Haron, o artesão tímido

Meu nome é Aron Udison da Silva Lacerda. Tenho 22 anos e nasci em Sorocaba, interior de São Paulo, mas não cresci lá. Vim pra São Miguel, cresci aqui, mas teve um tempo na minha vida que eu voltei pra lá e ficou nessa, de ir e voltar até ficar fixo aqui, morando na Vila Jacuí. Quando eu vim pra cá era diferente, não tinha tanta confusão, os jovens eram diferentes também, o tipo de pensamento ou opinião. Hoje está totalmente bagunçado, que eu vejo assim, pelo menos no bairro onde eu moro. Agora não gosto do bairro, mas antes eu gostava bastante, porque agora não tem como você sair com segurança. Você sair mesmo pra ir na praça, deixar o tempo passar um pouco, pra ficar pensando. Não tem mais isso. Se você sai, você tem que sair com um objetivo, pra ir em um curso, comprar alguma coisa, mas voltar logo pra casa.

Atualmente eu frequento a Casa de Cultura de São Miguel, estou fazendo uma oficina lá, também, às vezes, frequento a Praça do Morumbizinho, e, às vezes, vou no centro de São Miguel, dar uma passeada lá, ver se consigo comprar alguma coisa. Quando vou nas praças não gosto de ficar parado, perdendo tempo, porque pode acontecer alguma coisa. Antigamente eu gostava de brincar com meus amigos na rua, que ainda não era asfaltada, a gente brincava de bolinha, rodava pião, gostava disso e hoje não tem mais.

Minha profissão é artesão, meus cursos são todos envolvidos com arte. Consigo sobreviver sendo artesão, não é fácil, como um advogado, que tem suas regalias, mas pra mim o importante é aquilo, você se manter feliz e conseguir sobreviver, você se alimentar, eu me alimentando, dando para me alimentar, eu estou sobrevivendo. Para passar o tempo eu leio e como eu trabalho com desenho eu não consigo ficar sem desenhar, qualquer coisa a minha volta é motivo pra eu desenhar: a paisagem, uma fotografia, uma cena, o livro que eu estou lendo, então aquilo que a minha mente absorve, de alguma maneira, eu tento passar para a folha, sempre passo o tempo desse jeito.

Faço parte do projeto Awaratã de Arte e Design. Lá cada dia é uma novidade e um desafio também, porque até então a gente nunca se via trabalhando para nós mesmos, se via sempre empregados de alguma empresa, de uma firma. Tudo que a gente passa dentro do coletivo é uma novidade. A gente tem que se virar, mas também tem que ter algumas normas, tem que ter seu horário de trabalho, seu horário de almoço. Lá enxergamos as coisas a nossa volta de uma maneira diferente, como se fossem obstáculos que a gente vai vencendo.

Roteiro entrevista: Karoline Araujo, Willian Marques
Entrevista: Karoline Araujo
Fotografia: Willian Marques
Revisão de texto: Naldo Santos
Transcrição: Karoline Araujo