Paixão por ajudar o próximo

VOLUNTARIADO — A bancária aposentada, Glenda Maria Sabbag da Silva , de 68 anos, dedica-se a ensinar matemática a jovens de escolas públicas, principalmente focados em concursos públicos.

Por Reinaldo Benedetti

O Brasil é um país conhecido por ter uma população que está sempre pronta a estender as mãos àqueles que mais precisam. E São João da Boa Vista tem o privilégio de ter por aqui uma dessas figuras generosas, que se preocupa verdadeiramente com as pessoas ao seu redor, que não fecha os olhos diante do sofrimento alheio. Essa é Glenda Maria Sabbag da Silva, que aos 68 anos demonstra vitalidade e espírito coletivo. Bancária aposentada, dedica-se, desde 2007, a dar aulas gratuitamente para pessoas carentes, em especial jovens que querem ser aprovados em concursos públicos. Assim que um edital é aberto, ela corre até as escolas públicas de São João e anuncia os horários das aulas que oferece às terças, das 16 às 18 horas, e às quartas, das 20 às 22 horas, em sua própria casa. A sua especialidade é a matemática e ela tem preparado jovens, principalmente, para concursos do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Menor Aprendiz da Sabesp. Para se ter uma ideia da importância do seu trabalho, quinze dos seus alunos já conseguiram aprovação no Banco do Brasil e na Caixa, além de dezenas de aprovações para Menor Aprendiz, da Sabesp. Atualmente, Glenda está com uma turma de 20 alunos, os quais estão estudando para concursos da Prefeitura de São João e até para o Tribunal de Justiça do estado de São Paulo. E o mais bonito desta história é que o faz gratuitamente, faz por amor ao ensino e ao próximo. Mas a história de vida desta bancária aposentada revela que não é de hoje que ela possui essas qualidades, age assim desde a juventude.

Das coxinhas à universidade
Nascida em Cabrália Paulista, na região de Bauru, Glenda é a mais velha de quatro irmãos (três mulheres e um homem). De família humilde, sempre seguiu os conselhos do pai e da mãe, os quais exigiam dedicação nos estudos. “Meu pai falava que eu era a mais velha e que, por isso, tinha que dar o exemplo para os outros irmãos. Tinha que ser exemplo na escola, etc… Minha mãe era muito exigente”, conta a bancária aposentada. E, assim, foi se destacando nos bancos escolares e, ainda jovem, começou a dar aulas para seus colegas que tinham dificuldades. “Desde o ginasial dou aulas. Quem ensina aprende duas vezes”, aponta. Paralelo aos estudos, juntamente com as irmãs, saía às ruas para vender coxinhas e outros salgados, feitos pela mãe, a fim de complementar a renda da família. “A gente foi jovem, pobre, lutadora e venceu sem vergonha de ir para o mercado. E ter trabalhado com as vendas de coxinhas me ajudou muito na vida, me deu um espírito de negócios”, explica.

Dedicada ao aprendizado, ela passou no vestibular e foi estudar ciência e matemática na Unesp de Marília. Como a família não tinha dinheiro para mantê-la naquela cidade, a jovem arrumou um emprego e conseguiu se manter sozinha. Aliás, conseguia até enviar um pouco de dinheiro para o seu pai.

A chegada a São João
Ao terminar a universidade, Glenda foi dar aulas em Presidente Venceslau, onde conheceu o atual marido, Durval da Silva. Casou-se e se mudou para a cidade de Anápolis, onde o marido, funcionário do então Banespa, foi transferido. Passado algum tempo, o banco transferiu Durval para São João da Boa Vista e aí começou a relação dela com a cidade, em 1974. Por sete anos lecionou em escolas locais, como EMEB Antonio Dos Santos Cabral, EE. Teófilo de Andrade, EE. Joaquim José, EE. Domingos Teodoro de Oliveira Azevedo, etc. Porém, como era esposa de bancário, suas irmãs e seu irmão tornaram-se bancários, o que convenceu Glenda a também entrar na profissão. Então, começou a estudar para o concurso do Banco do Brasil. Mas, com dois filhos pequenos, os quais estavam de férias, teve dificuldades para se concentrar nos estudos. Foi quando teve a ideia de viajar até a casa de seus pais e pedir para que Antônia Ferreira Rodrigues, menina de apenas 12 anos, que era criada pela sua mãe, pudesse vir para São João com ela, para brincar com seus filhos, enquanto estudava.

