Feriados

Death And Life, 1908 by Gustav Klimt

Eu sei de coisas que ninguém quer me contar sobre as grandes reuniões familiares e as épicas vozes salgadas que me inundam. O sino toca mais uma vez, ao meio dia, me dizendo que o tempo não começa, só acaba, rapidamente, vai vazando de seu corpo e diluindo todo tipo de felicidade. Na mesa redonda a evocação é similar a um grito de bezerro na hora da morte: há carne, gente e mau hálito. Visualizo o sangue que jorra dessa batalha de palavras e gestos que, ao contrário de casuais, são causais.

Todos os presentes estão ausentes. Esse ciclo é alimentado por pensamentos que voam distantes enquanto reproduzimos falas já ditas com pouca profundidade para manter as vozes inalteradas. Ninguém perguntou por mim, mas eu vim mesmo assim. Deslizo no salão familiar mastigando tudo o que me entregam sem discutir: se vem da família então deve fazer bem. Me nutro e engulo a carne com veias e gorduras mantendo os olhos bem fechados. Acontece que já não disfarço a angústia. Todos os sinais são dados e eu não aguento ficar mais de dois minutos sentada sóbria para as conversações. Sinto um pulsar que é como um mau agouro, me revelando, pouco a pouco, o que esta prestes a morrer. Pode ser que seja eu, ou pode ser que algo em mim já tenha morrido e agora fede por toda a sala de jantar.

Finalmente os cafés e sobremesas acabam. Há, enfim, esperança. Mas a sorte está lançada e todos aqui reunidos já sabemos os respectivos desafios: superar falsamente sua versão anterior. Se não conseguir adicionar experiências tente mudar o cabelo. A próxima seita já está marcada.