A bicicleta está para o feminismo, assim como o carro está para o machismo

A comparação de que a bicicleta está para o feminismo, assim como o carro está para o machismo, fica mais forte à medida que me dedico mais e mais a viver e cobrir essas duas causas que amo: feminismo e bicicleta na cidade.

O mundo é tão “carrocêntrico” como é machista

Aprendemos a lógica da cultura patriarcal machista desde que nascemos. Aprendemos que existem atitudes de meninas e de meninos (nos dizem que somos mais comportadas, centradas e boazinhas); que existem coisas que mulheres devem preferir (normalmente brincadeiras que reproduzem os cuidados com casa e família); acreditamos que existem comportamentos que devemos adotar (de docilidade, obediência e submissão), que é mais importante levar em conta o que o outro acha a nosso respeito (“melhor não se vestir assim, pois o que irão pensar? ”). E assim, passamos uma vida de eterna vigilância, cerceadas pelo que nos disseram que é o comportamento correto e nunca à vontade com nossos próprios desejos e ações.

Até que um dia a ficha cai e a gente diz: não faz sentido viver assim! Percebemos que poderia ser diferente. Começamos a questionar o que nos ensinaram e adotamos novas posturas. Viramos uma chave e percebemos o quão feministas nós somos. Porque, afinal, relembremos: feminismo é só e tão somente a busca por igualdade de direitos entre mulheres e homens. Vão te taxar de louca, porque afinal já não vivemos numa democracia e as mulheres podem ter tudo(contém ironia)? Vão te taxar de chata, porque você só vai querer falar de feminismo. Mas não tem volta!

Algo parecido acontece com a cultura do carro. Desde cedo o carro ocupa um lugar de destaque no imaginário popular. Acreditamos que é sinal de status. É promessa dos pais (que podem) presentear filhos que passam na faculdade. É recompensa emocional para famílias que alcançam ascensão social. É o objeto que aprendemos a valorizar como se adicionasse caráter às pessoas. Nos aplaudem quando compramos um, como se fossemos melhores pessoas por isso. Nos fazem acreditar que ele traz liberdade e autonomia. E assim, passamos uma vida nos dedicando a comprar o primeiro carro, pagando preços exorbitantes por um objeto que só se desvaloriza (fora gasolina, seguro, estacionamento, ipva, manutenção). Que polui o meio-ambiente. E pior, tem tanto carro na cidade que ele é incapaz de realizar seu principal objetivo: realizar trajetos no menor espaço de tempo. Mas a cultura está tão estabelecida que seguimos a achar que é isso mesmo que deveríamos desejar.

Até que um dia a gente percebe que carro é caro, não faz bem, é chato e não anda. Percebemos que há alterativas para chegar por um caminho mais feliz. E encontramos a bicicleta. E perguntamos, porque não? E aí viramos uma outra chave e percebemos o quão libertador é se locomover de bicicleta pela cidade. O quão feliz é sentir o vento no rosto. Quanta autonomia. Quanta facilidade. Quanta praticidade. Quanta economia. Quanta alegria em ir e vir movida pela própria energia. Vão te taxar de louca, porque a maioria acredita ser um risco e um perigo. E vão te taxar de chata, porque você só vai querer falar de bicicleta. Mas, não tem volta!

A culpabilização da vítima

No feminismo, uma das lutas é acabar com a cultura de que mulher assediada ou mesmo estuprada estava: “pedindo”, “estava abusando”, “estava em local errado”, “não devia estar ali naquela hora”, “não devia ter usado saia tão curta”, “decote”, e blá, blá, blá, blá, blá… Apenas vamos parar de culpar e responsabilizar a mulher pela atitude machista e criminosa de um homem que é simplesmente incapaz de conter seu desejo. Lugar de mulher é onde e como ela quiser.

No caso da bicicleta na cidade a mesma (i)lógica aparece. Em caso de acidentes com carro, não é raro ouvir que a culpa é do ciclista: que estava no meio da rua, que disputa espaço com os carros, que não respeita os carros, que bicicleta não é meio de transporte para estar nas vias e blá, blá, blá, blá, blá... Apenas vamos parar e relembrar para compreender de uma vez por todas que lugar de bicicleta é compartilhando as vias. Por lei, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a bicicleta é preferência em relação aos veículos automotores.

As ciclovias (permanentes) e ciclofaixas (sazonais) são uma alternativa maravilhosa por promover mais segurança e atrair ainda mais ciclistas para as ruas. Mas, independentemente se elas existem ou não, por lei, a rua já é e será preferencialmente dos ciclistas. Não é uma competição com os carros. É a lei.

Logo, uma bicicleta na rua não é um pedido por um atropelamento, nem uma rixa com os carros. É simplesmente o livre exercício de um direito já estabelecido e que não deixaremos retroceder.

Ambas essas causas, o feminismo e a bicicleta, me ensinam que não é porque sempre foi assim (com a cultura do patriarcado e a cultura do carro), que precisa continuar sendo. A rua é lugar de mulher, sim. A rua é lugar de bicicleta, sim.

A rua é lugar de mulher na bicicleta!

Crédito das fotos:

Foto Sufragetes — portal abcd.com.br

Foto Liberdade — Rachel Schein