Siddarta e o Destino Humano
Hermann Hesse foi primoroso ao retratar o destino humano, mostrando como a raiz de todos os problemas está no desconhecimento de si mesmo. Um dos exemplos que irei usar para esta exposição é a obra Siddarta.
Siddarta foi um jovem, filho de bramana que chegou ao cume da realização humana, condensando em si toda multiplicidade natural.

A vida humana é a realização no tempo e no espaço do drama da existência. Nascemos sem saber nada do mundo, tudo parece como uma eterna alvorada, revelando a multiplicidade de formas e estados do ser.
Existem aspectos do real que nos são mais caros, que prestamos mais atenção e que escolhemos realizar ou rejeitar. Estes aspectos dão-nos a impressão que estamos exercendo nossa liberdade criadora, fazendo fruir do sulco criativo do nosso ser a fonte inesgotável da liberdade humana.
Para maioria das pessoas o mundo não é um palco no qual possam agir livremente, na maioria das vezes, se assemelha a uma prisão zombeteira que releva a nossa impotência perante à vida. Porque se investigarmos com acuidade, veremos que sempre estamos a repetir o destino de nossos antepassados, presos no samsara.
O mundo tem uma estrutura circular e concêntrica, na qual os eventos sempre se repetem em graus diferentes. No grau mais imediato temos as relações de prazer e desprazer, com seu fluxo mutável e constante. No grau mais elevado temos os ciclos cósmicos que afetam a humanidade como um todo.

O Siddarta começou sua vida dentro do destino familiar. O filho de bramana que estava destinado a ser tão grande ou até maior que seu pai. Tal destino não o contentou por completo, pois a questão de venerar vários deuses lhe parecia estranha, sendo que seria mais sensato a busca pelo Átman, o fundamento da realidade.
Ele caminha dentro do karma familiar até o encontro com o Venerável Gautama, que deu-lhe um sentido mais profundo na sua busca. O Gautama Buda estava no estágio supremo, muito acima dos sábios samanas.
Antes do encontro com o Venerável, a busca pelo fundamento do real não tinha um contorno claro e definido. Ele sentia que havia algo de errado, mas não encontrara modelo humano que lhe fosse suficiente. Após encontrar o Buda, a busca dele tomou uma forma humana, um objetivo claro.

Após o encontro com o venerável, ele toma um rumo improvável na sua vida. Rompendo o destino hereditário, ele busca realizar os outros elementos do seu ser; que até então, eram considerados como absurdos.
O mundo do prazer e da riqueza aparecia ao jovem Siddarta como uma veleidade de homens ignorantes. Tendo decidido conhecer este mundo obscuro, ele abre-se a novos aspectos de si mesmos, mundos inteiros que ele desconhecia. Só que tal destino era insosso, não tinha a mesma fecundidade da sua antiga vida como samana. Com o tempo, ele foi percebendo que estava preso no destino social e pulsional, que julgava reservado apenas aos ignorantes.
De um jovem e talentoso samana, tornou-se um rico viciado e mesquinho. O pássaro da alvorada que cantara em seu coração estava morto, sem brilho e sabor.
O que tinha tudo para terminar como mais uma vida frustrada no samsara ganha um novo sabor. Através do OM, ele percebe que o pássaro não estava morto, mas que ainda estava vivo e que lhe mostrava um destino ainda mais abrangente que os anteriores. Perdendo a identidade samana e burguesa, abria-se a ele o estado infantil, restaurando as possibilidades humanas.
Ele já havia se libertado destino hereditário e social. Nem riqueza, nem a sabedoria exerciam forças sobre ele. o que restava era purificar-se de si mesmo, abrir-se à sua orgiem no cosmos.
O encontro com o barqueiro Vasudeva abriu-lhe novas possibilidades. O barqueiro tinha alcançado uma sabedoria fora do comum, apenas escutando o rio, deixando que este o guiasse na existência. Siddarta, aprendeu o nobre ofício de seu mestre. Aprendeu a guiar e escutar. No entanto, ainda existiam aspectos em sua vida que estavam incompletos: o relacionamento com o filho e a origem paterna.
Pai e filho deram ao Siddarta o conhecimento da origem humana, o caminho que ele fez para chegar até o pai. No momento em que se reconhece no pai, a origem humana no cosmos abre-se a ele. A criança pequena é aquilo que está maximamente potência e o pai é o que está maximamente ato. Ele compreende que na passividade existe a atividade e que na atividade existe a passividade. Todas as coisas no cosmos estão no começo e no fim ao mesmo tempo, tal como o rio.

Ao entender o rio, passou a entender a vida humana. Em todos nós temos o salteador e o Buda, carregamos o espírito de todos os seres. Todos as existências podem ser compreendidas e contempladas. Neste ponto, nada no mundo poderia afetá-lo, ele havia alcançado a Montanha Cósmica; tocando o céu sem sair da terra.
A vida humana é um palco giratório que assumimos diversos personagens, que moldamos o destino ato por ato. As pessoas que não buscam o conhecimento de si mesmas vivem presas na roda dos eventos, presas no que há de mais inferior no homem.