A primeira vez que me recomendaram assistir o filme “Roma”, de Alfonso Cuarón, também me alertaram para as questões indígenas representadas no filme. Mas não só isso, o amigo que me recomendou não hesitou em narrar o aperto que sentiu no coração ao lembrar-se da história das mulheres de sua família, que no caso eram indígenas e empregadas domésticas de famílias brancas.

O filme acompanha a história de uma indígena Zapoteca chamada Cléo, que trabalha na casa de uma família branca de classe média alta, em um bairro chamado Roma, na Cidade do México. Ao longo da narrativa, dramas e conflitos são desenvolvidos, tanto na vida de Cléo como da família para qual trabalha. Foi a partir dos contrastes e comparações extremamente distintas entre as duas formas de vida que me inspirei para escrever esse texto.

“Não posso, estou morta.”

“Se bem que eu gosto de estar morta.”

Essas foram as frases que mais me comoveram e me fizeram lembrar de minha avó. Ela era indígena e dona de casa. Longe de sua família e de seu povo, se casou com um branco e foi ser dona de casa. Trabalhou muitas vezes como empregada doméstica e também numa fábrica de café. Não pode completar os estudos, e mais tarde em sua vida cuidou de mim durante a infância. Quando tinha 14 anos ela se suicidou, e foi a partir daí que meus questionamentos sobre a história de minha família começaram.

Nasci no Paraná, e lá o contraste entre as origens das famílias é muito grande. Minha família era constituída por um lado indígena e outro alemão. De um lado fenótipos indígenas, do outro, europeus. Eu não me enquadrava no fenótipo europeu, então constantemente era comparada com minha avó e meu pai por meio de brincadeiras. Isso não me incomodava, porque sempre tive mais afeto por esse lado da família, e gostava disso, mas em alguns momentos essas diferenças pareciam uma barreira para nós.

Frequentemente minha avó recusava convites de familiares para festas ou outros encontros. Algumas vezes ela se abria e contava que não gostava de ir pois a outra parte da família julgava seus costumes. O modo de comer, o modo de se vestir, de falar…

Eu tinha os mesmos costumes da minha avó, então com o tempo comecei a notar comentários maldosos de minha própria família direcionados a mim. Alguns às vezes faziam referência a criação que minha avó me deu, o que de certa forma me atingia e me isolava ainda mais.

Assistindo Roma eu pude lembrar de todos os ambientes em que éramos deixadas de “canto”. Onde mesmo sendo parte de uma família, jamais poderíamos integrar aquele padrão social e de etiqueta estabelecido entre eles. Poucas vezes as diferenças entre nós tinham um nome. Ninguém era direto e falava “você é indígena”, ou que as coisas aconteciam assim porque éramos daquele jeito. Elas simplesmente aconteciam e nós sentíamos.

Dessa mesma forma, o drama da vida de Cléo é exposto no filme. Nós sabemos disso porque somos espectadores e podemos acompanhar a onipresença do narrador. Mas para a família que emprega Cléo, a maioria de seus problemas são invisíveis, não têm origem, não tem um peso significativo. Eles só acontecem, e precisam ser resolvidos. E nesse caso Cléo ainda tem sorte de ter uma família aparentemente legal, gente boa, que paga um médico para ela, por exemplo.

Mas muitas mulheres não possuem sequer um tipo de auxílio. São mandadas frequentemente embora por não atingirem o padrão esperado pela burguesia branca.

É nos bastidores de famílias brancas que a vida de muitos indígenas urbanos se construiu e também se perdeu. Nossas línguas e momentos tristes ficaram guardados em quartos de empregada. Enquanto os homens das patroas vão para a farra, os nossos se afundam nas drogas, dívidas e violência. Enquanto as famílias brancas conseguem criar seus filhos, nós temos que implorar a Deus para que eles nasçam.

É na oralidade que guardamos um pouco do que somos. Com nossas histórias contadas entre quatro paredes, ainda podemos lembrar de algumas coisas.

Ser indígena em contexto urbano é reconhecer sua identidade não pela cultura viva que se pratica, mas pela diferença com o outro, pela ausência de poderes materiais, pelo isolamento.

Nossas culturas jamais foram perdidas, elas se fizeram incompreendidas pelas famílias burguesas e intelectuais. É favorável para aqueles que querem nos exterminar, mas não podem matar nossos corpos, que nossa cultura se aliene, se misture e apodreça. Se o indígena não pode deixar de existir materialmente, deixará de existir figurativamente, no imaginário de todos.

Os sofrimentos pelos quais nossas famílias e nós mesmos passamos diariamente também são parte de nossa história, isso nos constitui enquanto indígenas. Não imaginamos que Cléo é uma indígena simplesmente por seus fenótipos e sua língua. Nos comovemos com o drama de sua vida, sabemos diferenciá-lo dos dramas da família para qual ela trabalha, e isso é suficiente para denominar algo.

O grande problema é que achamos que não temos esse direito. Crescemos com algo entalado na garganta que não é permitido falar. Isso nos consome, até que cheguemos a pontos extremos como o de minha avó, e tiremos a própria vida.

Só não pode mais se afirmar indígena quem está morto. Estamos vivos, e é preciso retomar a nossa voz, entender todo esse processo e legitimá-lo frente a história.

Nossos antepassados não tiveram acesso a diversas informações, não puderam estar tão cientes do processo histórico e de seus direitos. Mas nós temos o poder da era digital, estamos cientes do que se passa no mundo e podemos unir muito mais vozes.

É um dever dessa geração indígena documentar e preservar toda sua história, para que a memória daqueles que se foram seja valorizada e jamais esquecida.