Notas para um estudo da obra de Mária Ferreira dos Santos

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“O HOMEM QUE FOI UM CAMPO DE BATALHA”:

Notas para um estudo da obra de Mário Ferreira dos Santos[1]

ABREVIATURAS

D. C.: Dialética Concreta

F. C.: Filosofia Concreta

M. F. dos S.: Mário Ferreira dos Santos

INTRODUÇÃO

Falaremos brevemente sobre a vida e a obra de Mário Ferreira Dias dos Santos, filósofo paulista que nasceu em 1907 e morreu em 1968 e cujo conhecimento cheguei através do filósofo Olavo de Carvalho. Ferreira dos Santos foi genuinamente um filósofo brasileiro; nascido em Tietê, interior de São Paulo, passou grande parte de sua vida em Pelotas e Porto Alegre, onde estudou no Colégio Gonzaga, administrado por padres jesuítas e formou-se em direito e ciências sociais pela Faculdade de Direito de Porto Alegre. Mudou-se para São Paulo em 1944, onde teve breve contato com Vicente Ferreira da Silva, lecionando lógica no Centro de Estudos Livres2, e na capital paulista fundou duas editoras, Logos e Matese, que editaram suas obras, rejeitadas pelo mercado editorial brasileiro3. Iniciando um revolucionário sistema de vendas à crédito, vendendo suas obras de porta em porta, obteve — contra as expectativas — um grande sucesso de vendagem, com alguns livros chegando a casa de onze edições. Logo, Ferreira dos Santos foi um autor cuja obra foi desenvolvida totalmente em seu país natal, independente do sentimento de provincianismo da academia brasileira ou dos rumos que percorria o pensamento europeu de seu tempo. Como afirma o historiador da filosofia brasileira Jorge Jaime, se há uma philosophia brasiliensis, Mário Ferreira dos Santos foi, sem dúvida, um dos seus grandes representantes.

Sobre a situação da atividade filosófica no Brasil, é de senso comum o conhecimento de que a alta filosofia brasileira, de modo geral, quase sempre passou ao largo da atividade acadêmica. Nomes como Vicente Ferreira da Silva, José Pedro Galvão de Sousa, Miguel Reale, Farias Brito, Gustavo Corção, pe. Leonel Franca, dentre tantos outros, são sequer citados em diversos ambientes acadêmicos brasileiros. Mesma sorte recaiu àqueles filósofos europeus que fizeram do Brasil sua pátria, como Leonard van Acker, Stalislavs Ladusãns, Otto Maria Carpeaux ou Vilém Flusser, hostilizados ou ignorados pelos centros acadêmicos brasileiros. Várias são as razões deste assustador esquecimento, contudo, podemos resumi-las na sentença do filósofo sergipano Tobias Barreto, que via no brasileiro um espírito acanhado ante as altas atividades do espírito, que impossibilita o crescimento intelectual do país, principalmente no que diz respeito à filosofia4. Tal espírito de mesquinhez pode ser exemplificado pelo famoso caso, citado na Revista Brasileira de Filosofia, envolvendo Farias Brito, onde o filósofo cearense, mesmo obtendo o primeiro lugar no processo seletivo para professor de lógica do Colégio D. Pedro, foi preterido, sendo chamado em seu lugar o segundo colocado, Euclides da Cunha, por este ter maior afinidade com o diretor do Colégio, na época.

Além do intrínseco sentimento sectário e acanhado — fruto de uma série de fatores cujo argumento simplista da ‘’mentalidade colonialista’’ não responde com satisfação -, soma-se ainda o advento e consolidação da ideologia comunista no Brasil durante todo o século XX, cujo aparelhamento ideológico das universidades brasileiras em muito contribuiu para o ostracismo de grandes nomes do pensamento nacional. Não são parcos os exemplos: Vilém Flusser foi expulso da Escola Politécnica de São Paulo, quando houve a fundação da USP; Miguel Reale foi hostilizado na USP, onde foi reitor; José Pedro Galvão de Sousa também hostilizado na USP e na PUC-SP (que, aliás, ajudou fundar); o departamento de filosofia da Faculdade Nossa Senhora Medianeira (extensão da PUC- RJ), o qual fazia parte o padre lituano Stanislavs Ladusãns, foi tomado por adeptos da Teologia da Libertação; Vicente Ferreira da Silva foi também desprezado pela Universidade de São Paulo por não ser “filósofo profissional”5, em suma, são incontáveis os exemplos. Porém, se por um lado, as políticas de esquerda potencializaram o espírito sectário ao expulsar os filósofos não-comunistas da academia, por outro lado, o surgimento do regime militar também não contribuiu para refrear o avanço comunista dentro das instituições acadêmicas. Pelo contrário. Durante o regime militar, vários filósofos e intelectuais diversos ditos ‘’conservadores’’ foram vítimas do silêncio positivista imposto pelo militarismo. Homens como Gustavo Corção, Gerardo Mello Mourão, Carlos Lacerda, Plínio Corrêa, dentre muitos outros, foram silenciados enquanto a hegemonia do ‘’intelectual orgânico’’ solidificava-se nos ambientes culturais em pleno regime militar.

