As Normas ajudam ou atrapalham?

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Na tirinha ao lado temos a seguinte situação:

Uma pessoa, aparentemente, acabara de mudar-se para o novo apartamento, e fala de sua varanda: “Sim, é tudo muito bonito (o edifício), mas não sabemos onde estender a roupa!”

As Normas funcionam como diretrizes, padronizando várias características, que serão seguidas pelas empresas que vão fabricar um determinado produto, com o objetivo de regular a qualidade deste, e também garantindo a segurança do usuário final: O Consumidor.

No Brasil, temos o INMETRO (Instituto Nacional de Metrolologia, Qualidade e Tecnologia), que submete a testes os produtos que são comercializados no Brasil.


Na Construção Civil, no que diz respeito aos serviços de Projeto, mais especificamente de arquitetura, não existe um órgão fiscalizador. O que ocorre é uma série de Normas (as chamadas “NBR”), os Códigos de Obras e Edificações (geralmente emitido por cada cidade, estado ou município), as Normas de Gabarito (no caso de Brasília), os Planos Diretores Locais, as Normas de Condomínio (condomínios residenciais horizontais e verticais, condomínios comerciais e de uso misto etc), e outras normas específicas como as da ANVISA, para estabelecimentos assistenciais de saúde, a Lei de Direitos Autorais, que protege a obra arquitetônica, e as Normas Ambientais. Essas Normas são cobradas pelos órgãos da Administração ou Prefeitura, das Concessionárias (como CEB e CAESB) ou dos Condomínios, para que os projetos sejam aprovados. Dependendo de onde a área se localiza, o IBAMA também deve aprovar o projeto. Outras entidades também aprovam os projetos, como o Corpo de Bombeiros, a ANVISA, etc. Por isso não existe um único órgão fiscalizador.

Obra sem projeto, e sem norma! Fonte: https://www.pinterest.com/blancosantos/chistes/
Esse não sabe dimensionar um banheiro. Fonte: https://arquitetapage.wordpress.com/2014/01/08/os-25-erros-mais-bizarros-da-construcao-civil/

Essas normas, também chamadas de “Padrões”, são atualizadas de acordo com a necessidade, ou novas são criadas, para se adequarem à nova realidade em que vivemos. Esses “padrões” também são as bases de alguns “programas de certificação” de edifícios. Essas certificações são selos (como os que o INMETRO emite) para edificações, que garante que aquela edificação obedece o mínimo de requisitos (ou todos) para que ela seja considerada:

  • Energeticamente Eficiente, como o PROCEL (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica);
  • Sustentável, como o LEED, que abrange uma série de quesitos como a Implantação feita em local correto, a orientação feita de modo correto a otimizar a insolação ou a ventilação natural, que economize recursos naturais como água e energia, que produza a sua própria energia, que seja menos poluente, cuja construção e manutenção emita menos CO2, que utilize materiais locais evitando a poluição através da utilização de materiais pouco convencionais ou de difícil fornecimento etc;
  • Qualidade Ambiental, como o AQUA;
Todas essas normas auxiliam no processo de concepção e de desenvolvimento do projeto de arquitetura, e são elas que garantem a qualidade final do projeto e a segurança do usuário final: O Cliente.
Fish House. Uma casa sustentável em Cingapura. Fonte: https://obravipblogs.wordpress.com/2010/07/09/fish-hause-casa-sustentavel-e-exotica-em-singapura/

Essa casa “engoliu” o afastamento. Fonte: http://arquitetosdafelicidade.com.br/tag/arquitetura/

Para que as construções das casas e edifícios não sejam feitas de qualquer forma, as Administrações, Prefeituras e Condomínios das cidades exigem o cumprimento de algumas normas, como: Altura máxima da edificação, Afastamentos mínimos, Área Máxima Construída, Taxa Mínima de Área Permeável, Ocupação Máxima, Ocupação Mínima, Taxa Mínima de Permeabilidade Visual da Fachada, assim como a limitação dos usos de um Lote, Edificação ou unidades de uma Edificação.

Esta casa soube aproveitar o afastamento. Fonte: http://arcoweb.com.br/projetodesign/arquitetura/sotero-arquitetos-casa-bomba-palmeiras-ba

Muitas pessoas vêem essas Normas como obstáculos, como forma de atrapalhar que eles façam o que quiserem com seus imóveis. _O imóvel não é meu, afinal? — Sim, mas o seu imóvel pertence a uma malha urbana, que é formada por milhares de outros imóveis. A falta de obediência às Normas de Construção, de Padronização Urbanas, normas de Qualidade e Ambientais, causam danos quase irreparáveis à paisagem urbana.

Já pensou o que seria das cidades se não houvessem as normas de construção?

Dubai, à esquerda, uma cidade planejada. Uma das favelas do Rio, à direita. Fonte: http://www.slate.com/articles/life/transport/2012/01/jarrett_walker_s_human_transit_are_we_thinking_about_urban_planning_all_wrong_.html
Bloco de Apartamentos em Barcelona. Fonte: http://www.citylab.com/politics/2013/05/potential-perils-rapid-fire-urbanization/5491/
Kowloon, a maior favela vertical do mundo. Fonte: http://minilua.com/kowloom-cidade-sem-lei/
Delhi, ìndia. Fonte: http://www.dw.com/en/urban-planner-smart-cities-are-problematic/a-18057258

Alguns exemplos podem ser de países muito distantes, mas eu garanto a você, leitor, que basta olhar pelas ruas de sua cidade que você verá, até mesmo em áreas centrais e de custos altos, exemplos da falta de padronização.

Em qual destas cidades abaixo você prefere morar?


