jogo imobiliário

Tinha tanta coisa em sua mente que era difícil se segurar calada. Fingia estar com fome, com frio, com sono… cada hora uma desculpa para poder se ausentar das perguntas mais íntimas e dos questionamentos mais ultrapassados. Onde está seu amor? Onde está seu dinheiro? Onde está seu trabalho?

No seu antigo quarto de seu antigo apartamento, ela aproveitou para encaixotar as coisas das quais — finalmente — estava prestes a se livrar. Cartas de amores não correspondidos ou correspondidos em excesso, livros sobre temas que não lhe interessam, roupas que nunca usou. A lista era interminável, o trabalho de limpar parecia representar uma ressurreição. Juntou as caixas, deixou os armários ventilando e foi sentar no mesmo bar de sempre.

Sem esperar, sem ninguém lhe avisar, ele teve a audácia de entrar em seu território. Começou suavemente e logo estava aninhado em uma de suas mesas preferidas. Talvez ela tivesse que se sentar em outro lugar, fazer uma reza, trocar de bar. Mas não o evitou. Iniciou, sem saber, um ciclo de adoração que rondaria sua vida em alguns anos ainda por vir. Quanta irresponsabilidade a pobrezinha assumiu sem saber. Ele rapidamente a aniquilou pelo olhar e ela deu a permissão para que ele o fizesse. O encontro entre dois sonhadores só pode resultar em qualquer material que não o frio mármore da realidade.

Após dormirem juntos, mensagens trocadas, interesses compartilhados, ele se foi. Ela acordou neste dia qualquer e levou ainda um tempo para acreditar: sozinha. A noite anterior havia sido festa, havia sido ele nela e ela nele a suar, a vomitar verdades, até adormecerem ébrios de tanto tesão e conciliação e química e amor.

Ela se recolhe toda no sofá, grita e amaldiçoa todas as tentações enviadas por forças das quais ela pouco conhece a esta terra para faze-la sofrer. Faz um chá, toma um banho, come um bolo. Se veste de mulher perfeita e corta os cabelos na pia do banheiro. Tem nas mãos apenas um cigarro. Ganha a rua e procura um novo apartamento para alugar.

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