Barbeiros em alta

Por Bruna Mazarin Boaventura

Elas estão de volta. As barbas saíram do imaginário antigo e passaram a cobrir os rostos de todos os homens. Em parte, celebridades jovens e até mesmo os ícones de Hollywood ajudaram a resgatar o estilo. Mas a nova moda hipster foi a grande incentivadora para que os homens abandonassem o estilo imberbe. Hipster é um termo usado para definir jovens urbanos, com gostos que costumam ser associados à música, roupas e acessórios que seguem a uma linha alternativa.

A consultora de estilo Ana Canhadas explica que a barba sempre foi cíclica, só que desta vez vem mais forte por ter alcançado o público mais jovem. “Ela não é mais sinal de idade, seriedade. Hoje a barba tem uma imagem descolada, jovial, até despojada em alguns casos”.

Ana diz que quando o assunto é barba não há muitas regras, vale o estilo e o bom senso. “Tem homens com barba muito falha e muito rala. Particularmente eu acho que fica feio. Cada um precisa analisar como é seu rosto e o tipo de barba, dessa forma irá achar a melhor opção”.Acima de qualquer padrão de moda, a consultora reforça ser importante se sentir bem com o espelho. Ela diz ser possível adotar desde uma opção mais certinha e bem aparada, até um estilo mais despojado, com uma barba grande e cheia. “Claro que como convivemos em meio a várias regras é sempre importante analisar a sua rotina. Onde trabalha, que atividade desempenha, se tem tempo para cuidar de uma barba mais longa. No mais, é só deixar crescer e escolher seu estilo”.

“Cirurgião capilar”
E para aderir ao estilo, nada melhor do que procurar um profissional da barba, o barbeiro. Na área há quase 60 anos, Armando Xavier de Souza, do Salão Azul, aprendeu o ofício em sua terra natal, Ibicaraí (BA). “Quando fiz 17 anos meus padrastos queriam que eu tivesse uma profissão. Tentei alfaiate, mas não deu certo. Então experimentei ser barbeiro. Com o tempo, fui me aperfeiçoando e tomando gosto pela profissão. Descobri que era nisso que eu queria continuar trabalhando”, conta Armando.

Ele chegou a São João da Boa Vista há 45 anos e, desde então, atende diversas personalidades da cidade e da região, muitas registradas em um “painel da fama” que ele tem em seu salão. “O Sidney Beraldo é meu cliente desde que cheguei aqui, quando ele ainda fazia Tiro de Guerra. Ele me contava que dizia para as pessoas, quando era chefe da Casa Civil, que viria até São João fazer a barba e o cabelo comigo. Sergio Reis também foi meu cliente, inclusive em São Paulo, em uma época em que ele mal tinha dinheiro para pagar o corte de cabelo. Em sua última vinda a São João ele veio falar comigo e me agradeceu pela época em que ele não tinha dinheiro para pagar e eu o ajudei”.

Mas Armando não se considera um barbeiro. Ele diz ser um “cirurgião capilar”, apelido dado por um de seus clientes que é médico. “Esse nome pegou. Todos os clientes, que vêm até aqui me chamam de cirurgião capilar. Tenho 23 médicos que fazem a barba e o cabelo comigo e eles me chamam assim”.

Armando conta que existem técnicas especiais para fazer a barba, além de dicas que ele dá aos clientes para mantê-la sempre macia. “Tiramos um pouco da bochecha e desenhamos conforme o contorno do rosto. O bigode também precisa ter, senão não fica adequado. Ensino os clientes a passarem um creme no rosto depois do banho, para que a barba fique sempre macia”, completa Armando.

Mercado em expansão
Já Roberto da Silva Freitas, que há 30 anos trabalha com cabelo e barba, veio de São Paulo para São João há cinco anos. “Notei que essa região era carente de profissionais da área. Então quis trazer esse conceito de barbearia para cá”, conta. Ele diz que utiliza a técnica do visagismo, que analisa o perfil físico do cliente, além da imagem que ele quer passar, para identificar qual a melhor opção de cabelo e barba. “Um jovem médico ou advogado, por exemplo, sai da faculdade com aquela cara de bebê. Com a barba conseguimos passar um conceito de seriedade e credibilidade”.

Roberto lembra que, quando chegou a São João, pensou que enfrentaria certo preconceito por parte do público masculino, mas diz ter se surpreendido. “Por ser uma cidade interiorana, imaginei que os homens teriam vergonha em vir até um salão. Mas não. Vejo que em todos os lugares temos um homem moderno, que se preocupa com a aparência. Eles chegam aqui informados das tendências, perguntam por novos procedimentos estéticos”.

Sobre o retorno da barba à moda, Roberto diz achar que não será passageira. “Hoje a barba é a estrela. Mas essa moda veio para ficar. Eu mesmo descobri, aos 50 anos, que meu estilo é esse. Nunca mais vou tirar a barba. Meu jeito, minha postura mudaram. As pessoas mudam seu estilo, sua imagem com a barba”, concluí.

Tradição familiar
Para o barbeiro Fernando Betti, a profissão veio como uma herança de família. Ele conta que o avô, Francisco Betti, cortava cabelos aos finais de semana, em sua propriedade na zona rural de São João. “Meu pai Pedro Betti, depois de mudar para cidade após o falecimento de meu avô, começou a trabalhar como barbeiro, na Barbearia do Mané. Após um ano, abriu sua própria Barbearia ,na rua Raticlif, próxima à linha férrea”.

Betti diz que toda sua vida foi rodeada pelo ambiente das barbearias, principalmente por ser muito apegado ao pai. Seguir os mesmos passos foi questão de tempo. “No começo de 2001 deixei meu emprego em uma empresa e montei uma barbearia”. Hoje ele avalia ter sido a melhor escolha que fez profissionalmente. “Trabalhar como barbeiro é um sonho realizado. Hoje divido meu tempo com a vereança e consigo conciliar as duas coisas bem, pois trabalho com agendamentos por telefone e uso até redes sociais para agendar os clientes”.

O barbeiro observa que houve uma grande lacuna no interesse dos jovens da década de 80 e 90 quanto a se especializar no seguimento. “Atualmente a procura voltou e temos até mulheres fazendo curso de barbearia. Em grandes capitais, há um novo estilo de barbearias, com bares e até salas de jogos de carteado e sinuca”. Ele diz ter notado uma procura maior por jovens, que antes não eram adeptos ao estilo. “Os jovens procuram uma barba mas aparada, quase por fazer, e sempre desenhada. São os estilos ‘chin curtain’ e ‘full beard’”, finaliza.


A história dos barbeiros

Barbeiro era uma das profissões mais comuns na área médica durante a Idade Média, que eram geralmente incumbidos do tratamento de soldados durante ou após batalhas. Nesta época, cirurgias em geral não eram realizadas por médicos, mas por barbeiros, que também faziam pequenas operações nos ferimentos dos camponeses e sangrias.

No Brasil dos séculos XVI e XVII os barbeiros-cirurgiões, eram portugueses e espanhóis, cristãos-novos e meio-cristãos-novos que praticavam pequenas cirurgias, além de sangrar, sarjar, lancetar, aplicar bichas e ventosas e arrancar dentes, além de cortar o cabelo e a barba.

Litografia de Jean-Baptiste Debret (1768–1848), Barbeiros Ambulantes

Dentre seus instrumentos constavam navalha, pente, tesoura, lanceta, ventosa, sabão, pedra de amolar, bacia de cobre, escalpelo, boticão, escarificador, turquês e sanguessugas. Os mais humildes praticavam suas atividades na própria rua, enquanto os mais abastardos tinham suas lojas.