Helmuth Janz e o pioneirismo: uma história construída em madeira

Aos 83 anos, o carpinteiro aposentado Helmuth Janz acompanhou o desenvolvimento de Londrina e ajudou a cidade a crescer ao emprestar seu talento no manejo da madeira

A casinha de seu Helmuth será doada ao Museu Histórico de Londrina. [Luciano Pascoal]

Beatriz Amaro

Difícil não se surpreender com a quantidade de pedaços de madeira — tábuas, lascas, pó, madeira em todos os formatos — em um espaço tão pequeno. Muitos empreendimentos começaram nesta saleta, onde Helmuth Janz trabalhou durante anos enquanto ainda era carpinteiro e trabalha em pequenos projetos até hoje. No auge de seus 83 anos, seu Helmuth esbanja orgulho ao dizer que foi o primeiro bebê batizado na igrejinha do Heimtal, em 1933, ainda que não tenha sido registrado em Londrina. “Naquela época não tinha cartório, então fui registrado em Jataizinho, mesmo que tenha nascido aqui. Mas fui o primeiro a ser batizado na igreja da nossa família, lá no Heimtal.”

O pai de seu Helmuth, Alberto Janz, veio do norte da Alemanha, em 1930, para trabalhar para a Companhia de Terras do Norte do Paraná. Quando pequeno, seu Helmuth morou em um sítio no Heimtal e se mudou para a cidade para estudar no Colégio Estadual Hugo Simas, onde ficou até completar o primário. Aos 14 anos, voltou ao sítio para ajudar o pai com o trabalho. “Mas não foi por obrigação, não”, ele diz. “Herdei.”

A jornada como carpinteiro rendeu a seu Helmuth lembranças das quais ele fala com afeição, como a construção da casa da filha do ex-político José Hosken de Novaes, de igrejas espalhadas pela cidade, de pontes, escolas e muitas portas, pelas quais as pessoas o procuram até hoje. Um conjunto de quatro cadeiras de madeira, feitas a quatro mãos por pai e filho, ainda está na sala da casa de seu Helmuth, também de madeira, onde ele mora há cerca de quarenta anos. E não é esta a única recordação da família que o carpinteiro guardou: a mala onde guarda suas ferramentas, alguns equipamentos e móveis ou vieram com o pai da Alemanha ou foram feitos por ele. Dentro da mala, inclusive, seu Helmuth mantém os utensílios dos quais se utilizou e ainda se utiliza para trabalhar: plainas, níveis, lixas, medidores, pregos, parafusos e tudo que diz respeito à carpintaria. Ele os manuseia com precisão e cuidado. “Este serrote aqui está com a ponta torta de tanto trabalhar”, comenta. “Este aqui é o nível, que veio do meu pai. Pode ser usado tanto na horizontal quanto na vertical.”

Seu Helmuth se casou em 1961 com a mineira Martha Luiza. Atualmente, ele, que é viúvo desde 2006, vive com a filha Cristina, o genro e a neta Luísa, de dois anos. Além de Cristina, é pai de Rony, Cláudia, Oscar e Marli, que faleceu aos 23 anos, e de quem seu Halmuth fala com emoção e orgulho. Ele guarda álbuns com fotos de quando era criança, ainda no Heimtal, na frente da igrejinha, ao lado dos pais e irmãos, com os amigos… e conserva um exemplar do livro “Heimtal: O passado e o presente no vale dos alemães”, publicado em 1993 pelo IPAC/LDA (Inventário e Proteção ao Acervo Cultural de Londrina) da UEL e que conta, através de textos e imagens, a história dos imigrantes alemães que chegaram a Londrina e colonizaram o antigo bairro.

A linda casa de madeira na qual seu Helmuth mora emana a aura do pioneirismo que o acompanha. É esta saleta, no entanto, que chama a atenção de quem o visita. Pensar que tanta história se passou num espaço tão pequeno é surpreendente. As tábuas ficam amontoadas e o ambiente, à primeira vista, parece desorganizado, mas a verdade é que tudo tem seu lugar. Seu Helmuth sabe cada tipo de madeira que tem aqui, o lugar exato de cada ferramenta ou apetrecho, onde encontrar o que quer que esteja procurando. A poeira circula livremente — faz parte do espaço.

No centro da “oficina”, repousa sobre uma mesa — de madeira, claro — uma pequena maquete de uma casa de madeira. “Essa miniatura eu inventei de fazer para demonstrar o que é a minha profissão”, conta. “É para mostrar às crianças de hoje como se faz a estrutura de uma casa de madeira, por isso não faço o acabamento.” Os detalhes são impressionantes. As dobradiças das portas e janelas, o acabamento, o chão vermelho — tudo tem um porquê. “Eu fiz exatamente como construíamos antigamente: o chão vermelhão, as paredes todas de madeira, o banco na frente. Assim não tem mais.” Seu Helmuth, que passou três meses na construção do projeto e o classifica como um “hobby”, pretende doar a casinha ao Museu Histórico de Londrina. “Fica de herança, não é?” Fica, seu Helmuth. As crianças agradecem — e a cidade também.

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