Porém, se os citados filósofos foram vilipendiados pelos sectários meios acadêmicos, os trabalhos destes grandes homens não foram totalmente esquecidos pelos meios intelectuais alheios às atividades acadêmicas brasileiras. Vários centros culturais brasileiros deram continuidade ou preservaram o trabalho dos grandes filósofos do Brasil, como o Centro Dom Vital, o centro Convivium, a editora Permanência, a Associação Brasileira de Filósofos Católicos, a Revista Brasileira de Filosofia fundada por Miguel Reale e mesmo o IPCO, cujo núcleo é formado pelos antigos membros da TFP, sem falar daqueles filósofos cujo prestígio é internacionalmente conhecido, como Vicente Ferreira da Silva, José Pedro Galvão de Souza que foi amplamente divulgado na Espanha e Argentina por Tejada Y Spínola, Farias Brito que é também reconhecido na Europa, além de Miguel Reale, cuja veia fenomenológica de sua Teoria Tridimensional do Direito é, hoje, mundialmente reconhecida. O mesmo destino, porém, não teve o trabalho de Mário Ferreira dos Santos.

Embora tenha obtido um relativo sucesso editorial com seu trabalho filosófico e gozasse de respeito em vários meios intelectuais brasileiros, a obra de Mário Ferreira dos Santos caiu em completo esquecimento após sua morte, em 1968. Com exceção da esposa e as duas filhas do autor que preservaram seus escritos, não houve quem levasse adiante o trabalho do filósofo paulista ou desse sequer continuidade às edições de seus livros. Um silêncio envolveu a obra de Mário Ferreira dos Santos. Contudo, é injusto dizer que este silêncio iniciou-se somente após a morte de Ferreira dos Santos. O próprio filósofo fez questão de isolar-se ainda em vida: evitando os meios universitários (com exceção das aulas do curso de verão que proferiu, em 1968, na antiga Faculdade Nossa Senhora Medianeira, atual PUC-RJ, por insistência do padre Ladusãns, cujos áudios das aulas estão disponíveis em vários sites, como o Youtube), não manteve nenhum contato também com nenhum filosófico da sua época (com a já citada exceção de Vicente Ferreira da Silva) e não pertenceu ou manteve contato com nenhum grupo de estudos ou centros intelectuais no Brasil. Tal isolamento não era injustificado: Mário trabalhava como editor, revisor e vendedor de suas obras em suas duas editoras, durante a noite proferia cursos de filosofia, lógica e oratória em sua residência, proferia palestras aos finais de semana e, durante as horas vagas ou após os cursos noturnos que ministrava, escrevia sua obra (volumosa, diga-se de passagem, chegando à casa de aproximadamente 120 títulos). Em suma, sobrava-lhe pouco tempo para o convívio social, pois o trabalho consumia-o totalmente. Trabalho cujo ritmo frenético gerou um grave problema cardíaco, que acabou levando-o à morte.

Além de se auto-isolar, Ferreira dos Santos ainda foi silenciado tanto nos meios comunistas, sofrendo várias formas de perseguições (desde o boicote de suas palestras até uma ameaça de atentado à editora Logos, no dia do lançamento de sua obra Análise dialética do marxismo)6, quanto pelos grupos conversadores, dada a linha pouco ortodoxa de Mário Ferreira, que tinha como influências Platão, Aristóteles, Santo Tomás, Leibniz, Nietzsche e Pitágoras, o que causou certo estranhamento aos meios conservadores da época7. O valor filosófico de Mário Ferreira dos Santos só foi reconhecido recentemente, através do trabalho do filósofo Olavo de Carvalho que influenciou diretamente o surgimento de pesquisadores da obra do filósofo, dentre os quais podemos destacar Renan Santos, fundador do site e revista eletrônica “Filosofia Concreta”, responsável por excelentes estudos sobre a obra do filósofo8.

FILOSOFIA CONCRETA E DIALÉTICA CONCRETA

Embora seja verdade que a obra de um autor é inseparável de sua biografia, infelizmente, sobre a vida de Mário Ferreira não há nenhum dado verdadeiramente substancial, que nos aponte seu ‘’horizonte de consciência’’ — tomando emprestado o termo utilizado por Olavo de Carvalho — ou nos dê alguma pista do porquê nosso filósofo pensou como pensou ou o que levou-o a desenvolver seu pensamento do modo como desenvolveu. Não sabemos, por exemplo, o crescimento espiritual e religioso de Ferreira dos Santos durante seus anos de estudo. Sabemos que na juventude teve algum contato com a maçonaria e com o gnosticismo, mas que na maturidade, converteu-se ao catolicismo9. Contudo, não temos dados que nos mostrem com clareza o real envolvimento do filósofo com essas seitas ou mesmo com o catolicismo e até que ponto este envolvimento influenciou ou deixou de influenciar sua obra. Assim, os livros de Ferreira dos Santos são o único recurso que temos para compreender este filósofo.

