Aprovação da Olimpíada pelo público é um dos trunfos da campanha de Pedro Paulo (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Pedro Paulo e o futuro do PMDB carioca

Candidato tenta repetir desempenho de Pezão para dar continuidade à hegemonia do partido no Rio de Janeiro

Reportagem: Daniel Gullino

Em dezembro de 2013, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, garantiu que o então vice-governador, Luiz Fernando Pezão, seria eleito governador no ano seguinte. Parecia uma aposta arriscada: Pezão não era muito conhecido, tinha pouco carisma e defenderia um governo com altas taxas de reprovação. Sete meses depois, em julho, no início da campanha, Pezão apareceu com 15% de intenção de votos. Em outubro, ganhou a eleição, no segundo turno, com 55%.

Dois anos depois, o ex-secretário de Governo Pedro Paulo é visto com desconfiança semelhante na disputa pela Prefeitura do Rio. De acordo com a última pesquisa do Datafolha, Pedro Paulo aparece com 8% das intenções de voto, em quarto lugar — em empate técnico com outros quatro candidatos.

Além de sua eleição, está em jogo a continuidade do projeto de poder do PMDB, que dominou a política carioca nos últimos 10 anos. Mas Eduardo Paes conseguirá fazer com Pedro Paulo o que Sérgio Cabral fez com Pezão?

Ascensão e queda

A mais recente passagem do PMDB no comando do estado começou em 2003, quando a então governadora Rosinha Garotinho deixou o PSB e entrou no partido. Rosinha não disputou a reeleição, apoiando o então senador Sérgio Cabral. O vice, Pezão, foi indicado pelo casal Garotinho.

Após a eleição, contudo, Cabral rompeu com seus antecessores, dando início a uma nova etapa do PMDB do Rio de Janeiro.

Foram precisos dois turnos, mas ele foi eleito com facilidade: derrotou Denise Frossard (PPS) por 68% a 32%. Dois anos depois, Eduardo Paes — adversário de Cabral em 2006 e, depois, seu secretário — enfrentou uma campanha muito mais difícil para a Prefeitura, vencendo Fernando Gabeira (PV) por menos de 2% de diferença (50,83% a 49,17%).

A partir daí, o PMDB carioca teve seu auge. Alavancado principalmente pelo sucesso das UPPs, Cabral foi reeleito no primeiro turno, em 2010, com 66% dos votos. Em 2012, foi a vez de Paes, que tinha a preparação do Rio para sediar a Olimpíada como principal vitrine: 64%, também no primeiro turno.

Nos anos seguintes, as coisas mudaram: as UPPs entraram em crise, Cabral sofreu desgastes por sua proximidade com empresários como Eike Batista e Fernando Cavendish e ainda foi um dos principais alvos dos protestos de junho de 2013. Enfraquecido, perdeu força na campanha pela sua sucessão e viu uma debanda de aliados.

São justamente as mudanças nas coligações do PMDB que exemplificam melhor a ascensão e queda do partido no Rio. Um exemplo é o senador Marcelo Crivella: adversário de Cabral, em 2006, e de Paes, em 2008, passou a apoiar os antigos rivais em suas campanhas à reeleição.

Depois, no entanto, Crivella rompeu com os peemedebistas, foi candidato em 2014, e voltou a ser neste ano. Processo quase idêntico ocorreu com partidos como PT, PCdoB e PSB.

A desintegração das alianças tornou complicada a eleição de Pezão, em 2014. E é um dos grandes desafios de Pedro Paulo.

Pedro Paulo e a sua candidata à vice, Cidinha Campos (PDT) (Foto: Divulgação)

Tempo de TV é arma contra alta rejeição

Dos sete principais adversários de Pedro Paulo em 2016, cinco apoiaram a reeleição de Paes em 2012: Crivella, Jandira Feghali (PCdoB), Indio da Costa (PSD), Carlos Osório (PSDB) e Flávio Bolsonaro (PSC). Osório, Jandira e Indio, inclusive, foram secretários do prefeito.

Os outros dois são Marcelo Freixo (PSOL), que concorreu contra Paes, e Alessandro Molon (Rede) que, apesar de ser filiado na época ao PT — partido que indicou o vice-prefeito, Adilson Pires — foi contrário à coligação.

Além de um maior número de rivais competitivos, o candidato governista tem outras pedras no caminho. A maior delas é a acusação de ter agredido a ex-esposa. Pedro Paulo foi inocentado pelo STF, mas, entre a divulgação do caso e a decisão da corte, foram dez meses de exposição pública, que tornaram o episódio amplamente conhecido.

Essa é, provavelmente, a principal causa de sua alta rejeição: 28% dos entrevistados pelo Datafolha não votariam nele em nenhuma hipótese. É o maior índice, logo acima de Bolsonaro (27%) e Jandira (23%).

Outra dificuldade é a própria situação do PMDB. Também segundo o Datafolha, 68% dos cariocas não votariam em um candidato apoiado pelo presidente Michel Temer, e 61% não seguiriam a indicação de Eduardo Paes.

A grave crise fiscal que o governo estadual enfrenta — que levou a atrasos constantes no salário dos servidores e a problemas na saúde e na educação — também fez de Pezão um aliado incômodo.

Diversos outros fatores, contudo, contam a favor de Pedro Paulo. Apesar das dificuldades, uma ampla coligação foi montada — são 16 partidos — , o que o deu direito ao maior tempo de TV: 3min30s. O número é bem superior ao segundo maior: 1min27s, de Jandira Feghali.

O candidato governista também largou na frente na arrecadação: mesmo com as doações de empresas proibidas, já recebeu mais de 6 milhões de reais de pessoas físicas e de seu partido. Além disso, a máquina municipal faz diferença — como ele próprio já admitiu. Por fim, a avaliação positiva da Olimpíada entre o público tem sido explorada na campanha.

Entre as duas pesquisas realizadas pelo Datafolha, Pedro Paulo foi o que mais cresceu, mesmo que dentro da margem de erro: 3%. Salvo em caso de queda acentuada de Crivella, o candidato do PRB parece garantido no segundo turno. Sobraria uma vaga, a ser disputada ponto a ponto com Freixo, Jandira, Bolsonaro e Indio.


Eduardo Paes já afirmou que seu “caminho natural” é ser candidato a governador em 2018. Uma candidatura à presidência também foi especulada, daqui a dois anos ou depois. Ele é o principal nome do partido no estado, depois de dificuldades enfrentadas por Sérgio Cabral, Pezão e Eduardo Cunha, entre outros.

Quando, contrariando todas as expectativas, Paes insistiu na candidatura de Pedro Paulo após às denúncias de violência doméstica, sabia que uma vitória de seu candidato era uma peça importante de seu plano político. Daqui a pouco menos de três semanas, saberemos se ele fez a aposta certa.