Cirurgias espirituais: paranormal ou charlatanismo?

O PRIMEIRO CIRURGIÃO — José Pedro de Freitas, o Zé Arigó foi o primeiro cirurgião espiritual brasileiro a receber grande destaque na mídia nacional. A exposição foi tanta, que levou dezenas de pessoas até Congonhas do Campo (sua cidade natal) na busca pela cura de doenças. Para alguns, ele salvava vidas, para outros, ele foi um charlatão. Zé Arigó fazia as suas cirurgias sem anestesia e com uma pequena faca enferrujada (Foto: O Estado de Minas)

Por Mateus Ferrari Ananias

Foge do escopo do Revista Atua discutir crenças religiosas, mas é essencialmente parte do escopo da Revista Atua discutir crenças sobre fenômenos supostamente paranormais ou sobrenaturais. Alguns deles se relacionam, sim, com religiões, e é no contexto de analisar criticamente sua paranormalidade que os abordamos. Um desses fenômenos são os polêmicos tratamentos espirituais, procedimentos que visam curar o espírito e — indiretamente — o corpo. Eles remontam ao início da civilização humana, com os curandeiros e xamãs, que teriam uma ligação estreita com o divino. Essa ligação permitiria que eles tivessem o poder de curar recorrendo a forças misteriosas, e envolviam todo um conjunto de “rezas” e práticas sacerdotais e terapêuticas, que variam conforme a região e cultura local (vale lembrar que a história cristã também é rica em fatos dessa natureza). Segundo recente pesquisa do The Journal of Medicine and Philosophy, o raciocínio popular diferencia a medicina ocidental da cura espiritual, mas considera que ambas são eficazes. Desse modo, geralmente a medicina espiritual é usada como complemento da medicina ocidental sendo, muitas vezes, o último recurso dos pacientes que acabam por não relatar esse uso da medicina alternativa para seus médicos.

Um dos mais interessantes e controversos tipos de cura espiritual é a cirurgia espiritual. Esse tipo de tratamento é muito associado ao espiritismo e muito popular no Brasil e nas Filipinas, onde diariamente milhares de pessoas de todo o mundo buscam atendimento.

Como funciona
Os espíritas acreditam que o corpo físico está associado ao períspirito, uma espécie de aura, e que dessa forma, toda doença teria sempre uma motivação espiritual, como afirmava o neurocirurgião — e espirita — Nubor Orlando Facure. Ou seja, para curá-las, seria possível curar o períspirito através de um médium que encarna o espírito de um médico. Como a doutrina espírita não tem práticas homologadas e reguladas, as técnicas cirúrgicas variam de acordo com o médium e o centro espírita. Alguns nem tocam o paciente (utilizam o passe, que é a “transmissão de fluidos espirituais benéficos” realizada pelos médiuns), já outros chegam a fazer incisões com aparelhos cirúrgicos.

O pioneiro
No Brasil esse tipo de tratamento ganhou fama nos anos 1950, quando entrou em atividade o primeiro cirurgião psíquico a conquistar fama: José Pedro de Freitas, o Zé Arigó. Nascido em 1921, ele casou-se aos 25 anos.

Depois disso, ao longo dos nascimentos de seus cinco filhos, ele teria começado a escutar uma voz numa língua estranha. Isso teria durado anos, até que teve um sonho bastante nítido, de uma sala de operações com médicos e enfermeiras que realizavam uma cirurgia. No comando, estava um médico que era o dono da voz que Zé Arigó tanto escutava. Esse médico seria o doutor Fritz, que o havia escolhido Zé Arigó para continuar sua missão na Terra.

Conta-se que a primeira cura teria sido realizada após esse sonho, quando Zé encontrou um amigo aleijado que precisava de muletas para andar. Ele teria dito ao amigo que “já é hora de largar essas muletas” e, deste instante em diante o amigo não teria tido mais teria tido problemas para andar.

Nessa mesma época, conheceu o então senador Lúcio Bittencourt, que sofria de câncer no pulmão. Ele teria feito uma cirurgia espiritual e extirpado o tumor, curando totalmente o político. Da para frente criou-se todo o frenesi da mítica fama de Zé Arigó.

O “Dr. Fritz”
Todas as informações que se “sabem” sobre o Dr. Fritz vêm de fontes que alegaram supostas comunicações mediúnicas com o médico. Adolf Fritz, teria nascido em Munique em 1876. Forçado a trabalhar desde cedo pela morte prematura de seus pais, custeou os próprios estudos, vindo a se formar em Medicina. Um mês após a sua formatura, um general chegou ao seu consultório com a filha gravemente enferma nos braços mas, a despeito de todos os seus esforços, a menina veio a falecer. O oficial responsabilizou Adolf pela morte da menina, conduzindo-o à prisão, onde sofreu maus-tratos e privações. Evadindo-se da prisão, Adolf foi para a Estônia, onde viveu durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Outra versão dessa suposta biografia sustenta que Adolf ingressou no quadro de Saúde do Exército Alemão, no posto de Capitão, como Clínico Geral. À época da Primeira Guerra, teria atendido os feridos no campo de batalha onde, por falta de instrumentos adequados, acumulou experiência no atendimento de emergências e de prática cirúrgica utilizando os limitados recursos que o front lhe oferecia.

