Um sopro que sai do microfone é um tufão no ouvido do menino

Rap é arte, é rima, é resistência. Tá sempre ali, em cada rua sem saída e em cada quebrada. Provém dos guetos jamaicanos, possui um discurso lírico e musical com forte poder afirmativo, e expõe a realidade do homem periférico.

Dentro da região metropolitana de São Paulo, o distrito do Capão Redondo fica na Zona Sul e está à aproximadamente vinte e quatro quilômetros da Praça da Sé. De transporte público, entre as 17 e 18 horas, horário de pico, a distância dura quase duas horas. A Linha-5 Lilás te deixa no centro. Para subir o morro, você espera os poucos ônibus do final do dia ou sobe a pé.

Região que constantemente remete à violência, degradação e problemas sociais, o Capão é um dos guetos de São Paulo. Nos anos 90, a região chamava a atenção por ser considerada um dos lugares mais violentos do mundo, de acordo com a ONU. Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock destacaram a rotina de brutalidade em que os moradores da periferia da zona sul estavam submetidos.

“Sobrevivendo no Inferno” (1997) é o quinto álbum do grupo de rap Racionais MC’s e, apesar de ter sido lançado por uma gravadora independente, alcançou mais de um milhão de cópias vendidas. Seu lançamento colocou o grupo no panorama da cultura brasileira da década. Construídas como crônicas sobre o cotidiano dos moradores da periferia de São Paulo, as músicas são marcadas por fortes introduções que combinam sons “reais” — tiros, sirenes de carros da polícia e freadas de pneus, à voz do rapper.

“Eu tenho uma bíblia velha, uma pistola automática e um sentimento de revolta. Tô tentando sobreviver no inferno.”, Gênesis (1997).

O rap estava nas rádios comerciais, na televisão e nos toca-discos da classe média branca. A mistura de música e poesia bruta, vinhetas e letras agressivas ritmadas, estava em composições extensas. Os sons chegavam a mais de dez minutos, sem refrão ou repetições.

Nos anos 2000, Antônio Neto (26) teve seus primeiros contatos com o rap. “Tinha um valor muito forte nas ideias, nos movimentos”, ele comenta, enquanto segura uma garrafa de cerveja e se acomoda no sofá do segundo andar da Adega do Baguinho, bar localizado próximo à estação Vila das Belezas, arredores do Capão. Quando chegamos, nos encontramos com ele, Piti (29) e Deborah (27), sua namorada. Neto acendeu um cigarro e colocamos o celular para gravar.

Mema Fita — seu nome artístico, é cantor e compositor de rap. Parte do Coletivo M2F, foi o único integrante que continuou no ramo. Lançou seu primeiro CD em 2013, e seu último som, “Tamo Trampando”, chegou a quase 2 mil views no Youtube e tem como tema principal a política brasileira. “Meus temas não são premeditados, vêm do instinto. Fala de política e violência policial”, ele acrescenta. As músicas são retratos cantados do dia a dia: os temas ilustram o cotidiano de alguém nascido e criado na periferia.

Jefferson Dezoti (25), demorou um pouco mais para chegar. Ele saiu da Avenida Paulista, onde trabalha na Fundação Cásper Líbero, e voltou à região da Vila das Belezas de bicicleta. “Chego mais rápido do que de trem ou ônibus. Ultimamente tô conseguindo fazer o trajeto em cinquenta minutos”, ele comenta.

No caminho para o bar, Dezoti tomou um “enquadro”. Ele comentou o ocorrido de maneira descontraída, explicando como aconteceu e ressaltando que aquilo não era novidade. O fato gerou outro assunto em questão: as diferenças entre a força policial na periferia e nos bairros de classe média alta de São Paulo.

O “perfil do suspeito” está na periferia e o sistema trata o pobre como inimigo. A Polícia Militar é responsável pela maioria de homicídios do país, contando o baixo acesso que os números possuem. No Brasil, a maioria dos casos são contabilizados apenas nas grandes capitais e centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. “O Campo Limpo e o Capão Redondo tão colado na violência policial”, um deles comenta.

Neto relembra, principalmente, as chacinas de Osasco e do Campo Limpo. A primeira ocorreu em 2015 na Grande São Paulo e deixou ao menos dezoito mortos, com vítimas entre quinze e quarenta anos. No ano passado, de acordo com a pasta da Segurança, o DHPP concluiu o caso. Três policiais e um guarda-civil estão para ser levados à júri popular.

Mas a periferia também convive com a sua violência interna. Em abril deste ano, três pessoas foram mortas no Campo Limpo. As vítimas, que tinham entre dezenove e vinte e nove anos, foram baleadas na altura da Rua Carualina e nas proximidades da Rua Professora Nina Stocco, onde fica o Hospital Campo Limpo. Um conhecido dos jovens afirmou ao site “G1” na época, que suspeitava dos “pés-de-pato”.

Na Vila das Belezas, ao contrário do que ocorre no Capão Redondo e em outras periferias de São Paulo, quem comanda são esses assassinos de aluguel. Dentro de um sistema hierarquizado na periferia, são contratados para executar adolescentes em uma tentativa de acabar com a violência e o tráfico, batendo de frente com os traficantes.