“Eu pedi para minha mãe deixar eu trazer a Toninha. Mas ela, que criava a menina porque não tinha pai, falou que até deixava, mas que eu teria que pedir permissão para a mãe da Toninha, que morava na vila. Eu fui, e lembro como se fosse hoje. A mãe dela me disse: ‘pode levar sim, mas você cria a minha filha direitinho”. Ela se lembra disso e diz que achou estranha a maneira dela se expressar. “Eu até perguntei se ela estava sentindo alguma coisa, se ela estava bem e ela me falou que não estava muito bem, não. E me disse que eu ia criar a filha dela”.

Assim, Antônia vem para São João para passar janeiro e fevereiro, período das férias escolares. Mas o inesperado acontece: a mãe biológica de Antônia morreu 15 dias depois da sua chegada a São João; e Glenda assume de vez a criação da menina. Passado um ano, a irmã de Antônia, Amélia Ferreira Rodrigues, começa a ligar toda semana pedindo para ir morar junto com a irmã. Nesse período, Glenda já tinha sido aprovada no concurso do Banco do Brasil. “Eu já tinha passado no concurso do banco, então dava para eu sustentar um povo maior, aqui em casa. Aí eu a trouxe também”, conta. A família da ex-bancária, assim, começou a crescer e chegou a sete pessoas, após Amélia engravidar e ter um menino. Moravam, na casa, Glenda com o esposo, os dois filhos biológicos, as duas filhas adotivas (que estudavam à noite) e o filho de Amélia, Guilherme. Sempre incentivando todos a estudarem e serem corretos, Glenda e Durval construíram uma família de pessoas que venceram na vida. Os dois filhos biológicos, Alexandre e Rodrigo, são fisioterapeutas em São Paulo. Alexandre fez pós-graduação na Escola Paulista de Medicina, fez mestrado e, atualmente, faz doutorado. Leciona no Mackenzie, na UNG e na FAM.

APOIO E APROVAÇÕES — Além de ministrar aulas gratuitas, Glenda também auxilia seus alunos a viajar aos locais onde são realizadas as provas e concursos. Com essa iniciativa, quinze de seus alunos já foram aprovados em concorridos concursos, como da Caixa e Banco do Brasil.

Já, Rodrigo, tem paixão por hospital, fez pós-graduação na USP, passou em primeiro lugar para trabalhar no Hospital das Clínicas, na capital, e hoje está no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Antônia, uma das filhas adotivas, casou-se com o jogador de futebol sanjoanense, Cássio, e morou no Japão. Anos depois, retornando ao Brasil, passou por Santa Catarina e voltou a São João, onde está hoje morando com a família. Após tornar-se gerente do BB e instrutora da área de seguros do banco, Glenda aposentou-se em 2007. A filha mais velha, Amélia, pediu para que ela desse aulas para um grupo de amigos, para o concurso do Banco do Brasil. “Eu topei dar aula para ela e os amigos. Nossa, naquele dia minha campainha começou a tocar e a casa encheu. Desde então comecei a dar aulas e não parei mais”, revela. Detalhe: a filha, por meio dos ensinamentos da mãe, conseguiu ser aprovada no concurso do Banco do Brasil e trabalha em São João. O filho de Amélia, Guilherme, também se formou em Fisioterapia e, hoje, trabalha em São Paulo.

A vocação para lecionar
Glenda não é uma cidadã comum. É uma cidadã de família simples que cresceu na vida e traz, desde a juventude, um espírito coletivo e de ajuda ao próximo. A história da família que criou resume um pouco da generosidade dessa bancária aposentada, que atualmente dedica-se a ensinar matemática a jovens de escolas públicas, principalmente focados em concursos públicos. E apesar de todo o esforço, Glenda, que coleciona belas histórias com jovens humildes que passaram pelas suas mãos, pede ajuda a voluntários que possam ensinar português e matemática financeira.

Os interessados podem entrar em contato pelo telefone (19) 99772–6515.