AS GRAVES GREVES

Antes mesmo de delinear meu pensamento sobre as greves na Educação, sei que pela natureza do assunto a polemica será lançada, com muitos ataques, não pessoais mas às consciências do inflamado professorado, considerando a história dos movimentos e as conquistas garantidas por esse método de paralisação. Entretanto, eu desafio o novo pois há repetições que não produzem mais efeito positivo e simplesmente se tornaram mecanismos do comodismo engessado de quem não quer fazer diferente.

Desde pequeno eu vivencio isso: uma política suja que não quer valorizar a Educação, isso mesmo, não quer. O Ensino não é prioridade, é a velha máxima: cidadãos ignorantes são mais suscetíveis à manipulação escancarada, porém velada com uma boa embalagem, aos olhos da multidão.

Do outro lado, tem uma classe pensante (teoricamente) pois muitas vezes vejo ociosidade intelectual nos tão respeitados Professores, sim, respeitados, se não pela classe política, pela sociedade; ainda que muitas vezes haja um reconhecimento marginalizado ele não é maioria, é uma parcela pequena, fruto da mesma ignorância plantada pelo sistema e pelos desinteressados profissionais que não compreendem totalmente a sua responsabilidade na formação daqueles que procuram aprender.

Meus professores faziam greve, meus colegas de trabalho fazem greve. Eles conseguem se mobilizar para paralisar o serviço mas até hoje não conseguiram se mobilizar de verdade para mudar as estruturas, seguem um sindicato e lideranças egoístas, hora com boas intenções, hora com politicagem, eles se quer percebem que fazem parte do rebanho, servindo ao movimento de um dominador que joga com os interesses próprios e não com a propriedade das pautas conceitualmente boas. Ainda assim eles apoiam, sentados, mas apoiam.

Eles estão sempre correndo atrás do prejuízo, não chegaram a frente, não têm poder porque são governados, porque seguem cartilhas antigas e métodos ultrapassados. Quando o Estado domina uma forma de manifestação, ele tem o controle, o efeito da repetição sistemática é pífio, quase nulo e na maioria das vezes é inoperante. O sistema tem o domínio, exclusivamente porque sabe como o outro irá agir.

As greves se tornaram obsoletas, é preciso enxergar que elas proporcionalmente deram certo no passado mas não funcionam mais. Funcionaram de alguma maneira no século passado, já não funcionam. Não é a greve que traz mudanças é a competência jurídica e política. Sim, eficiência não necessariamente de políticos mas de uma política virtuosa e inteligente, de ações sinceras, organizadas e meritórias.

A rebeldia, a força, a subversão, tudo isso é uma luta de estruturas do passado, elas levam apenas ao ódio, ao rancor, a irritação e acabam culminando em guerra. O vencedor é o mais forte e não dá para medir força com um comando opressor, midiaticamente munido de armas financeiras e manobras sociais.

A autêntica mudança estrutural é feita de dentro para fora, como funciona em um individuo funciona em um organismo inteiro. Não existe indivíduo civilizado que não tenha se formado nas cadeiras das escolas e nos conteúdos de um professor. Embora também vivamos em um sistema educacional ultrapassado a luz no fim do túnel é clara e radiante, nós educamos ao próximo pelo exemplo, se queremos alçar valores mais dignos e justos, precisamos ser dignos e justos com aqueles que não precisam pagar pela estupidez dos adultos, pela corrupção política e pelo devaneio hipócrita de alguns.

Quando a Educação para, nós paralisamos aqueles que mais precisam de instrução, nós os amordaçamos com nossa febre e angústia, nós impomos a eles a nossa opressão, nós reproduzimos a cólera que nos ataca. Nós não devemos descontar nos alunos, os problemas da vida adulta que vivemos; eles são crianças, são jovens, carentes de informação, com fome de conhecimento.

Quando paramos a Educação nós retiramos o pão do pensamento, a água da sapiência e entregamos ao Ensino o mesmo mundo mesquinho em suas fórmulas retrógradas com as quais crescemos e fomos submetidos. Não é repetindo os erros e os mesmos processos que vamos transformar a sociedade, se isso fosse eficaz o agora já seria diferente. Essa é a simples resposta que demostra o efeito das ações errôneas que vigoram e já se esgotaram.

O exemplo fala mais alto que as palavras, mostra mais atitude que o discurso. Para um mundo diferente não podemos seguir sendo iguais a tudo aquilo que rejeitamos, é preciso modos mais inteligentes para agir com paz e benevolente construção. O amanhã se esboça hoje, é sabido que as mesmas estradas levam aos mesmos caminhos, não adianta caminharmos em círculos viciosos e ineficientes, é preciso caminhar para o futuro com ações do futuro.

Toda a sociedade passa pela escola, por que não começar por aí os projetos que anunciarão o amanhã mais consciente e transformador. Um cidadão corrupto é como um vírus gripal que se espalha incontrolavelmente. Nós educadores temos que combater essa adversidade enraizada na cultura brasileira, medicar é a emergência, nós temos mesmo é que trabalhar para modificar o germe, do contrário daqui a duas décadas o cenário será o mesmo sendo uma idêntica reprodução do caos em que estamos mergulhados. Não é com as armas inapropriadas que venceremos os golpes invisíveis.

Não faça parte do coro que desconta nos inocentes o mal que lhes aflige, não reproduza o mal que fizeram contra você. Se você quer lutar, brigue pelas causas certas, de uma maneira assertiva, ataque o sistema em sua mais sensível e importante base, pois lá em cima a rigidez já está estabelecida, os dinossauros ainda mandam. Precisamos sair de um estado selvagem para uma abordagem moderna, sensível e edificante.

Quando alcançamos a posição de adultos nós não combatemos mais por nós mesmos, isso é egoísmo, nós porfiamos pelo amanhã. As décadas representam muito para um ser humano, mas para um país, são segundos na história do futuro e nós somos trabalhadores planejando o terreno que virá, estamos reparando as coisas, arando o terreno e semeando o depois, não jogue veneno em seu cultivo, plante amor, esperança, fé e consciência.

Muitos ainda não entendem, mas o serviço público é uma ferramenta para servir ao próximo, é um ensejo de altruísmo, isso não deve ferir nossa dignidade, muito pelo contrário, deve ser motivo de orgulho. Quando escolhemos ser servidores públicos, nós entendemos as complicações da máquina, não adianta reclamar ao vento, isso é birra. De certo não temos que aceitar passivamente as deploráveis engrenagens do sistema, mas não devemos reproduzir o mesmo que nos fere naqueles que precisam de nós. A negativa reação em cadeia precisa ser blindada em algum lugar, a ignorância em todos os níveis precisa ser combatida com amor.

Aos Educadores, considero que existem duas frentes de ação: uma em que é preciso sim mostrar o valor da Educação ao Estado, mas a outra deve demonstrar que em momento algum estamos dispostos a reduzir o nível de Educação daqueles que mais precisam. Não devemos sob a justificativa das nossas emergências enforcar aqueles que conduzirão o amanhã, não vamos assassinar o futuro, vamos cuidar para que ele cresça sadio e revolucionário.

Leia mais textos meus na página inicial.

MANUAL VEGANO
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