A volumosa obra de Mário Ferreira gira em torno de mais de cem livros, entre publicados e inéditos, e aborda praticamente todas as grandes áreas da filosofia: ética, história, filosofia da história, lógica, teoria do conhecimento etc. Porém, a contribuição verdadeiramente original de Ferreira dos Santos para a filosofia foi no campo da Metafísica e da Filosofia da Ciência10, onde desenvolve seu sistema filosófico e método de investigação. Mário Ferreira dos Santos designa seu filosofar como positivo e concreto. Positivo não na acepção comteana, mas no sentido etimológico, ou seja, do verbo “por” e concreto também no sentido original latino, cum crescior, “crescer com”, ou seja, o filosofar de Mário Ferreira afirma os princípios filosóficos descobertos ao longo da história e que busca no real, os elementos metafísicos e físicos que fundamentam e constituem o ente em todos os seus aspectos, desde a geração até sua corrupção. Deste ponto de vista, a filosofia positiva e concreta é um projeto filosófico que visa a conhecer a unidade dos princípios que regem a filosofia desde o início e que possibilita identificarmos como “filosofia” o esforço espiritual que atravessa os séculos11. O filosofar concreto não é um pensamento sincrético ou eclético, pelo contrário, o filósofo paulista não pretende convergir todos os filósofos em uma unicidade forçosa. A intenção de Mário Ferreira é encontrar as positividades (afirmativas) de cada pensamento filosófico e, em posse deste conhecimento, fundamentar seu pensamento, contribuindo para um sentido perene da atividade filosófica. A filosofia concreta é, pois, o esforço de encontrar o sentido comum que rege a filosofia, apresentando-se como expressão deste sentido.

A F. C. é assim um sistema metafísico que afirma a veracidade dos princípios filosóficos em uma época de pleno avanço do positivismo, pragmatismo, materialismo e relativismo, posições anti-filosóficas movidas pela contraditória descrença na capacidade de se conhecer os princípios perenes. Este sistema metafísico, exposto nos três tomos da obra Filosofia Concreta, estrutura-se em teses subsequentes e corolários (somando ao todo 327 teses, dispostas nos tomos da obra Filosofia Concreta), que pretendem fornecer uma “visão unitiva das idéias e dos fatos”, ou seja, demonstrar princípios que fundamentam o ser em suas estruturas ôntica, noética e eidética de modo que não se possa duvidar da validade do que foi exposto e nem do método aplicado, em suma, a F. C. é um sistema metafísico que pretende expor de modo apodítico a validade de suas teses e cuja validade é dada, como afirma o filósofo brasileiro, unicamente pela validade dos seus postulados.

Levando em conta que o pensamento concreto visa a unidade dos princípios que regem o filosofar, a filosofia concreta pretende partir de um ponto que estruture toda a sistematização da metafísica proposta por Ferreira dos Santos e que possa servir como convergência da contemplação filosófica de todos os tempos, ou seja, um princípio verdadeiro ôntico e ontologicamente (afinal, para M. F. dos S., toda a ciência acerca do ser deve estar contida no próprio ser), necessário e auto-evidente, o qual nenhuma escola filosófica possa por em dúvida. E este ponto de partida, chamado por Ferreira dos Santos de arquimédico, existe e é a tese fundamental da F. C.: Alguma coisa há12. Afinal, pode-se por em dúvida os princípios mais evidentes da filosofia, pode-se duvidar da existência do real, da existência da pessoa, da metafísica ou de qualquer outro valor axiológico ou timológico, mas, alguma coisa há. E este princípio é evidente de per se, pois até o próprio ato de negar este princípio demonstra que algo há, mesmo que seja a negação13. Esta tese fundamental, embora, à primeira vista, pareça simplista, traduz, segundo Mário Ferreira, todo o sentido da filosofia: a busca por uma positividade, uma afirmação, mesmo que ainda não tenha-se claro (ao menos de início) o objeto desta certeza, alguma há. O ponto de partida da filosofia concreta é, pois, a afirmação de um princípio universal.

