Música: A cena musical brasileira anda bem, muito bem…

Talvez você estranhe um pouco o título, afinal, sabemos que a indústria da música está praticamente morta, as vendas de discos caíram com o passar dos anos, no entanto a internet revolucionou o jeito como as pessoas ouvem música e tivemos também a volta dos vinis e K7’s, com tudo isso, como anda a cena brasileira?

Se o cenário independente já vinha crescendo desde o início dos anos 2000, quando a MTV ainda existia e nos deparávamos com clipes de bandas como Pitty, Leela, Luxúria, CPM22 e Cachorro Grande, agora olhamos para a cena atual e podemos perceber que muito outros estão surgindo, de diferentes gêneros e propostas, alguns dando a cara a tapa, mesmo em tempos onde as gravadoras estão levando prejuízos com vendas, e por quê?

Com a expansão cada vez maior da internet e dos serviços de streaming como Spotify e Deezer, vídeo clipes no You Tube e as redes sociais, os artistas estão mais próximos de seus fãs, assim como suas músicas e vídeos estão mais acessíveis a todos, hoje em dia qualquer um pode criar e produzir músicas em seu quarto, postá-las na internet e divulgar seu trabalho, neste quesito a internet tem ajudado e muito, os artistas estão a cada momento encontrando saídas para manterem seu trabalho sempre disponível e acessível a todos.

Jaloo (PA) e Rakta (SP)

O que realmente interessa é que temos artistas como o jovem e simpático Jaloo (27), um paranaense que começou fazendo alguns machups de músicas de artistas internacionais e ganhou atenção, se mudou para São Paulo e em 2015 lançou seu primeiro disco intitulado #1, desde então vem fazendo shows por todo o país e participou também de festivais aclamados como o Lollapalooza, sua música é uma mistura de indie eletrônico com influências de tecno brega e música folclórica. O também jovem Silva (pseudônimo de Lúcio Silva) de Vitória, lançou seu primeiro disco em 2012, trazendo uma sonoridade mais inovadora, do indie com a MPB, teve parcerias com artistas como Maria Gadu, Marisa Monte e Fernanda Takai (Pato Fu), também chamou atenção de Caetano Veloso, de quem é fã, ele excursiona por todo o país e também já participou em festivais pela Europa.

Inevitável falar sobre o rock, uma nova onda surgindo, caso da dupla carioca Gorduratrans, que gravaram seu primeiro disco ‘’Repertório infindável de dolorosas piadas’’ em seu quarto, mesmo com baixa produção conquistaram os ouvidos da galera, o que ajudou também na produção do vindouro e segundo disco ‘’Paroxismos’’ que foi gravado com o dinheiro faturado com os streamings do primeiro disco, a banda começou a excursionar o país e ainda tem muito a explorar, a sonoridade traz um rock lento, com riffs ora melódicos e barulhentos com influências de bandas como My Bloody Valentine e The Jesus and Mary Chain, suas letras retratam sentimentos, ansiedade e a vida cotidiana.

Para aqueles que gostam de um som mais experimental, a banda Rakta de São Paulo é um trio de mulheres que mistura em seu som gêneros como post-punk, world music, tribal e industrial, já fizeram turnês pela América do Sul, EUA e Europa, seus shows são como um ritual, camadas de voz, teclado, baixo e bateria que levam o público a um estado de transe. Em sua discografia foram lançados dois full lenghts, um ep e dois singles, além de participações em coletâneas.

Carne Doce

A goiana Carne Doce surgiu em meados de 2013 e tem dois discos lançados, ‘’Carne Doce’’ lançado em 2014 e ‘’Princesa’’ lançado em 2016, traz um rock experimental com letras politizadas e que falam sobre os direitos da mulher, um ponto alto em meio há tanta baixaria na política e o crescimento das discussões em prol dos direitos das mulheres, como por exemplo, o caso do aborto.

O destaque ainda fica para a aparição de artistas LGBT no mundo da música, o que nos leva a pensar onde estavam escondidos ou ignorados tantos talentos, que finalmente estão tendo seus trabalhos reconhecidos.

As Bahias e a Cozinha Mineira, Pabllo Vitar e Linn da Quebrada

A banda As Bahias e a Cozinha Mineira, liderada por duas vocalistas trans surgiu em 2011 na Universidade de São Paulo onde os membros se conheceram, posteriormente se apresentavam em festas universitárias, seu primeiro disco intitulado ‘’Mulher’’ foi gravado em meados de 2012 e lançado apenas em 2015, no som fortes influências da música brasileira, do rock ao samba.

A diva drag Pabllo Vittar, mais conhecida pelo hit ‘’Todo dia’’ que estourou no carnaval de 2017 tem feito centenas de shows em todo o país, todos de casa cheia, seus clipes são sucesso no You Tube e uma legião de fãs é conquistada por onde ela passa, interessante o fato de uma drag queen ter tanta visibilidade em um país onde a homofobia ainda é grande, alguns boatos sobre a participação da Pabllo na festa Criança Esperança da Rede Globo circularam pela internet, o que nos leva a crer que mais um paradigma será quebrado, pois ela será o primeiro artista LGBT a se apresentar.

Também de São Paulo, da zona norte, surgiu em meio aos becos do subúrbio Linn da Quebrada, como ela mesmo se designa, uma bixa preta favelada, com letras fortes e politizadas, Linn usa do funk carioca para espalhar suas ideias e experiências de vida, um de seus objetivos era lançar o primeiro disco intitulado ‘’Pajubá’’ que obteve total sucesso através de um crowdfunding realizado na internet. Linn participa de palestras, festivais e movimentos em prol de pessoas LGBT reforçando principalmente a conquista pelos direitos das pessoas trans na sociedade, seu disco deverá sair no fim do ano e promete movimentar mais ainda a nossa cena.

Com todos esses artistas fica difícil dizer que não temos música boa, existem músicas para todos os gostos, estamos vivendo momentos difíceis na política, na saúde e cultura, mas a fé na música está aí, nesses artistas e bandas que estão engajados não só pela arte mas também pelos direitos e ideais da população, aprecie todos sem moderação.