O Congresso Futurista

Por Lucas Coelho

Durante muitos anos, a ficção científica foi relegada à periferia das artes, seja na literatura ou no cinema. Para muitos, o gênero nasceu com Julio Verne e suas aventuras alucinantes como Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas Submarinas em meados do século XIX. Mas foi apenas um século depois que a ficção científica conseguiu efetivamente se estabelecer. Autores como Philip K. Dick, H.P. Lovecraft, Isaac Asimov e Arthur C. Clark foram alguns dos responsáveis pela transformação da literatura de revistas de ficção pulp (de onde, por sinal, Tarantino tirou o nome para seu renomado Pulp Fiction), em grandes obras de análise social, onde a visão deu um futuro quase sempre distópico prevalecia.

Em meio à essa efervescência ficcional, um autor também merece grande destaque: Stanislaw Lem, o polonês autor de Solaris e Kongres Futurologiczny, cuja adaptação foi levada ao cinema em 2014 por Ari Folman, com o nome de O Congresso Futurista e estrelado de maneira brilhante por Robin Wright (a Claire, de House of Cards).

Transitando entre o live action e a animação, o diretor mostrou que sua consagração em Valsa com Bashir não era apenas sorte. Em Congresso Futurista, Folman amplia seu catálogo visual com uma profusão de cores, formas e referencias estéticas.

Um congresso surrealista

A proposta de O Congresso Futurista tem inspiração em Lem, mas não se fecha na obra literária. Segundo Ari Folman, “certamente não há nada baseado em Lem na primeira metade do filme. A segunda parte é definitivamente diferente, mas utilizei sua obra como fonte de inspiração”.

Como “primeira parte”, Folman refere-se ao live action do filme, onde descobrimos que Robin Wright faz papel dela mesma: a atriz Robin é uma mulher em declínio, após uma carreira promissora com grandes filmes no curriculum. Sem dinheiro e com um filho deficiente (a Sindrome de Usher, uma deficiência que gera a perda gradativa de visão e audição), Robin se vê diante de uma proposta inovadora e exclusiva da produtora Miramount, que detém seu contrato: Robin Wright será completamente escaneada, entregando sua carreira aos animadores 3D da produtora e abrindo mão, por um período de vinte anos, de qualquer direito de escolha sobre os filmes que produzirão com sua imagem.

O nome, a biografia e as escolhas da atriz Robin Wright serão separados da mulher Robin Wright. Ela deve abdicar de qualquer palco, qualquer atuação, qualquer menção de que um dia foi uma atriz.

Após hesitar por muito tempo, ela cede à pressão psicológica de seu agente Al que, em uma das cenas mais emocionantes do filme, traça um monologo sobre a frieza e crueldade do mercado cinematográfico, permitindo à protagonista uma atuação surpreendente. Medo, raiva, felicidade, tristeza, vazio. Tudo é sentido e simultaneamente escaneado pela produtora.

Vinte Anos Depois

Um corte brusco nos leva ao ano de 2033 e nos deparamos com uma Robin envelhecida, chegando ao congresso da produtora Miramount (agora Miramount –Nagazaki). O pedágio: inalar uma ampola de elementos químicos que a permitirá se ver dentro de uma realidade virtual em animação.

A partir desse ponto, o expectador é levado a vivenciar uma realidade completamente diferente do que se conhece. Realidade e identidade são conceitos que se perdem. Em meio ao congresso, Robin caminha por entre David Bowies, Jesuses, Budha e até Michael Jackson.

Falar mais sobre o roteiro é retirar a surpresa e as reflexões que o expectador merece ter.

Realidade e virtualidade, mercado do entretenimento e a busca interior de uma pessoa que abriu mão de parte de si mesma para se entregar ao jogo das produtoras de cinema são alguns dos temas abordados durante essa viagem pelo mundo das cores, formas e traços que Ari Folman criou.

O Congresso Futurista é um filme para ser assistido mais de uma vez. A primeira, para deixar levar-se pela história, sem conseguir prever o rumo que os acontecimentos tomarão. A segunda, para tentar desvendar as inúmeras camadas de significado de cada frase, de cada personagem, de cada cena e de cada sentimento que nasce ao se deparar com um futuro distópico como só uma grande ficção científica pode nos proporcionar.

Ficha técnica:
O Congresso Futurista
Diretor: Ari Folman
Ano: 2013
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