Partindo deste ponto universal de convergência, Mário Ferreira dos Santos elabora a primeira tese da filosofia concreta: alguma coisa há e o nada absoluto não há. Afinal, a tese “alguma coisa há” afirma uma positividade e o nada absoluto significa a total nulidade mesmo de qualquer possibilidade de positividade sendo, obviamente, impossível. Logo, à positividade “alguma coisa há”, não pode haver antecedente, pois seu antecedente seria o nada absoluto (que é absurdo, como vimos), também não pode existir em outrem como acidente ou mera potencialidade, pois se assim fosse, “alguma coisa há”, seria este outro ser no qual subsiste o acidente ou a potência. Logo, “alguma coisa há”, é também “alguma coisa que é”, quer dizer, a positividade de que algo há, indica a concretude de um ser, mesmo que ainda não se tenha claro que é este Ser14. Logicamente, este ser não deve ter antecedente, pois se houvesse, seria ou o nada ou outro Ser Absoluto, assim, este “alguma coisa há” é um ser — e ser absoluto15.

Contudo, se não há um nada absoluto, há, porém, um nada relativo. Mário Ferreira dos Santos refuta o relativismo na esfera do ser, afirmando uma determinada relatividade na esfera do não-ser, quer dizer, se há um nada, este nada é relativo àquilo que o ser não é ou não atualizou. Assim, a metafísica, na filosofia concreta, é a unidade entre as estruturas noéticas e eidéticas, que concrecionam o ser. Não é um esquema ou mental ou físico, mas a unidade entre ambos, pois “alguma coisa há”, é alguma coisa que existe, ou seja, é exercitada in re. Das teses da filosofia concreta, Ferreira deduz a necessidade, eternidade, verdade e autoconsciência do ser.

Ferreira dos Santos demonstra cada uma das teses do filosofar concreto com os mais variados métodos de demonstração válidos da filosofia, como a lógica aristotélica e escolástica, os métodos indutivo-dedutivo e dedutivo-indutivo, a demonstração a more geometrico, a demonstração pela via reductio ad absurdum, a demonstração pela dialética idealista, pela dialética platônica, pelo método circular de Raimundo Lúlio, pela demonstração e converso etc. Porém, dada a novidade de seu sistema filosófico, urgiu a necessidade de se criar um método de investigação mais rigoroso, que pudesse fornecer um conhecimento mais exato das leis do ser e o devir. Surge assim a Dialética Concreta16.

A dialética, como sabemos, é a ferramenta da investigação filosófica por excelência. A lógica é, sem dúvida, também uma ferramenta imprescindível para o exercício da filosofia, porém, a lógica formal opera com conceitos abstratos, ou seja, com os produtos recebidos através da confrontação dialética (chamada por Aristóteles de lógica material) e não com a realidade propriamente dita, cuja operação fica a cargo do referido método dialético. Assim, podemos afirmar que há uma primazia na operação dialética em relação à lógica formal no ato do conhecimento17. A noção de dialética passou por muitas evoluções durante a história da filosofia, das quais podemos destacar como mais significativas as noções platônica, aristotélica, escolástica e hegeliana. O método sinótico-diairético de Platão, a conceituação através do confronto entre as éndoxas segundo Aristóteles, o rigor lógico da escolástica e a sistematização hegeliana da dialética — enquanto filosofia da ciência -, formam a unidade da dialética concreta18.

É a dialética, afirma Mário Ferreira, a lógica da existência, ou seja, o método pelo qual se conhece as leis que regem o ser em seu pleno exercício, da geração à corrupção. Dada as influências que citamos acima, podemos dizer que a investigação dialética-concreta parte de dois princípios gnosiológicos básicos: do ser tomado em si mesmo, como realidade ôntica e ontológica, e como subjetividade, ou seja, como representação nos nossos esquemas noéticos e afetivos. Assim, a dialética concreta, como afirma Mário Ferreira em seu Dicionário de Filosofia, é a ciência que pretende conhecer o ser em relação a si mesmo, ao sujeito que o conhece, ao mundo que o circunda e aos elementos que o constitui.

Partindo deste princípio, o criador da filosofia concreta enumera, em sua obra “Lógica e dialética”, dez campos de investigação dialética que nos permitem um conhecimento mais exato e rigoroso da realidade. São esses os campos de investigação da chamada decadialética: campo do sujeito x objeto19; campo da atualidade e da virtualidade (tomados no sentido aristotélico); campo das possibilidades reais (virtualidades) e das possibilidades não-reais20; campo da intensidade e extensidade21; campo da intensidade e extensidade nas atualizações; campo das oposições do sujeito: razão e intuição; campo das oposições da razão: conhecimento e desconhecimento; campo das oposições da razão: atualizações e virtualizações racionais (intencionais); campo das intuições da oposição: conhecimento e desconhecimento; campo do variante e do invariante. Os referidos dez campos da decadialética são tomados em cinco planos de realidade, chamados pentadialética: como unidade, como unidade, como parte, como série, como sistema e como universalidade.

