Vida e Destino

Renzo Gurgel
Sep 1, 2018 · 4 min read

Vivemos num período drástico de apagamento da consciência individual. Vemos dia após dia as pessoas animalizadas; levantando slogans vazios de significado, lutando por causas supérfluas, enfim… sendo menos que humanos.

O que distingue o ser humano de um animal é a capacidade de intelecção, a capacidade de apreender a essência dos entes. Tal atividade eleva o ser humano a outra categoria, iluminando cada fresta do seu ser e lhe dando o gosto da perenidade. No entanto, se tal dom divino não é realizado, ele aparece como uma maldição; como bem dizem: a maldição de ser um ente racional e viver no absurdo do mundo manifestado. Concepção, aliás, muito comum entre os jovens de hoje, que acreditam ser seres iluminados, que entendem a verdadeira estrutura da realidade, enquanto o resto da humanidade vive sobre o véu de Maya. Somente pessoas embriagadas pelo amor-próprio podem reduzir o mundo ao tamanho das suas ilusões subjetivas.

O ser humano é formado a partir da intelecção divina numa potencialidade, formando um ente individualizado. O mistério do ser humano se realiza antes da corporalidade; todos elementos que você recebe a posteriori necessitam ser humanizados, ordenados de acordo com a dignidade do ser que a possui.

Tudo que se passa internamente precisa ganhar a medida humana, não ser apenas um produto de variações biológicas. Para isto, é necessário compreender o mundo como ele realmente é, retirar as várias camadas do amor-próprio e deixar que a aurora da vida mostre cada recôndito encoberto do Ser.

Não é uma tarefa simples, é algo que requer uma alma fiel ao bem, custe o que custar. Todos são chamados para compreender a realidade, mas apenas poucos assumem tal empreitada, estes poucos apostam o cosmos inteiro em busca do fundamento do real.

O resto da humanidade não morrerá à minguá, a prática da religião a preservará do mal, como o Cristo prometeu: Aquele que é fiel nas pequenas coisas também o será nas grandes. A religião é necessária para todos os homens, mesmo àqueles mais excepcionais. Ela é a pedra de fundação e angular de qualquer vida intelectual.

A percepção do absurdo é derivada da incapacidade de entender os elementos individuais da vida humana. Muitos de nossos problemas vem do Karma Familiar, aquele fundo de vidas humanas que é-nos legado pela hereditariedade. Elas ficam dentro de ti, clamando por realização. Szondi dizia que todos temos um Caim dentro de nós, a marca do irmão fratricida, que leva-nos ao mal. De fato, porém temos também a marca de Moisés, o bem e a santidade.

Bons exemplos do poder do destino estão nas obras Moll Flanders — Daniel Defoe — e À Sombra do Pai — Luiz Cézar de Araujo — . O Luciano e a Moll são personagens que passaram parte da vida sob o jugo dos seus antepassados. A Moll se afigurava no destino da mãe presa em Newgate; O Luciano se deparava com o fracasso da família Almeida Cândido. Ambos personagens conseguiram se livrar do destino familiar e abrir-se ao horizonte das realizações humanas, o grande palco da humanidade.

O Karma Familiar é apenas um elemento da cruz do mundo, existem vários outros, alguns de nível cósmico. Ao compreender como esses elementos atuam na vida, o ser humano consegue abir-se ao real, tal como ele é. Isto pode ser feito por qualquer pessoa. São José de Cupertino conhecia mais do real que qualquer sábio especulativo. Enquanto o sábio estudava sobre Deus, ele o via.

O conhecimento do fundamento da própria existência está disponível a todos, o que resta é buscá-lo com todo o seu ser. No sacrifício que o ser humano pode deslumbrar o amor de Deus. O conhecimento não é nada mais que o amor buscado, o amor não é nada mais que conhecimento adquirido. Tal como num doce movimento de espada, atividade e passividade se confundem, o esforço de ser passivo ao Ser é em si mesmo uma ação. Neste instante nasce a ação e o repouso perfeito. Neste ponto, o sábio desidentificou-se de tal modo do jovem iludido que parece que estamos lidando com seres de natureza distinta.

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