Cabelos naturais em alta

PRECONCEITO — Lethycia Costa já sofreu preconceito por causa do cabelo, mesmo assim não se deixou abalar e ostenta seus cachos naturais ”somos muito mais que primeiras impressões e opiniões alheias, somos muito mais do que padrões sociais impostos. Devemos nos amar e nos aceitar do jeito que somos, com nossas diferenças e singularidades”.

Por Mirela Borges

“Eu me orgulho muito do meu cabelo, porque é algo muito meu, tem a ver com a minha personalidade, com minha essência, com quem eu sou!”. É assim que a estudante de publicidade Mariane Lorentz se define ao falar dos cabelos. Ela, assim como outras mulheres, decidiu mantê-los naturais.

Segundo uma pesquisa realizada pela L’Oréal Brasil, 56% das mulheres têm cabelo cacheado ou crespo, e 63% delas desejam tem o cabelo liso. Apesar do número ainda ser alto, este cenário está mudando graças ao empoderamento feminino, com atos que enfrentam os padrões sociais estabelecidos.

Mariane Lorentz conta que chegou a sofrer intolerância social, principalmente por parte da família: “As críticas sempre partiam de dentro do meu círculo social e isso acontece até hoje, porém com menor frequência”. Mas que, apesar de algumas críticas, ela não pensa em alisar os cabelos: “Eu adoro meu cabelo do jeito que é. Acho que as mulheres devem manter seus cabelos como são, é sua identidade, acho lindo cabelos crespos e cacheados!”.

Apesar de não ter sido influenciada para deixar os cabelos naturais Mariane acredita que o empoderamento feminino é uma forma de ajudar as mulheres a se aceitarem como são: “Eu penso que, de certa forma, os movimentos feministas acabam por fazer com que as mulheres tenham força em suas atitudes, formas de pensar e ser. Eu sempre fui assim, dona de mim mesma, então acho que é algo natural da minha própria essência.”

Me descobrindo
“É poder ser quem eu realmente sou. Depois que eu assumi meu cabelo natural eu não mudei só por fora, mudei também por dentro, e poder sentir que a sociedade não faz mais escolhas por você é libertador”. A criadora do blog Me Descobrindo (joicearauujo.wixsite.com/medescobrindo), Joice Araújo, contou como as práticas de empoderamento feminino a ajudaram na decisão de manter o cabelo cacheado: “o empoderamento me deu a coragem de tomar o poder sobre mim, entender que eu posso ser como eu quiser, usar o cabelo que eu quiser e me sentir bem, porque na verdade o que importa sou eu, o que eu acho, como eu me sinto sobre as minhas decisões”.

Apesar de já ter usado cabelo liso, Joice afirma que depois que começou a usar o cabelo ao natural se sente mais confiante: “Decidi manter meu cabelo natural por um conjunto de fatores. Para não ser dependente das químicas de alisamento, pela praticidade e pela diversidade. Sem contar na liberdade que isso traz, pois, eu acho, que para a mulher o cabelo é uma das coisas mais importantes, e eu me sinto bem mais confiante com meu cabelo natural.”

Meu cabelo é história
“Eu decidi voltar meu cabelo ao natural, tive progressiva por muito tempo, porque eu me descobri, eu vi que o que eu sou não é feio, apesar de não ser algo tão apreciado pela sociedade, é algo apreciado por mim.” Disse a auxiliar de recursos humanos, Lethycia Costa ao ser perguntada sobre o porquê de ter decidido manter o cabelo natural.

Lethycia relata um episódio, na escola, em que sofreu descriminação por causa do cabelo: “Na minha formatura da oitava série eu havia feito relaxamento no cabelo, para controlar o frizz, e no momento de tirar as fotos dos formandos, uma moça perto de mim disse ‘É o dia da ‘negra do cabelo duro’ fazer chapinha’ e após isso ela começou, todos os dias, a fazer umas provocações prejudiciais para a auto estima de qualquer um.” Mas atualmente ela ressalta que “seu cabelo tem uma história de aceitação e autoestima”.