A decadialética e a pentadialética são os métodos pelos quais é possível “relacionar as leis gerais da metafísica às realidades particulares”22 e concrecioná-las segundo a filosofia concreta. Como podemos notar, além de um método ontologicamente rigoroso, a dialética concreta é também rigorosamente matemática. E tal matematismo é consciente e proposital, afinal, como afirma Olavo de Carvalho, contra o gnóstico e anticristão matematismo moderno, o melhor remédio é uma dose cavalar daquele rigor analítico da filosofia platônica, aristotélica e tomista. É esse, sem dúvida, o esforço que rege o pensamento de Mário Ferreira dos Santos, da descrição fenomenológica do sistema e do método exposta nos vários livros à exposição da filosofia concreta e dialética concreta em “funcionamento”, que se dá na Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, como um sistema orgânico.

ENCICLOPÉDIA DE CIÊNCIAS FILOSÓFICAS E SOCIAIS

As obras em que Mário Ferreira dos Santos aborda diretamente tanto a Filosofia Concreta quanto a Decadialética/Pentadialética são descrições fenomenológicas ou sistematizações lógicas de um filosofar que está presente em sua obra. Ferreira dos Santos não apenas expõe um sistema, mas filosofa a partir da filosofia concreta em suas obras. Embora M. F. dos S. tenha publicado centenas de livros (de tratados de economia política a manuais de oratória), sua opus magnum é a Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, em quarenta e cinco volumes, publicada a partir de 1952: o que foi publicado antes da Enciclopédia é mera divulgação cultural e o que foi publicado depois, é desdobramento do filosofar desenvolvido na monumental obra, sendo a enciclopédia o centro da atividade filosófica propriamente dita do autor.

A Enciclopédia divide-se em três séries. A primeira série é sintética, introdutória aos temas gerais da filosofia como cosmologia, ontologia, teoria do conhecimento, lógica etc… e somam dez livros. A segunda série é analítica, onde o autor expõe a filosofia e dialética concreta e tem como principais títulos: O homem perante o infinito, Noologia geral, Filosofia Concreta, Lógica e Dialética, Filosofia da Crise, Tratado de Simbólica, Filosofia Concreta dos Valores, Ética Fundamental e Sociologia Fundamental. A terceira série, mais densa, é dedicada a Mathesis Megiste, termo que o filósofo toma emprestado da filosofia pitagórica e que significa ‘’sabedoria suprema’’ que, como afirma Olavo de Carvalho, concreciona os princípios daquilo que foi exposto nas outras séries e cujos livros são, segundo a enumeração de Olavo de Carvalho: A Sabedoria dos princípios, A Sabedoria da Unidade, A sabedoria do Ser e do nada (2 vols.), A sabedoria das Leis Eternas, Dialética Concreta, Tratado de Esquematologia (2 vols.), Teoria Geral das Tensões e Deus.

Engana-se, porém, quem imagina que a Enciclopédia segue uma evolução linear. Pelo contrário. A Enciclopédia possui uma estrutura circular, ou seja, as séries foram lançadas quase simultaneamente (a primeira e segunda séries foram lançadas praticamente juntas e a terceira série estava praticamente finalizada quando a segunda ainda estava em publicação), cumprindo rigorosamente o que se espera de uma enciclopédia: uma linha de pensamento exposta em um sistema orgânico, onde todas as obras, além de uma abordagem particular de cada problema proposto, dão-nos também uma visão geral do projeto da enciclopédia como um todo. Do ponto de vista da sistematização da metafísica, talvez possamos afirmar que o projeto da Enciclopédia assemelha-se mais com as sumas e sentenças escolásticas e menos com a enciclopédia iluminista de Diderot e D’alambert, cuja finalidade era meramente propagandística, muito embora Mário Ferreira provavelmente não deixasse de reconhecer certa positividade neste gênero literário quanto ao aspecto estrutural.

A terceira série é marcada pela exposição da influência da filosofia pitagórico-platônica na obra do filósofo brasileiro. Como afirma Carvalho, a própria estrutura da Enciclopédia está fundamentada sobre dez categorias pitagóricas, a saber: Unidade, Oposição, Relação, Reciprocidade, Forma, Harmonia, Mutação, Assunção, Integração e Unidade Transcendente, que estão presentes em cada uma das três séries da Enciclopédia. Cada série, por sua vez, corresponde a uma fase da tríade dialética: Síntese, Análise e Concreção, que, por sua vez, não dividem somente as séries, mas também a disposição dos livros dentro cada série (numa espécie de ‘’micro-dialética’’ e ‘’macro-dialética’’). Segundo esta divisão proposta por Olavo de Carvalho, podemos exemplificar a estrutura do trabalho de Mário Ferreira da seguinte maneira: 1º ex: A terceira série da Enciclopédia corresponde à terceira fase da dialética, a Concreção, que é o supra-sumo de todo o sistema da filosofia de Mário Ferreira; 2º ex: A Sabedoria dos Princípios é o primeiro livro da terceira série e corresponde à primeira categoria pitagórica, Unidade, e em relação à tríade dialética, é a Síntese da terceira série; 3º ex: já A Sabedoria das Leis Eternas é o quinto livro da terceira série, corresponde à quinta categoria pitagórica, Forma, e em relação à tríade dialética que estrutura a Enciclopédia, segundo a disposição realizada por Olavo de Carvalho, o livro representa a Análise, e assim sucessivamente, com todas as obras da citada enciclopédia, conforme a disposição do quadro elaborado por Olavo Carvalho23.