Um dos primeiros raps do Racionais MC”s, “Pânico na Zona Sul”, chamou atenção para o terror causado por esses matadores que transitavam entre a polícia e a defesa de estabelecimentos comerciais na região. “Justiceiros são chamados por eles mesmos. Matam, humilham e dão tiros a esmo, e a polícia não demonstra sequer vontade de resolver ou apurar a verdade, pois simplesmente é conveniente. Por que ajudariam se nos julgam delinquentes?”

Com participação do Mano PX, Neto faz referência a esse genocídio no som “Escolhe Muleque”. Gravado no Jd. Capelinha e Campo de Fora, regiões que integram o Capão Redondo, o clipe incia-se com um trecho do filme Cidade de Deus (2002). “Esse vídeo é dedicado a João*, assassinado na zona sul de São Paulo por ‘justiceiros’ que covardemente colaboram com o genocídio da juventude preta, pobre e periférica”, destaca no final.

Através da internet, Neto reconhece que o rap alcançou um número maior de pessoas, mesmo em um espaço de tempo relativamente curto. Quando adolescente, tinha de ouvir a programação inteira da rádio para conseguir desfrutar de uma ou duas músicas que gostava. Hoje, o cenário musical conta com as mídias sociais e seu poder spreadable. “Quem imaginou que o rap nacional ia depender da internet?”, comenta Deborah, ironicamente.

O espaço do rap é seletivo. No Brasil, o mercado é pouquíssimo profissionalizado, com poucos DJs integrados unicamente no estilo, assim como fotógrafos e estúdios especiais. Além disso, o rap produzido por uma classe maior acaba fazendo mais sucesso. Da mesma forma que os comerciais de televisão, o Youtube e o Facebook, por exemplo, vendem views e anúncios. Maior capital para investir em mídias sociais, mais pessoas alcançadas.

Ainda assim, é a internet o maior canal de protesto. A grande mídia e a televisão não só censuram, mas muitas vezes acabam vendendo notícias falsas. Na busca do Google, as primeiras notícias sobre o Capão Redondo tratam-se da violência. “Capão Redondo é perigoso”, “Capão Redondo é o bairro mais violento…”, “Capão Redondo é um dos bairros mais cinzas de São Paulo…”

Usando como exemplo o rap da classe média, Neto comenta como as letras vividas acabam trazendo a cor na vida do jovem periférico. “Quando você decide fazer rap, você fecha um pacto com a favela”, ele termina. Em um contexto no qual o jovem periférico tem chances mínimas de ter sua voz ouvida, é o rap que aos poucos o tira de uma espiral de silêncio construído pela mídia.

*Nome fictício usado para preservar a identidade da vítima.

ESPAÇO COMUNIDADE

Fruto do Projeto Comunidade Samba do Monte que era realizado no Centro Cultural Monte Azul, foi inaugurado em janeiro de 2012, independente e sem fins lucrativos. Foi lá que Neto teve suas primeiras experiências com o rap. “Comecei com a galera do Espaço Comunidade, que me deu uma força. Depois, eu comecei a me apresentar em vários picos”, foi a primeira coisa que ele falou quando começamos a entrevista.

O Projeto Samba do Monte acontecia em um espaço pequeno, mas com um público relativamente grande. Jaime Lopes, um dos idealizadores do projeto, comenta que quando o dia estava ensolarado, o número de pessoas chegava a oitocentas ou novecentas. Aos domingos, acontecia uma roda de samba, no qual eles buscavam homenagear escolas de samba e velhas guardas, o maior segmento dentro de uma agremiação.

Por conta de problemas com a polícia e das festas que ocorriam dentro de um lugar pequeno, eles se mudaram para o Espaço Comunidade, na Rua Domingo Marques. Lá, depois de seis meses, o “Monte” teve fim e a nova ideia era montar um sarau: o “Versos Em Versos”. Com quatro anos, foi nele que Jaime entendeu que era mais fácil lidar com um público menor e de certa forma, mais consciente.

Ocupado por coletivos, o Espaço promove eventos e apoia produções artísticas, culturais e socioambientais, divulgando movimentos e desenvolvendo ideias. Reunindo poetas, cantores, atores e artistas plásticos, os eventos compreendem apresentações livres, individuais ou coletivas, e procuram ampliar trocas de conhecimento, incentivo à leitura e expressões culturais, e, sobretudo, consciência sobre cidadania e periferia.

Jaime comenta que o espaço contribui para a ocupação de lugares públicos dentro do bairro. Esses, que no passado ficavam reclusos aos problemas sociais. Os moradores participam das atividades que lhes interessam, trabalhando com culturas, sexualidade e meio-ambiente.

Localizado no bairro Jardim Monte Azul, o Espaço está na Rua Domingo Marques n° 104. O telefone para contato é (11) 5851–4825, e o e-mail é comunidadeespaco@gmail.com. Os eventos acontecem às segundas-feiras, às sextas-feiras, aos sábados e aos domingos.