Padrão de beleza midiática
A mídia ainda exerce uma forte influência em relação ao padrão de beleza feminino, entre estas características impostas pela sociedade está o cabelo liso. A professora e doutora em psicologia, Betânia Dell’Agli, ressalta a importância do padrão que a mídia estabelece e como isso influencia: “É impossível pensar nestas questões de estética e beleza sem reportarmos à questão da mídia e dos padrões que são estabelecidos como modelo de beleza a ser seguido. O empoderamento das mulheres vem justamente ao contrário desta questão, no sentido em que elas [mulheres] vão se tornar mais conscientes e críticas de quem são, de seu papel na sociedade e da valorização própria, e não apenas da estética”.

QUESTÃO DE IDENTIDADE — “Meu cabelo faz parte do meu corpo, e o corpo da gente é o nosso templo, por isso devemos respeitá-lo. Quando não conseguimos aceitar quem somos não vivemos bem, nem com as pessoas ao nosso redor e nem com nós mesmos”, disse Mariane Lorentz.

Os cabelos cacheados e crespos foram sinônimos de moda nos anos 70 e 80. É o que explica o cabelereiro e proprietário do salão JM Cabelereiros, João Luís: “No fim dos anos 70 e começo dos anos 80 as mulheres usavam cabelos crespos porque era moda, claro que o ‘empoderamento feminino’ já existia, o que não existia era a informação em larga escala. Acredito que hoje em dia as mulheres estão bem representadas, informadas, conectadas e antenadas. E através dessa informação vem também os produtos que valorizam essas mulheres empoderadas”.

As práticas de empoderamento feminino ajudam cada vez mais mulheres a se aceitarem do jeito que são, isso reflete também nos cabelos. E como mostram os dados divulgados pelo Google BrandLab. Entre os anos de 2012 a 2016 as pesquisas em que as buscas na internet por fotos, produtos e dicas que ajudem a deixar os cabelos cacheados mais bonitos e saudáveis cresceram 232%, sendo que 2016 foi o primeiro ano em que a pesquisa por cabelos cacheados superou a busca por cabelos lisos.

O que é empoderamento feminino?
Segundo um estudo sobre tendências visuais, divulgado pelo site de banco de imagens, Shutterstock, o termo empoderamento feminino foi o mais procurado no Brasil, em 2016. Porém algumas pessoas ainda não conhecem o significado ou confundem com o feminismo.

Feminismo é um movimento social e político, criado no início do século XX, que tem como objetivo conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres. Atualmente este movimento está em evidência graças às redes sociais, que possibilitam o aumento da visibilidade deste ideal. Um dos principais problemas sociais que o movimento feminista visa acabar é a violência de gênero no Brasil. Os dados nacionais surpreendem, a cada 12 segundos uma mulher é violentada no Brasil, de acordo com uma pesquisa da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal.

Já empoderamento feminino, apesar de ser uma consequência do movimento feminista, é algo diferente. O verbo empoderar-se significa o ato de tomar poder sobre si, ou seja, é o ato de conceder o poder de participação social às mulheres, garantindo que possam estar cientes sobre a luta pelos seus direitos. São as ações para desenvolver a igualdade de gênero, por meio do fortalecimento feminino.

Atualmente, existem diversas ONG’s (organizações não-governamentais) e instituições que se dedicam ao empoderamento feminino, visando principalmente a igualdade de gêneros. A Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), desenvolveu, em 2010, uma lista com “7 princípios básicos do empoderamento feminino”, a fim de pôr em prática seus propósitos para um mundo melhor.

São eles: estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível; tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não-discriminação; garantir a saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa; promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres; apoiar empreendedorismo de mulheres e promover políticas de empoderamento das mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing; promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social; medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.

Estas práticas de empoderamento devem ser desenvolvidas tanto pelas mulheres quanto pelos homens, para certificar que haja a igualdade de gêneros em nossa sociedade.


A transição capilar

A transição capilar nada mais é do que o processo em que seu cabelo dá “tchau” para a química, até que ele cresça totalmente ao natural. Vale lembrar que, acima de tudo, a transição também é uma forma de aceitação do seu fio. Se você fazia relaxamento, permanente, escova progressiva ou qualquer outro tipo de alisamento químico ou mecânico, e agora decidiu parar, isso significa que você está em “transição capilar”.
É nesse processo de volta ao cabelo natural que muitas mulheres vão reconstruir a própria autoestima. Também é o período em que se defrontam com as várias faces do racismo: a resistência da família e dos próprios companheiros, além de pressões de amigas e colegas para alisar novamente o cabelo, etc.