Além da estrutura da Enciclopédia, a decadialética também segue os princípios da filosofia pitagórica. Os dez campos de investigação dialéticos já citados expressam a cosmologia simbólica do filósofo de Samos: na cosmologia pitagórica, o ponto é simbolizado pelo numeral 1; a linha pelo numeral 2; a superfície, 3; o volume, pelo numeral 4. Dez, a somatória dos quatro símbolos, representa assim, a totalidade daquilo que se pode investigar no campo da cosmologia. Logo, a decadialética, afirma ainda Carvalho na introdução d’A Sabedoria das Leis Eternas, segue uma etapa evolutiva na Enciclopédia: o método que, no início da segunda série era entendida como meros campos de investigação dialética, passa a ser entendida também arquétipos noéticos do raciocínio. Esta evolução segue na segunda e terceira séries, onde os campos da decadialética são considerados por M. F. dos S. como arquétipos ontológicos. Destes arquétipos ontológicos, Mário Ferreira finalmente deduz os princípios ontológicos — ou melhor, leis — que regem toda a realidade, dos esquemas noéticos aos esquemas ontológicos, coroando assim o projeto da enciclopédia, cuja finalidade é chegar à Mathesis, ou seja, ao conhecimento supremo destas leis universais.

A tentativa de fundamentar a Mathesis Megiste é o grande esforço filosófico de Mário Ferreira dos Santos e, como dissemos anteriormente, é marcada pela profunda influência do pensamento pitagórico-platônico. Por “pensamento pitagórico-platônico”, entende-se uma visão coadunante das formas24 platônicas às leis pitagóricas, onde esta é a raíz daquela. Para tal empreita, Ferreira propõe uma nova interpretação da filosofia de Pitágoras e uma nova reestruturação da filosofia de Platão25, principalmente nas obras Pitágoras e o tema do Número e O um e o múltiplo de Platão, em que Mário Ferreira rompe com a visão dualista que comumente se tem da filosofia platônica e, pelo método da decadialética e pentadialética, demonstra como o filósofo grego estrutura a filosofia não na díade matéria x forma ou doxa x epistéme, mas sim em uma tríade, onde tanto as formas quanto a matéria são participantes dos logoi das Leis. De uma lei, quando bem conceituada, pode-se extrair seus logoi — as razões intrínsecas a essa lei — e gerar assim, a forma, a qual é analogante da matéria (daí, diz Mário Ferreira, a coadunação da filosofia platônica com a filosofia aristotélica).

Citemos o exemplo dado pelo filósofo. Dos logoi “antecedente” e “conseqüente” (deduzido da lei de que o antecedente precede o conseqüente) deduz-se, por exemplo, a forma de Pai e de Filho. Da forma de Pai e da forma de Filho, participam as realidades particulares, por exemplo, Laio e Édipo, Nicômaco e Aristóteles etc. No entanto (em relação ao mundo das contingencialidades), embora o conseqüente seja material e formalmente conseqüente, o antecedente pode ser apenas formalmente e não materialmente antecedente, pois o pai só torna-se pai no momento em que gera o filho e o filho, é filho apenas depois de ser gerado pelo pai26.

A Enciclopédia encerra-se com a obra Deus, que versa sobre a causa suprema de todas as leis. Natural que fosse assim. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Sociais chega ao fim em 1968, poucos dias antes da morte do filósofo.

CONCLUSÃO

Embora uma exposição exaustiva da obra de Mário Ferreira dos Santos extrapole os limites desta apresentação, estas breves notas — marginais, bem sabemos — apontadas acima serviram para dar-nos ao menos uma noção da grandeza filosófica brasileira, tão esquecida, ou pior, deturpada por propagandistas baratos e pretensos intelectuais, usada como chavão marxista de luta de classes, tratando grandes homens como Mário Ferreira ou Miguel Reale como ‘’minoria excluída pelos opressores meios acadêmicos’’. Esquecem-se, porém, estes cínicos intelectuais, que grande causa do ostracismo dos filósofos brasileiros foi justamente a ideologia da luta de classes. Foi o marxismo, que hoje coloca-se ‘’em defesa dos filósofos excluídos’’ quem mais apagou os nomes dos grandes filósofos brasileiros da história. É o velho relativismo da pobre dialética marxista, cuja incoerência Mário Ferreira demonstrou em várias obras, em ação.

