mas a maneira mais eficaz de torná-lo conhecido é traduzindo todas as suas obras. Há pessoas que dispostas a fazer esse trabalho.
Perdão, mas não temos tempo hábil para discutir todos os detalhes do seu trabalho, tentarei dar um lampejo do que ele nos ensinou.
Para a pergunta “quem somos nós”, Diop respondeu: nós somos africanos.
Essa parece ser uma resposta óbvia, mas me lembro de uma época em que as pessoas ficavam confusas ao se dizerem africanas. Essa perda de identidade pode ser engraçada.

Quando eu era jovem, conheci um afro-americano, Clair Drake. Ele veio para Gana e na ocasião ele compartilhou um momento que teve em um hotel no Congo. Ele estava em seu quarto quando a camareira perguntou a ele, “de onde veio, senhor?” e então ele respondeu, “eu vim da América”, a camareira então disse “…ah! você é um afro-americano, eu nunca conheci um antes”.
Perceba, nós não vemos a nós mesmos como africanos, inclusive, até hoje se você for para qualquer país da África e perguntar a alguém; “o que você é?”, essa pessoa provavelmente lhe dirá: “eu sou Nigeriano”, ou, “eu sou Tanzaniano”, ou “sou Senegalês”.
Essas pessoas dirão qualquer coisa, menos que são Africanos. A culpa não é delas, elas não sabem o que significa dizer “eu sou Nigeriano”, pois, o que era a Nigéria antes dos líderes brancos se reunirem em Berlim para decidir quem iria ou não tracejar linhas arbitrárias sobre o território africano e defendê-las com ódio e sangue, chamando-as de nações?
Portanto, as identidades que nós temos são identidades falsas. Por esse motivo nós temos que recriar nossas identidades, e a melhor identidade que podemos ter agora é a identidade do Povo Africano, a identidade continental.
Agora, qual é a “nossa situação”? Para isso, Diop cria uma fórmula:
confusão e divisão multiplicada por ignorância.
Mas ele não diz isso para nos condenar, ele nos diz isso como um prelúdio para sugerir formas de acabar com esta confusão, nossa ignorância.
Qual é a “nossa História”?
Ele passou demorou a responder essa questão porque não muito tempo atrás, a ideia de História Africana era considerada errada, academicamente impossível. Você não poderia defende-la em qualquer tipo de tese.
Sua resposta para isso foi:
“Não apenas possuímos uma História como somos a raiz de toda a humanidade; nós estávamos lá desde o início, sendo assim, toda a humanidade está ligada a nós quer reconheçam, quer não. Para os que nos odeiam, problema deles. Para os que não nos odeiam, cooperem conosco, nós ficaremos felizes em trabalhar em conjunto qualquer que seja o lugar, a forma ou a cor que tenham, pois precisamos encontrar maneiras de reconstruir aquilo que foi destruído pela ganância e ódio.”
Ao dizer que somos a raiz da humanidade, percebemos ser esse outro domínio a que fomos enxotados. Sabendo disso, precisamos estudar seriamente para que possamos entender o que ele queria dizer.
Diop aprendeu a ler hieróglifos egípcios antes de iniciar seus estudos formais, com isso, foi capaz de dizer a seus professores: não, vocês estão mentindo, a tradição que vocês nos empurram é uma farsa.
Isso realmente foi algo corajoso a se fazer, mas no fim ele sofreu por isso.
Entender e aceitar o que Diop nos diz não é suficiente. Precisamos estudar para que possamos adquirir os recursos.
Esses são recursos intelectuais altamente valiosos, posso até dizer que deveríamos ensinar nossas crianças a ler hieróglifos.
Eu conheci muitas pessoas que podiam ler alguns nomes escritos na língua antiga dos egípcios, mas só. É como se eles estivessem despertando, mas ainda estão se espreguiçando, sentindo a sensação maravilhosa de estarem despertos novamente.
Precisamos adquirir conhecimento, mas com cautela, esse conhecimento pode se voltar contra nós assim como a droga que nos manteve entorpecido.
Ora, não é incrível saber que você descende de pessoas fantásticas que criaram isso e aquilo? Não. Eles fizeram o trabalho deles, fim.
