A cidade dos dois luares

Mentiria se dissesse que o Rio me recebeu bem. Cheguei em 21 de julho de 2016, dia em que algumas forças do além — também conhecidas como evaporação e condensação — decidiram inaugurar a minha estadia no Rio de Janeiro com o segundo dilúvio universal. Afinal, que classe de paraíso de calor tropical me tinham prometido? Bom, isso para não falar do taxista. Uma simpatia. Eu realmente tentei fazer com que ele acreditasse que eu era de Florianópolis, só por aquela coisa da compaixão nacional, para não ter de pagar aqueles 30 reais a mais que vêm incluídos no trajeto para aqueles que usam meias com sandália. O meu plano não deu certo.

Três meses antes de chegar ao Brasil eu não fazia ideia de que arroz com feijão virariam meu sustento, que eu iria brigar pelo último bis da caixinha, que ia odiar o motorista do Uber só por ter unicamente balinha de café — porque, afinal, quem gosta de balinha de café? -, e que iria me apaixonar à primeira vista pela vossa cidade maravilhosa.

O Rio dos meus olhos tem cheiro de brisa de Ipanema, sabor de cachaça barata e colher partilhada de brigadeiro, som de chorinho na São Salvador e, claro, samba na Pedra do Sal. O meu Rio não é chique. Adoro dividir mesa com desconhecido no boteco, me despedir do sol na mureta da Urca, procurar azulejos na Selarón que me falem de saudade. As pessoas do meu Rio não têm mais fusca ou violão, mas viajam de metrô e tocam ganzá. Única no mundo, a noite do meu Rio tem mais de um luar: tem o Cristo no Corcovado e o astro sobre o mar.

Porém, a cotidianidade do Rio de Janeiro, o contato com todas as pessoas com quem tenho falado ao longo desses três meses, me fez notar um certo desânimo generalizado. Uma desconfiança na política e um receio do futuro que parece invadir a vossa resiliência. Mas vocês sabem melhor do que qualquer outra nação que pessimismo nunca curou doente. Como cantava Vinícius, “para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão, não se faz um samba não”.

É isso que eu mais admiro em vocês, irmãos: fazem da flor machucada um poema que se dança, uma festa que se assiste, uma mágoa que se arranja. Lembrem-se que os portugueses esqueceram de levar de volta para casa a palavra saudade. Essa herança ou doce castigo, essa nostalgia incurável que faz sorrir apertando o peito, ficou aqui com vocês também. E da saudade não se foge, a saudade só se canta. O brasileiro, e o carioca especialmente, dificilmente encontrará um lugar para chamar de lar longe do seu cantinho, sem a sua brisa do mar: sabe que outro sol não é o seu sol, mesmo que lhe dê luz. Por isso, lutem dançando pelo vosso projeto, pela vossa igualdade — sem se machucarem -, e como diria Raúl Solnado, humorista português, façam favor de ser felizes. Alegria não é só para exportação!

Três meses depois de ter chegado ao Rio, se alguém me perguntar qual foi a minha única frustração na Cidade Maravilhosa, eu direi que foi não ter conseguido decifrar o sabor do Biscoito Globo. Dizem que tem sabor de infância, de simplicidade brasileira, de carinho da avó. Aí, só aí, dá para ver que não sou carioca da gema, mas agora e para sempre: carioca do coração!

Pedro Santos e Silva

Estudante de Direito e Economia na Universidade Pompeu Fabra de Barcelona e Humanidades na Universidade Oberta de Catalunya, intercambista de Direito na FGV, 8º período.