Infelizmente Mário Ferreira dos Santos pecou quanto ao zelo editorial de suas obras, tendo vários livros com sérios lapsos linguísticos, frases inacabadas e parágrafos obscuros, o que, justifica o próprio filósofo, foi causado pela excessiva carga de trabalho que não lhe dava tempo necessário para revisões editoriais. Pecou também quanto ao lançamento dos livros da Enciclopédia cuja estrutura circular, caótica à primeira vista, assusta aqueles que procuram uma aproximação com a obra do filósofo. Porém, por trás de todos estes entraves, como nos diz Olavo de Carvalho, estrutura-se uma unidade de pensamento e de sistema talvez nunca antes vista no Brasil. Mário Ferreira dos Santos foi parafraseando a obra do filósofo brasileiro sobre Nietzsche, o “homem que foi um campo de batalha”. Ou, como diria padre Stanislavs Ladusãns, um filósofo ainda não descoberto.

Referencias:

1. Rascunho das palestras proferidas sobre a vida e obra de Mário Ferreira dos Santos na Faculdade Católica de Anápolis, em ocasião da reunião do grupo de pesquisas em filosofia do direito e história da filosofia, nos dias 21/11/2015 e 05/12/2015.

2. Conf. SOUZA, Carlos Aurélio Mota de. Apresentação. In: SANTOS, Mário Ferreira dos. Cristianismo: A religião do homem. São Paulo: EDUSC, 2003.

3. Ferreira dos Santos, a princípio, publicava romances sob pseudônimos diversos e traduções das obras de Balzac e Amiel antes de dar início ao seu trabalho filosófico, que iniciou através da tradução e comentários às obras de Nietzsche.

4. Conf. FRANCA, Leonel. Noções de história da filosofia. Ed. Agir. p. 263

5. Vicente Ferreira serviu de base teórica e auxílio para dois dos grandes principais filósofos contemporâneos, pertencentes às principais correntes filosóficas do século XX: Gadamer e Orman Quine.

6. A causa destas furiosas investidas foi, sem dúvida, o famoso debate que M. F. dos S. teve com Caio Prado Júnior, onde o símbolo intelectual do Partido Comunista passou pelo vexame de ver sua palestra ser refeita por Ferreira dos Santos, uma vez que, segundo o nosso filósofo, a exposição feita por Caio Prado não satisfazia à concepção marxista sobre o tema referido.

7. Podemos dar como exemplo a querela que Ferreira teve com Washington Vita, sobre a questão do surgimento da filosofia. Conf: JAIME, Jorge. História da Filosofia no Brasil Vol 3. Ed. Unisal. p. 259

8. Renan Santos é atualmente editor da Editora Concreta.

9. Embora M. F. dos S. preferisse denominar-se ‘’cristão’’ e não ‘’católico’’.

10. Filosofia da Ciência não no sentido de Karl Popper, mas no sentido aristotélico do termo, ou seja, como instrumento de investigação filosófica.

11. Não devemos confundir o pensamento concreto com o da escola perenialista de Guénon e Schuon, pois o perenialismo entende o projeto ocidental de filosofia como mera passividade, quer dizer, como expressão da Tradição, enquanto que para nosso filósofo, o filosofar é a atividade espiritual por excelência, ou seja, ativa, que possui seus próprios princípios que, quando bem fundamentados, não contradizem a Tradição. Além do mais, a escola perenialista, de modo especial René Guénon, possui uma visão essencialmente negativa da filosofia ocidental, afirmando que esta atividade é usurpadora da verdadeira sophia perene. O que não impede, é claro, que haja convergência entre certos pontos de ambas as concepções filosóficas, como veremos na segunda parte deste trabalho.

12. Do latim áliquid, que surge da junção de aliud (outro) e quid (que), ou seja, aquilo que é distinto, que não se confunde.

13. Contudo, a negação é ontologicamente posterior à afirmação, como afirma o filósofo, ‘’negar nada é nada negar’’, quer dizer, só é possível negar aquilo que foi anteriormente afirmado. Logo, a positividade, por definição, precede a negação.

14. Convém ressaltar que a positividade ‘’alguma coisa há’’ não deve ser confundida com a fórmula cartesiana do Cogito. Descartes dá a autoconsciência o critério de verdade e certeza, ao passo que a tese ‘’alguma coisa há’’ afirma um princípio objetivo, anterior à própria consciência individual. Em última instância, a autoconsciência participa desta positividade, não o contrário.

15. Ab-solutum, desligado, que não provém de outro.

16. Denominada também como Dialética Ontológica, a D.C. é um conjunto de três métodos dialéticos criados por M. F. dos S.: Decadialética, Pentadialética e Dialética Simbólica.

