Folhas convulsas

É uma bruma que sobe pelos ombros na noite. Eu, a meia polegada, teria contagiado-me de esperança com um beijo . Mas a bruma, coincidentemente, escondeu-te de mim. A mim me bastou o escuro nulo das estrelas. E não me senti vazio, apenas voltei ao normal.

Edward Hopper — amor contemporâneo
“Um dia deitada, sempre imaginei que fôssemos seres para a solidão. Mas veio você com algumas palavras. Parecia que o tempo parava em cada palavra dita. Noutro dia eu suspirava por pensar assim. Hoje, essa história só existe quando lembrada”.

Esse trecho, li numa carta que você teve o prazer de encaminhar a mim. Pena que minha memória anda tão frágil. Daqui uns dias, eu sei que o mundo lá fora será todo feito dessas lembranças que me foram apagadas. O que me faz pensar que estou cada dia mais vazio. Bem diria a ti: os olhos sem a memória não enxergam. Por isso, essas histórias só existem quando amadas.

Mas nesse prédio vazio que me encontro, não te vejo nem pela lembrança. Sorte, não sofrerá de amor. Parece que eu sei alguma forma de alcança-la toda vez que acordo pela manhã. Porém, algum conflito interno me repreende o sentimento. Não sei explicá-lo. O que me torna ultrapassado é somente que não sei como dizer aquilo que sinto da forma que sinto. Eu não funciono como quero quando quero. Até sei, é covardia minha deixar de imaginar como seria o que tu sente. De antemão, alego: apenas me destaco pela dramatização. Voltaria para perto. Pelo menos o suficiente para ouvir algum barulho. Ainda estaria escuro para saber se acenava um sim para o beijo. Talvez, eu só queira chorar.

Quero ter significado. Pois sobrar demais é perder o que não tenho, é fazer de algum excesso fantasia. E eu achava que conhecia minha dor. Agora, desconheço meus sentidos. É como rimar a irreparabilidade do tempo e minha alegria impermutável que é te olhar pelo enquadre da boca, queixo e nariz.
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