Fernando Furlanetto: a celebração da escultura

JAZIGO DE ANGELINA E DINA BENVINDA — Este é o conjunto escultórico que Fernando Furlanetto mais prezava. O jazigo representa o drama da mãe que perde uma menina, numa operação fracassada de apendicite. Diz a história, que pouco tempo após a morte da criança, ela teria vindo buscar a alma da mãe, que faleceu logo depois.

Por Antonio Carlos Rodrigues Lorette
Fotos Leo Beraldo / Cromalux

São João da Boa Vista possui um dos mais belos cemitérios brasileiros. Entre alamedas arborizadas, estão reunidas obras-primas do maior escultor sanjoanense, Fernando Furlanetto. É uma galeria de arte a céu aberto, um patrimônio cultural que representa boa parte da memória de um povo. E a história tratou de ordenar o destino num fato acidental.

O jovem italiano Antonio Furlanetto trabalhava numa marmoraria paulistana. Ao se casar, pretendeu montar seu próprio negócio e foi aconselhado a mudar-se com a família para Poços de Caldas, estância hidromineral em plena construção. Juntou ferramentas, algumas placas de mármore, associou-se a seu irmão Fernando e partiu de trem em direção à Mogiana.

Ao percorrer o Ramal Caldas, o eixo do trem se quebrou próximo à ponte da futura Sociedade Esportiva Sanjoanense (SES). O conserto demoraria horas. Na espera, decidiram conhecer a pequena cidade. Caminharam sobre os trilhos, atravessaram o saguão da estação e subiram a Rua São João. Entraram na Igreja Matriz, reconstruída em 1890, ornada com simples altares e imagens de madeira. Seguiram em direção à avenida, entraram no velho cemitério da Praça Joaquim José. Estava abandonado, aguardando seu desmonte. Viram poucos túmulos de pedra encomendados em Campinas e São Paulo.

São João enriquecia vertiginosamente, conforme o número de seus pés de café. Incrível, nenhuma marmoraria concorrente! Resolveram ficar instalando a Marmoraria Sanjoanense, em 1896, no começo da Avenida Dona Gertrudes (atual Relojoaria Dattoli).

Para ajudar nos complexos relevos ornamentais, Antonio se associou ao escultor italiano Giuseppe Zarri, parceria que durou de 1896 a 1901. Porém, a estatuária de arremate dos túmulos continuava importada da Itália, do Atelier Ranieri, de Pietrasanta. Fernando Furlanetto nasceu em 5 de março de 1897, no chalé construído pela família numa chácara que mais tarde pertenceu à família Loyola. Era o primogênito de Maria Prisca Lanfranchi e Antonio Furlanetto.

O início
O talento despontara já na infância, em desenhos caprichosos realizados na sala de aula do Grupo Escolar Joaquim José e na astuta observação dos anjinhos de mármore, engradados em pino europeu. O jovem queria ser escultor. Em 1911, com apenas 14 anos, Fernando partiu para a Itália, para estudar no Instituto de Belas Artes de Pietrasanta. Foi junto com seu irmão Jacomo, o qual se especializou em ornamentação.

Durante oito anos, Fernando aprendeu a arte de esculpir com os mais famosos professores da época. E o “menino americano” suplantou, em técnica e arte, os próprios italianos natos, conquistando o prêmio máximo do Instituto, a medalha de prata. Mas a guerra explodiu na Europa, interrompendo a carreira acadêmica de Furlanetto. Com medo do alistamento obrigatório de seus filhos, Antonio providenciou rapidamente seu retorno. Fernando e Jacomo foram recebidos na estação com “vivas” e banda de música.

Fernando fixou atelier em sua cidade natal, no meio da Avenida Dona Gertrudes (atual Lojas Americanas), recebendo encomendas de toda região e pasmando a imprensa local por sua simplicidade e modéstia. Considerava como sua obra-prima o monumento funerário de Dina e Angelina Bueno, “A filha chamando a mãe”, subindo os degraus do céu. Surgiram outras obras impressionantes, como a “Caridade”, para o jazigo da família do Cel. Joaquim Cândido de Oliveira; a “Pietá”, para o túmulo de José Pedro de Oliveira; e a monumental capela do Cel. Christiano Osório de Oliveira.

Produção sacra e arquitetura
Fernando não se dedicou somente à arte funerária. Apesar da raridade de monumentos cívicos nas praças de São João e de cidades da região, elaborou o expressivo retrato do venerando Padre Josué Silveira de Mattos. Sua produção sacra ficou praticamente restrita ao interior da Igreja Catedral, como a renovação dos altares laterais e um caprichoso portão para a Capela do Santíssimo.

OBRA PRIMA — Jazigo da família de José Pedro de Oliveira, filho de Christiano Osório, falecido em 1935. Outra obra-prima de Fernando Furlanetto, numa fase mais expressionista. A fundição do bronze, diretamente da modelagem em gesso, permitiu toda essa carga expressiva, difícil de se conseguir na pedra. Outros truques foram utilizados, como as leves desproporções para correção de perspectiva. O efeito é belíssimo, tendo a escultura sido reproduzida diversas vezes.