Eles fizeram o trabalho deles e conseguiram deixar traços que as pessoas tentaram apagar. Não é papel nosso usar o trabalho dos nossos ancestrais para repetir o mesmos crimes cometidos contra nós. Nós temos de usar essa herança como guia para um futuro melhor e caminhar em direção a ele.
“Quais são nossas perspectivas?”.
Por séculos agimos baseados em princípios que são totalmente externos a nós; princípios de lucro descomedido, roubo e a busca por obter vantagens.
Os grandes princípios africanos são o Maat, ou seja, princípios de justiça, equilíbrio e reciprocidade.
Você não encontrará nenhum desses princípios nas instituições modernas. As grandes instituições atualmente são o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e por aí vai…
O problema maior, é que nossos líderes políticos vão até essas instituições e pedem: “nos ensinem o que fazer”.
Bom, tudo o que esses bancos e instituições fazem é destruir e não são diferentes ao dar uma lição. Eles dizem às pessoas; “cortem suas florestas, vendam a madeira e então nós lhes daremos dinheiro, depois, peguem esse dinheiro e comprem armas para se defenderem daqueles que estão furiosos com vocês…”
Enfim, prossigamos para além disso porque esses não são os nossos valores. Nossos valores são totalmente opostos a isso.
Nossos Valores e Recursos
A busca pelo lucro, a busca pelas vantagens… Nós somos pessoas que sofreram com essas buscas. Outras pessoas vieram à África para comprar, seres humanos. Há coisas na vida que não podem ser vendidas. Se os valores africanos estão no topo das nossas preocupações, então nós não deveríamos vender terra, não deveríamos vender ar, muito menos nossa água e que dirá seres humanos. Mas nós o fizemos, sim.
Para recuperar nossos valores, temos de olhar para o passado e encontrar maneiras de reafirmar esses valores contra os dos destruidores…
Nós nunca conseguiremos escapar da nossa “privação” até conseguirmos enxergar e trabalhar em cima dos nossos recursos de forma inteligente.
Isso exige um conhecimento preciso do que são esses recursos.
Se você olhar de forma isolada para apenas um país do continente africano como por exemplo… Gambia, ou, Serra Leoa… Se você separar esses países do continente e olhar apenas para eles, para os recursos que possuem, é fácil chegar a conclusão de que esses são países pobres.
Agora olhe para todo o continente. Ele é três vezes maior do que os EUA e está repleto de riquezas; somos tão ricos que outras nações vêm até nós para que sejamos a fonte de sua riqueza.
Isso aconteceu por séculos, e pasme, o continente ainda não está exausto. Mesmo ainda sendo capaz de suportar por muito, nós precisamos parar essa pilhagem em nossas terras e para isso precisamos de educação.
Houve um tempo que o povo africano não possuía recursos intelectuais, achávamos que se quiséssemos algo, tínhamos de usurpá-las de algum lugar. Agora que enxergamos isso é hora de tomarmos de volta os recursos perdidos.
Infelizmente fomos ensinados que a educação não é para nós.
Precisamos deixar essa forma de pensar no passado porque não há como evoluirmos se não reconhecermos isso.
Agora, não basta que encontremos os valores, isso não é o bastante, nós precisamos de absorvê-los.
Precisamos também de instituições que possam manter esses valores, que possam compartilhar o conhecimento de nossos ancestrais com nossas crianças. Esse conhecimento tem de ser compartilhado com elas o quanto antes, pois, se esperarmos até que estejam na faculdade então já será tarde demais.
Como bem sabemos, todo o sistema educacional está corrompido, cheio de falhas. Nós teremos de construir novas instituições porque as antigas já estão condenadas…A minha sugestão é que olhemos para nossos ancestrais para que possamos ter uma base, não devemos segui-las totalmente, não, apenas aprender com elas.
Havia no Egito Antigo uma instituição chamada Per Ankh.
Seu significado é: Casa da Vida.
Nesse lugar as crianças, desde os 4 anos de idade aprendiam a estudar o conhecimento gerado pelos seus antepassados, por isso o nome Casa da Vida, essas instituições serviam para a perpetuação da cultura fazendo com que ela nunca morresse.
Os ancestrais podiam estar mortos, mas suas memórias e sua herança não.
Enfim, ao meu ver precisamos de instituições para o nosso povo que sejam versões modernas das antigas escolas africanas, as escolas de Per Ankh. Obrigado.