Prática incomum ou assustadora realidade?

Quando nós nascemos, possuimos planos e sonhos para o nosso futuro. Nem sempre tais idealizações são realizadas, mas deveriamos ter o direito de escolha sobre realizá-las ou não. Infelizmente, muitas meninas não possuem tal poder de decisão em relação à escolha de seus maridos e em qual tempo irão se casar. Dados divulgados pela instituição britância Save the Children apontam que a cada sete segundos uma menina menor de 15 anos é forçada a se casar ao redor do mundo.

Essa assustadora realidade ficou mais evidente em setembro de 2013, quando o caso de Rawan, uma menina de oito anos que foi vendida por 6 mil doláres pelo padrasto para um homem de 40 anos, foi noticiado. A criança foi forçada a se casar e faleceu após a lua de mel, por ferimentos profundos no útero, recorrentes de estupro.

Mas o caso de Rawan é exceção à regra. Não pela violência sofrida, porque essa é recorrente, e sim pelo fato do caso ter sido noticiado ao redor do mundo. Casamentos infantis — seguidos de estupro e todo tipo possível de violência — estão longe de ser incomuns, mas a sociedade e principalmente as mídias preferem fechar os olhos para isso.

Assustadoramente, o casamento infantil é corriqueiro em alguns países. Iêmen, Afeganistão, Índia e Somália estão no topo da lista de países onde ocorre tal prática. A Anistia Internacional denunciou também o casamento infantil em Burkina Faso. Segundo o documento, lá a diferença de idade entre as noivas e seus maridos chega a 50 anos. O país é o sétimo do mundo que mais casa meninas.

Jamila Zeyne, da Etiópia, tem 21 anos e é casada desde os 13. “Eu me casei porque meu pai me obrigou. Eu tinha duas opções, ou me casar ou ir trabalhar em algum país árabe. Eu não estou feliz, porque eu queria estudar. Se o governo instituir escolas noturnas em nossa região, eu quero voltar a estudar. O casamento precoce é ruim porque quando nós ficamos grávidas e temos que dar à luz, é muito difícil para o nosso corpo. Nós somos muito novas, e cuidar de uma casa não é fácil”.

Sem dúvidas, o casamento precoce é mais comum em países orientais do que ocidentais. Mas se engana quem pensa que por aqui tal prática não acontece. Segundo a revista Claudia, o Brasil ocupa o quarto lugar no mundo em número absoluto de crianças casadas. O número de meninas brasileiras casadas com a faixa etária de 10 a 14 anos são 65.709; delas, 2,6 mil firmaram compromisso em cartório e/ou igreja.

A instituição Save the Children destaca o fato de que o matrimônio infantil contribui para a violência sexual e doméstica e também para os índices de menor taxa de escolaridade entre mulheres, já que meninas que se casam ainda crianças estão muito mais propensas a abandonarem os estudos. A gestação precoce também aumenta o número de mortandade entre as meninas, pois grande parte delas engravida antes de ter o corpo totalmente formado para dar a luz e morre por causa disso. Além disso, segundo a Unicef, o casamento infantil é danoso à economia e fomenta ciclos intergeracionais de pobreza.