No entanto, nenhum pesquisador ou historiador jamais conseguiu comprovar nenhuma dessas versões ou mesmo a existência de Fritz em vida. Os céticos apontam que o nome Adolf Fritz seria uma composição montada com o nome do ditador Adolf Hitler e o apelido Fritz, que ficou muito conhecido durante a II Guerra Mundial, quando as tropas aliadas se referiam aos alemães — de forma genérica — por “Fritz”.

Mas afinal, diante de tantas lacunas, essas cirurgias funcionam ou não? Os cortes são reais ou não passam de truques? As curas realmente acontecem? Não há dor nem infecção? A resposta para todas essas questões é apenas um vago “depende”.

“JOÃO DE DEUS” — O brasileiro ficou internacionalmente conhecido depois de ser promovido por ninguém menos que a apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, uma das mais famosas do mundo, como um médium que canalizava os espíritos de médicos mortos e os usava para realizar curas milagrosas em pessoas das mais diversas nacionalidades que o visitavam em sua “Casa”, em Abadiânia, Goiás.

Fraudes?
Estudos que indicam fraude em cirurgias espirituais invasivas — com sangue e tecidos falsos retirados — dividem espaço com registros de retirada real de tecidos. Embora haja pacientes que não sintam dor e não desenvolvam infecções após a operação, os médicos tradicionais interpretam isso como efeitos de autossugestão — como se a mente dos pacientes fosse condicionada a isso.

O autor canadense James Randi diz que, durante suas pesquisas para escrever o livro The Faith Healers (“Os Curadores da Fé”), em 1987, procurou 104 pessoas que afirmavam terem sido curadas por cirurgiões psíquicos. Ele as classificou basicamente em três grupos: o primeiro era o de pessoas que não tiveram doença alguma. Ele cita como exemplo uma senhora que acreditava ter sido curada de um câncer na garganta após ser tocada por um cirurgião. Mas, segundo seu médico, fazia cinco anos que ele vinha realizando exames que mostravam que ela nunca tivera nenhum tipo de câncer. Porém, como sua mãe havia morrido desse problema, cada vez que a garganta doía, ela associava isso ao câncer.

O segundo grupo identificado por Randi era o de pessoas que realmente tinham doenças e que continuavam doentes depois de passar pelas mãos dos curandeiros.

Quanto ao terceiro grupo, Randi diz não ter encontrado ninguém, pois as pessoas já haviam morrido em decorrência dos problemas dos quais diziam ter sido curadas. “Não posso afirmar que essas curas não funcionam”, disse Randi, “mas posso afirmar que em todos os casos que investiguei, houve 100% de falha.”

Mais pesquisas
“Os fenômenos ditos paranormais não são inexplicáveis, mas permanecem em grande parte inexplicados. Não são sobrenaturais, sendo, no máximo, fatos ainda não satisfatoriamente explicados pelas leis naturais até então conhecidas”, é o que afirma uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e o Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora. O alvo da pesquisa foi João Teixeira de Farias, mais conhecido como “João de Deus”, que atende em Abadiânia, no Estado de Goiás, a 115Km do Distrito Federal.

O estudo ainda conclui que os casos de cirurgias espirituais invasivas foram reais, “mas, apesar de não ter sido possível avaliar a eficácia do procedimento, aparentemente não teriam efeito específico na cura dos pacientes”.

Mas nem todos concordam com os resultados. Em junho de 2011, a médica dinamarquesa Charlotte Bech Lund decidiu investigar o fenômeno João de Deus. “Vim, porque muitos pacientes meus vieram, melhoraram e voltaram para concluir o tratamento comigo, mas sem remédios”, afirma Charlotte, que voltou ao Brasil para passar as três primeiras semanas de janeiro em Abadiânia. “Cheguei ao topo da carreira prescrevendo receitas e vendo os efeitos colaterais que os medicamentos causam. Aqui, com ‘passiflora’, as pessoas se curam.”, diz a dinamarquesa, que engrossa as estatísticas: 80% dos visitantes do médium são estrangeiros.

João não cobra pelo atendimento nem pelas cirurgias, apenas pelo medicamento ‘passiflora’ — a caixa com 175 comprimidos custa R$ 50.

O que diz a lei
No Tribunal de Justiça de Goiás há uma investigação de 2003 pela morte do americano Javier Villa Real Bustus. De acordo com o processo, Javier teria abandonado o tratamento convencional que fazia contra AIDS para tratar com João e, mais tarde, veio a falecer no Hospital de Doenças Tropicais. Nesse processo, João de Deus está sendo investigado por homicídio doloso, com dolo eventual, ou culposo, quando não há intenção de matar. Em Abadiânia há outro processo, mas corre em segredo de justiça.

Para o Código Penal Brasileiro, os adeptos da cirurgia espiritual podem ser enquadrados no artigo 282, que condena a prática ilegal de medicina, e o 283, que condena anúncios de cura por “método secreto ou infalível”. O 284 prevê condenação por curandeirismo, “usando gestos, palavras ou qualquer outro meio”, e “fazendo diagnósticos”. Mas na prática, as acusações são raras e as condenações inexistentes, porque há uma interpretação de que não se trata de exercício ilegal da medicina, mas sim de prática religiosa.