Taguatinga, Comercial Norte. Fonte: http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/06/samdu-e-comercial-em-taguatinga-df-terao-mao-unica-partir-de-julho.html
Taguatinga Norte ao fundo. Fonte: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=592314&page=9
QSB 16, em Taguatinga. A falta de escala entre os edifícios de um lado e as casas do outro. Fonte: Google Street View.

Ou nessas…

Vancouver, Canadá. Fonte: http://vancouver4life.com/vancouver-parks-450-beach-crescent-george-wainborn-park/
Calgary, Canadá. Fonte: https://www.flickr.com/photos/canadalandscompany/4253681801
Vancouver, Canadá. Fonte: http://www.utne.com/environment/recycled-plastic-zm0z13mazwil.aspx

Seguir as normas não parece ser tão ruim agora, parece? Imagine se cada um exercesse de forma livre o “direito de propriedade” sobre seus imóveis. Se as alturas não fossem obedecidas, se os usos não fossem restritos, se os afastamentos não fossem padronizados, se cada um fizesse o que quiser com a fachada de seu apartamento. Você, como proprietário, como dono de um bem que tem um valor, vai querer que o seu imóvel seja valorizado, não é? Você quer que o seu imóvel esteja bem cotado, para o caso de precisar vender ou alugar o seu imóvel, sem ter o risco de perder dinheiro. Pois, o que acha que acontece com um imóvel localizado em um condomínio, edifício ou bairro desorganizado, fora do padrão?

Por isso, caro leitor, como proprietário (e um imóvel é um bem muito caro!) você deve exigir que todas as Normas sejam cumpridas, ou o seu dinheiro irá pelo ralo. Isso fora as complicações, legais e econômicas, às quais está sujeito o imóvel que não segue às normas.

Complicações Legais e Econômicas

Se o seu imóvel não segue às normas de Condomínio, por exemplo, o dinheiro que você gastou trocando a janela da cozinha, que você achava pequena por uma maior, terá de ser gasto novamente, pois alterar qualquer elemento da fachada caracteriza — como o próprio nome já diz — alteração de fachada. Essa alteração de fachada sem o consentimento do arquiteto autor do projeto — e sem um projeto aprovado na administração/prefeitura da cidade e pelo condomínio — caracteriza violação dos Direitos Autorais de Obra de Arquitetura. O infrator poderá pagar ao Autor do projeto indenização por dano ao patrimônio intelectual, que pode atingir valores muito altos, além do mal estar causado ao infrator e à vítima.

Projetos feitos sem a obediência às normas ainda estão sujeitos à acidentes, pois não visaram às especificações e dimensionamentos mínimos necessários para garantir a segurança. Caso ocorra algum problema na edificação, por não haver nenhum responsável técnico, o proprietário responderá na justiça pelos danos causados. E, mesmo que haja um responsável pelo projeto da edificação, se a obra não for executada conforme o projeto, ao profissional não caberá nenhuma responsabilidade, ficando somente o proprietário como responsável.

Entre os acidentes podemos citar: Desmoronamentos, Explosões, Incêndios etc.


Nova Norma no Brasil exige que toda Reforma em Edificações exija o Laudo Técnico de um Arquiteto ou Engenheiro


A NBR 16.280 vem causando muitas dores de cabeças aos proprietários que estavam pensando em fazer uma “reforminha” em seus imóveis.

Novamente, muitos repudiaram a norma e alguns que se dizem “entendedores” do assunto afirmaram que a Norma não tem força de lei, portanto, não precisa ser seguida.

Imagine, pois, uma pessoa que comprara um apartamento e que está se preparando para fazer uma reforma. E, nessa reforma, ele quer mudar o vaso sanitário do banheiro de lugar e trocar o piso da cozinha. Ele contrata o pedreiro, que começa a quebrar todo o apartamento. Assim que o pedreiro começa a abrir um novo buraco na laje, para instalar o vaso sanitário, surgem fissuras e a obra tem de ser interrompida. Um engenheiro é chamado, finalmente, e descobre que a laje jamais poderia ser quebrada, pois era uma laje protendida, para vencer um vão muito grande entre pilares, e qualquer intervenção estrutural, como um novo furo na laje, poderia romper a estrutura e causar o desabamento, tudo porque, nesse tipo de laje, cada furo, cada abertura e inclusive os revestimentos são calculados minuciosamente. Uma vez que a laje já foi rompida, o proprietário do imóvel deverá arcar, agora, com um Projeto de Reforço Estrutural, e ainda executar o tal reforço, ou o edifício corre sério risco de desabamento e uma tragédia poderá acontecer a qualquer momento. Enquanto isso, na cozinha, outro pedreiro está a quebrar o piso para instalar o novo e acaba atingindo uma tubulação de gás…

Ainda preciso terminar a história?

Prezado leitor, você, como consumidor, deve sempre exigir o melhor para o produto que está comprando. E, quando o assunto é construção civil, esta regra é imperativa.

Exija o produto mais adequado para a sua obra, e o principal, exija um Profissional Habilitado.


No Brasil, o trabalho do arquiteto ainda está em processo de reconhecimento. Até então, a autoridade de uma obra era ora o engenheiro, ora o mestre de obras/pedreiro. Aos poucos, essa imagem vai mudando à medida em que o nosso trabalho vai sendo divulgado e que as normas avançam para exigir que o arquiteto esteja cada vez mais presente, sendo mostrado assim que ele é um profissional indispensável.


Priscila Bonifácio é Arquiteta e Urbanista, formada pelo UniCEUB, especialista em Reabilitação Ambiental Sustentável Arquitetônica e Urbanística pela Universidade de Brasília. Fez o curso de Patrimônio Urbanístico de Brasília, ministrado pelo IPHAN. É uma Profissional Certificada em REVIT 2014 pela Autodesk, e trabalha como Coordenadora de Projetos em uma empresa de Engenharia & Consultoria em Brasília.