Podemos citar, também, os altares do Asilo de São João da Boa Vista e da capela da Santa Casa de São José do Rio Pardo. Fazendo parte do currículo de Pietrasanta, Furlanetto aventurou-se na arquitetura, deixando monumentos de cuidadosa composição fachadista e plantas bem articuladas, como o sobrado da Família Maringolo (Avenida Dona Gertrudes), o sobrado da Casa Blasi (Rua Getúlio Vargas), a simbólica Casa Águia de Ouro (Avenida, atualmente interditada), o Cine Teatro São João e a ampliação do Sobrado Westin (Praça Armando Salles). Nas residências, a planta foi destaque na época: o acesso a todos os cômodos sem o uso de corredores. Nas fachadas, Furlanetto colocou seu conhecimento acadêmico para compor um repertório de ornamentos moldados em argamassa.

No plano urbanístico, o Cemitério São João Batista foi total responsabilidade dos Furlanetto, já que se tornara o depositário das mais representativas esculturas de Fernando. Ele reordenou caminhos, reforçou com meios-fios e macadames, criou alamedas de murtas como túneis do tempo. Seu grande sonho era ter mais tempo para se dedicar à “Arte Pura”, não subordinada a injunções financeiras de uma arte meramente “fúnebre”. As estatuetas de salão, que tanto lhe agradava compor, pouco se concretizavam. Algumas delas ainda enfeitam salas de visita.

ALFREDINHO — No jazigo da família Oscar Pirajá, quem rouba a cena é o impressionante retrato de Alfredinho, que veio a falecer com nove meses, em 1923, após ingerir leite em pó estragado. Os detalhes da escultura são impressionantes e foram esculpidos com base em uma foto da criança — uma obra-prima da primeira fase de Fernando Furlanetto. No cemitério, em torno dessa imagem, criou-se uma lenda. As mães que desejavam que seus filhos largassem as chupetas, as deixavam aos seus pés.

Das mais famosas, “Bailarina” é a própria música, na delicadeza dos gestos, entrelaçando-se ao vestido esvoaçante. O nu intitulado “Volúpia”, êxtase feminino no divã, foi de grande ousadia para a São João dos anos 30. “Para mim, o mármore é um fascínio. Eu não sei fazer outra coisa. A escultura tem sido a minha vida, e agora que os meus olhos já não me ajudam, sinto apenas tristeza”, disse em sua última entrevista, aos 78 anos de idade. O destino interiorano não lhe permitiu circular em grandes centros, resumindo sua carreira num virtuosismo de furtivas invenções.

Festejou a vida, foi estudante exemplar, entusiasta da arte em todos os campos e da música de eu violino.

Apaixonado pela escultura, pela primeira esposa Lélia Ranieri, pela segunda Mercedes Beozzo, pelos filhos Antonio, Maria Lina e Ana Lúcia, pelos fiéis amigos que conquistou através do futebol, das caçadas ou simplesmente pelo jeito de ser. Não enriqueceu financeiramente, somente a sua cidade natal.

Fernando Furlanetto faleceu em 20 de abril de 1975.


A semana de arte

PRIMEIRO EVENTO - Semana de Arte Fernando Furlanetto em 1999. Foto: Alfredo Nagib Filho

A Semana Fernando Furlanetto foi criada após uma exposição em 1997, como comemoração do centenário do artista Fernando Furlanetto e foi visitada por mais de 8 mil pessoas, um número expressivo em uma cidade de 80 mil habitantes.

Em 1998 realizou-se sob a curadoria da artista plástica Samantha Moreira, que imprimiu um perfil contemporâneo ao evento. Foi realizado no então semi-abandonado, THeatro Municipal. Em 1999 o fotografo Alfredo Nagib Filho — Fritz foi o curador da sua segunda edição, enfocando a arte fotográfica. A exposição continuou sendo realizada no Teatro Municipal de São João da Boa Vista.

A terceira edição, realizada em 2000, teve como curadora Flávia Almeida Noronha Carioca. A exposição foi realizada em um antigo armazém restaurado da estação ferroviária, transformado na sala de exposição Fernando Arrigucci. A quarta edição, realizada em 2001, tendo como curadora Vânia Palomo e como tema Transformação da Arte. Teve como objetivo enfocar a escultura, redesenhando sua trajetória através do tempo. Paralelamente à exposição, aconteceram palestras e workshops.

Já em 2003, na sua sexta edição, a jornalista e crítica de arte Juliana Monachesi foi a curadora e adotou como tema A Casa Onírica. No ano de 2005, aconteceu a oitava edição da Semana de Arte, com curadoria de Antonio Carlos Rodrigues Lorette.

A nona edição, que aconteceu em 2009, sob curadoria de Cristiano Censoni, foi o primeiro evento na cidade realizado com recursos captados através das leis federais de incentivo à cultura. Sob o tema O indivíduo exposto, a exposição exibiu uma mescla de trabalhos de artistas consagrados, jovens promessas, e artistas do chamado street art, divididos em três salas (Máscara, Sombra e EU) além de inúmeras intervenções urbanas, com obras girando em torno do indivíduo contemporâneo.