17. O próprio Aristóteles utilizava a dialética como método de suas obras no lugar da pura lógica formal, como demonstra Erick Weil. Conf: CARVALHO, Olavo de. A teoria dos quatro discursos: Aristóteles em nova perspectiva.

18. Dada a extensão do problema, uma abordagem detalhada da influência do desenvolvimento histórico da dialética na obra de M. F. dos S. extrapolaria os limites deste breve artigo. De qualquer forma, não podemos privar de citar, ao menos de passagem, a influência de Parmênides, Nicolau de Cusa, Fichte, Schelling e Nietzsche sobre a concepção de dialética concreta.

19. Entendemos aqui sujeito e objeto, como afirma M. F. dos S., a relação subjetividade-objetividade, onde subjetividade é a existência post rem (no sentido usado por Avicena) da realidade em estudo. Neste sentido é que podemos afirmar que todo objeto possui também subjetividade. Conf. SANTOS, Mário Ferreira dos. Lógica e Dialética. São Paulo: Logos. 4. Ed. 1959.

20. Possibilidade é aquilo que não contradiz o ser, mas que não está necessariamente em potência de atualizar-se, daí a distinção entre potência e possibilidade.

21. Segundo Olavo de Carvalho, Mário Ferreira toma este termo emprestado da física, que designa em última instância, os aspectos qualitativos e quantitativos do objeto, respectivamente. Na decadialética, porém, não são termos meramente físicos, mas também históricos e existenciais. Conf. SANTOS, Mário Ferreira dos. Filosofia e histórica da cultura. Tomo: I. Ed. Logos.

22. Conf. CARVALHO, Olavo de. Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro. In: A filosofia e o seu inverso. Ed. Record.

23. Conf. CARVALHO, Olavo de. Estrutura da Enciclopédia das Ciências Filosóficas. In: SANTOS, Mário Ferreira dos. A Sabedoria das Leis Eternas. São Paulo: É Realizações, 2001. pág. 44–45.

24. M. F. dos S. prefere utilizar o termo ‘’forma’’ no lugar do termo ‘’idéia’’, dada a multiplicidade de sentidos que ‘’idéia’’ possui ao longo da história da filosofia. As idéias platônicas, como se sabe, são eidéticas e não noéticas.

25. Muito embora o próprio filósofo reconhecesse que sua reinterpretação da obra de Pitágoras e Platão pudesse não ter valor histórico, mas tão somente conceptual, as teses expostas por M. F. sobre a influência de Pitágoras na filosofia de Platão coadunam perfeitamente com a famosa reestruturação do platonismo feita por Giovanni Reale na importante obra Para uma nova interpretação de Platão, onde o historiador italiano propõe uma reconstrução do que seria o ensinamento oral do filósofo ateniense.

26. O que pode demonstrar de maneira análoga a relação de Deus-Pai e Deus-Filho, pois Deus-Pai é Pai eternamente e Deus-Filho, Filho eternamente. Logo, ambos sempre existiram como Pai e Filho em eterna geração, não havendo, porém, uma subordinação de Deus-Filho ao Deus-Pai, por tratar-se do Logos eterno, incriado.

Bibliografia recomendada:

CARVALHO, Olavo de. A Filosofia e o seu inverso e outros estudos. 1. ed. São Paulo: Vide Editorial, 2012.

_________. Introdução. In: SANTOS, Mário Ferreira dos. Enciclopédia das ciências filosóficas III: A sabedoria das leis eternas. 1. Ed. São Paulo: É Realizações, 2001. p. 12–42.

_________. O futuro do pensamento brasileiro: estudos sobre o nosso lugar no mundo. São Paulo: É Realizações, 2007.

JAIME, Jorge. História da filosofia no Brasil Volume 2. São Paulo: Ed. Vozes, 1999.

LADUSÃNS, Stanislavs. Rumos da filosofia atual no Brasil em auto-retratos I Volume. São Paulo: Edições Loyola, 1976.

SOUZA, Carlos Aurélio Mota de. Apresentação. In: SANTOS, Mário Ferreira dos. Cristianismo: A religião do homem. São Paulo: EDUSC, 2003. p. 7–21.

SANTOS, Mário Ferreira dos. Enciclopédia de ciências filosóficas e sócias: Filosofia Concreta 1º tomo. 3. ed. São Paulo: Logos, 1961.

_______. Enciclopédia de ciências filosóficas e sociais II: Lógica e Dialética. 4. ed. São Paulo: Logos, 1959.

_______. Enciclopédia de ciências filosóficas e sociais II: Filosofia da crise. 3. Ed. São Paulo: Logos, 1959.

_______. Pitágoras e o tema do número. São Paulo: Ibrasa, 2000.

_______. Invasão vertical dos bárbaros. São Paulo: É Realizações.

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