Oásis do consumo em plena crise econômica

Feira da Loucura por Sapatos em Novo Hamburgo é marcada por intenso movimento mesmo em momento de desconfiança do consumidor

São 10 horas da manhã e o dia está apenas começando para Nilton. Vestido de preto, com cara séria, colocado do lado de fora da loja, ele mantém a mão firme na maçaneta com o objetivo de manter a porta principal fechada. Sua função ali é regular a entrada dos consumidores e evitar a superlotação do espaço dedicado à sua loja na feira. A cada três clientes que saem da loja, três novos clientes recebem o sinal positivo para cruzarem a porta e vasculharem as prateleiras em busca de ofertas que parecem ignorar a crise econômica que é notícia em todo país. Estamos em Novo Hamburgo, onde a maior feira nacional do setor calçadista cumpre metas, superlota corredores e sobrevive a crise com cifras impressionantes para o momento.

Feira da Loucura por Sapatos em Novo Hamburgo: a crise rugiu, mas o público compareceu em peso garantindo as metas.

2015 não tem sido um ano de ouro para o varejo brasileiro. Aliás, longe disso. Os números de um levantamento feito pelo IBGE em agosto deste ano já anotavam queda de de 0,9% nas vendas de varejo pelo país, a maior queda desde 2000. A redução que assustou os patrões reduziu também os investimentos em infraestrutura e contratação de funcionários: dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) indicam que nove entre cada dez varejistas não irão reforçar o seu quadro de funcionários no último trimestre do ano. Os números negativos não param. O custo das famílias consumidoras, medido a partir do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) bateu 7,06% em setembro e atingiu a maior taxa para o período desde 2003. Já há um acúmulo de 9,53% em 2015, ficando, mais uma vez, acima do teto da meta de inflação do Banco Central, que previa 6,5%.


Dependente direta do poder de investimento do consumidor, a segunda edição anual da Feira da Loucura por Sapatos ainda assim foi inaugurada com otimismo no dia 02 de outubro. A estreia atrapalhada pela chuva foi recuperada logo no dia seguinte, quando o tempo estável testemunhou um fluxo intenso pelos corredores daquela que é considerada por especialistas a maior feira calçadista do país.

“Os expositores vieram esperando pelo pior”, confessou Eloe Laux, que esteve presente em outras feiras e não notou diferença no fluxo de vendas mesmo em meio ao mau tempo meteorológico e econômico. “A mídia só divulga coisa ruim, e isso acaba afugentando mais o consumidor do que a própria crise”, contou ele, que investiu em vitrines com bastante foco no público infantil e conseguiu atrair as mães nas vésperas do Dia das Crianças.

O medo de passar pela feira sem alcançar as metas, no entanto, aguçou a criatividade dos expositores, que buscaram maneiras de se destacar na multidão. O resultado foi uma feira mais diversificada do que nas edições anteriores, com a hegemonia do calçado feminino adulto sendo ameaçada por produtos como bolsas e vestuário, e dando espaço na paisagem para estandes com foco no público masculino, explorando um público que raramente tinha espaço em épocas comuns da economia.

Só quem se deu o direito de fazer o clássico mais do mesmo foram as lojas âncoras do evento. Estandes mais prestigiados, como o das marcas Arezzo e Datelli, eram de longe os mais movimentadas. Outros grandes expositores explicaram o fenômeno: o momento de crise estaria fazendo com que os consumidores investissem com mais cuidado e, com isso, as marcas conhecidas estariam largando em vantagem por já possuírem "garantia de retorno".

Carine Marín, proprietária de uma das lojas com maior espaço físico dentro da feira, afirmou que os mesmos clientes de outras edições retornaram para comprar novamente, como tem ocorrido a cada edição. Neste caso, a qualidade do produto estaria ajudando na fidelização, e o desejo por comprar novamente na loja preferida estaria pesando mais do que a escassez de verba.

Para José Vignoli, educador financeiro do SPC Brasil, a proximidade do fim do ano costuma marcar o período em que o consumidor mais gasta com o varejo. Segundo ele, o momento de festividades, férias etc. mexe positivamente com o consumidor e muitas vezes se sobrepõe ao patamar econômico. “O fim de ano faz com que, mesmo com a economia em crise, o consumidor considere ter um dinheiro extra para comprar produtos supérfluos e presentes”.

CRISE? Segundo SPC Brasil e CNDL, 71% dos consumidores brasileiros estariam interessados em adquirir sapatos e itens de vestuário durante o segundo semestre de 2015.

O especialista também afirmou que os momentos de crise costumam ser especialmente preocupantes para setores como o imobiliário, o turístico e o automobilístico, mas que, em situações de dinheiro curto, os bens de menor valor, como o sapato, acabam se tornando os favoritos do consumidor.

Os dados do especialista são embasados pela pesquisa publicada recentemente pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas). Segundo dados publicados em agosto deste ano, a crise e o momento de cortes de gastos teria diminuído a expectativa de compra do consumidor, mas teria aumentado o seu interesse por produtos que podem ser adquiridos em uma única parcela (ver tabela ao acima).


Para Elivir Desiam, presidente da FENAC que acompanhou pessoalmente todos os dias da feira, o resultado positivo do evento não impressionou. Para ele, um evento que tem como tradição oferecer produtos baratos ao alcance de quase todas as classes econômicas não poderia ser tão atingido pela crise assim.

Enquanto diversos setores do país se acotovelam em busca de lucros que salvem o ano de vacas magras, no Vale do Sinos um grupo de lojistas habita duas vezes por ano uma espécie de oásis, onde há água independente da estação. Parece miragem, mas não é.


Até o fechamento da matéria, a assessoria de imprensa do evento não havia divulgado dados oficiais sobre o fluxo de consumidores e sobre as vendas ocorridas nas duas semanas de feira. Informações extra oficiais apontavam que mais de 93.000 pessoas haviam passeado pela FENAC durante os dez dias de exposição.

Reportagem: Grupo

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