MARCAS VERSUS PRODUTOS

Opiniões e divergências no ativismo vegano.

Na medida do possível e praticável frente a coerência.

Em março de 2018 duas grandes vozes do veganismo no Brasil levantaram a demanda do boicote ou não de marcas e produtos que testam ou utilizam animais. Como ainda não ressoa nenhuma voz de longo alcance imbuída na questão do boicote de produtos que podem conter traços de origem animal; apresento mais abaixo a minha opinião a respeito que é pertinente ao tema que se apresenta.

Para contextualizar: de um lado Fabio Chaves (Vista-se) que defende o boicote a marcas que testam em animais mas não boicota empresas que fabricam produtos de origem animal, desde que um produto particular dessa empresa tenha uma lista de ingredientes 100% vegetais, cujo inclusive pode conter traços de derivados animais; em sua visão não há problema dessa ordem no veganismo. Do outro Flavio Giusti (VegetariRango) que boicota produtos de origem animal mas não marcas, em sua argumentação não há porque boicotar marcas, desde que essas fabriquem produtos com ingredientes 100% vegetais e os torne acessíveis aos consumidores; a grosso modo ele defende que se o produto é vegetal em sua fórmula (ainda que contenha traços de origem animal) está apto ao veganismo.

Refletindo…

Por razões diversas, contextuais, políticas e sociais concordo com a visão do Flavio, com exceção ao consumo de produtos com traços de origem animal, tema que venho apontando como uma anomalia no conceito de aceitação do consumidor vegano. A saber: eu boicoto produtos, não marcas; desde que o produto seja livre de qualquer ingrediente ou traços de origem animal.

Quanto a posição do Fabio, eu entendo o prisma sobre o boicote de marcas que testam em animais, ele é plausível, mas por essa ótica não consigo separar uma empresa que explora animais (onde contém traços ou contém produtos de origem animal) de uma empresa que testa em animais, pois todas elas agem no mesmo sistema de especismo.

Nesse entremeio eu considero que um produto vegano-sem-traços de uma marca especista é menos nocivo que um produto vegano-com-traços que venha de uma marca que produz vários itens de origem animal mas que mantem o álibi de não testar em animais. O mesmo paradoxo encontro em veganos que compram rações com carnes e derivados para seus animais de estimação; é ilógico comprar produtos animais tendo adotado o veganismo, é incoerente, é hipócrita.

No que tange a discussão central sobre marcas versus produtos frente a coerência, sendo na posição X, Y ou Z é importante ter claro o momento em que vivemos e a flexibilidade frente as diversas realidades, condições, cronologia e história de cada um que chega ao veganismo. Nós estamos em transição. Todos nós ainda consumimos de empresas especistas por uma via ou outra, o especismo está no DNA da nossa civilização e vai levar um tempo para que essa condição possa ser superada pelo indivíduo e pela multidão.

Voltando ao eixo em debate, na minha concepção: o fundamento de uma empresa que testa em animais para uma que os explora é o mesmo. Afinal para se obter produtos de origem animal é fatídico que animais sejam explorados ou leia-se: testados, logo um produto que contém traços de origem animal (ou marca que contenha produtos animais) denuncia uma empresa/fabricante que explora ou testa em animais, isso é fato! Portanto é incoerente boicotar marcas que testam em animais e não boicotar marcas que utilizam animais, afinal se uma empresa fabrica produtos de origem animal ela os explora de diversas formas, seja testando, escravizando ou matando.

Filosofando, pergunto:

Qual a diferença no principio ético entre testar em animais ou explorar vacas leiteiras, confinar galinhas, manter a escravidão e ao fim assassinar?

Não há justificativa moral para dizer que animais para testes são mais importantes que outros escravizados ou utilizados para consumo. Aqueles que boicotam marcas especistas mas compram de outras marcas também especistas, estão inflados em uma posição confusa, indeterminada e egoica.

Contudo, sabemos que o veganismo é praticado na medida do possível, logo permite a liberdade de uma posição particular, tal como a minha. Ainda assim a lógica não deve se sucumbir diante a racionalidade, que se observada denuncia a incoerência dessa desconexa posição de boicote onde se evita uma determinada marca que testa em animais ao passo que aceita a compra de variados produtos de uma outra marca que não testa em animais porém os escraviza até a morte.

MINHA OPINIÃO AMPLIADA SOBRE A DISCUSSÃO DE TRAÇOS PODE SER LIDA EM: QUANDO A RAZÃO SE TORNA IRRACIONAL.

Leia mais textos meus na página inicial.

MANUAL VEGANO