Por Luciana Barreto, apresentadora do Repórter Brasil

Há alguns anos, Toni Morrison, a única escritora negra a ganhar o Nobel de Literatura, esteve na Flip, a Festa Literária de Paraty. Causou muito furor. Façam uma busca rápida pela web e vão descobrir que os fotógrafos e fãs se amontoavam para conseguir um registro qualquer. Em meio ao assédio, uma cena causou impacto. A americana premiada parou a agenda por um tempo para receber as colegas brasileiras. Estavam ali nomes conhecidos internacionalmente, Conceição Evaristo e Lia Vieira. Digo, internacionalmente, porque as duas escritoras não foram convidadas uma única vez sequer para compor a Festa Literária mais importante do Brasil. Como Lia prefere dizer, são muito celebradas fora do país, com dezenas de livros e filas enormes para autógrafos em salões do livro. Mas, por aqui…

Este já é um costume abrasileirado. O que dizer do fenômeno Carolina Maria de Jesus. A catadora de lixo negra e favelada, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2014, é uma das escritoras mais traduzidas do Brasil. Conseguiu projeção mundial. Já foi peça de teatro e tese acadêmica. E caiu no esquecimento. “O mercado é macho, branco e rico. Eles vão se interessar pela história que os homens contam. Primeiro vêm os homens, depois a mulher branca e, por último, as escritoras negras”, afirma Lia Vieira.

O universo da literatura feminina negra é recheado de histórias que celebram o ser negro. Trata-se de comprometimento, memória, ancestralidade, perdas, pobreza e superação. Um Brasil muito distante da Academia. É uma literatura que incomoda. “Como diz [o escritor]Éle Semog, rimar amor com flor é mole. Agora, rimar flor com Vigário Geral é que é difícil. Só nós podemos”, explica Lia.

Escritoras já conhecidas do mercado editorial, como Ana Maria Gonçalves, Elisa Lucinda, Helena Theodoro, Miriam Alves e Cristiane Sobral, além de Conceição Evaristo e Lia Vieira trabalham com afinco pelo reconhecimento no Brasil. Lutam contra a invisibilidade. Para Lia Vieira, “a academia, a mídia e o marketing têm muita responsabilidade nisso. Os programas de TV, por exemplo, não convidam escritores negros”.

Quem está começando a se aventurar na mesma trajetória já reconhece as dificuldades. Clarissa Lima acaba de publicar seu primeiro livro, “Cor de Pele: valorizando as diferenças para as oportunidades serem iguais”, e resume os obstáculos para a escritora negra. “Quando chegamos com a temática étnico-racial, mulher, jovem, preta, sem nunca ter publicado e vendido nada, é muito complicado”, lamenta.

Dificuldade, complicação, obstáculos e superação são a matéria prima da literatura afro-brasileira. “Nosso texto tem essa transversalidade. De onde saí e para onde vou. Mas sempre com olhar de esperança”. Bravo, Lia Vieira!

Algumas sugestões:

Conceição Evaristo: “Poncia Vicencio”, “Becos da memória” e “Olhos d´água”.

Lia Vieira: “Eu, mulher”, “Chica da Silva” e “Só as mulheres sangram”.

Carolina Maria de Jesus: “Quarto de despejo”.

Ana Maria Gonçalves — “Um defeito de cor”.

Elisa Lucinda — “A fúria da beleza”, “Parem de falar mal da rotina”.

Esmeralda Ribeiro — “Malungos e Milongas”.

Helena Theodoro — “Os ibejis e o carnaval”, “Mito e espiritualidade — mulheres negras”.

Miriam Alves — “Mulher Mat(r)iz”.

Cristiane Sobral — “Não vou mais lavar os pratos”.

Lívia Natália — “Preciosa”.

Nina Silva — “InCorPoros — Nuances de Libido”.

Íris Amâncio — “África para crianças”.

Clarissa Lima — “Cor de Pele: valorizando as diferenças para as oportunidades serem iguais”.

Toni Morrison: “O olho mais azul”, “Song of Solomon” e “Amada”.

Este texto foi tirado do blog da apresentadora Luciana Barreto, com a autorização dela. Confira!

http://lucianabarreto.com

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