QUANDO A RAZÃO SE TORNA IRRACIONAL

Atenção: esse texto pode conter traços de acento agudo, circunflexo e til.

Uma vez um amigo me mostrou um texto, um mundo que eu ignorava se abriu. Um pouco mais adiante minha namorada, hoje noiva, me apresentou um documentário chamado Terráqueos, um novo universo se descortinou aos meus olhos. Eu não podia negar o que via, eu já não podia continuar sendo indiferente, eu não podia mais participar do especismo.

E lá fui eu, primeiro me tornei vegetariano por 3 meses e em seguida desde o dia do lavrador em 23 de junho de 2012. A data não foi proposital, nesse dia minha família estava em festa pela noite de São João que se acercava, evento tradicional que serve muitas quitandas e especiarias derivadas do leite. Foi nesse dia que eu decidi me tornar vegano. O veganismo é um movimento a respeito dos direitos animais e ambientais.

Eu já não podia mais ir contra minha consciência. Há um ditado que diz: Cuidado! A leitura pode causar sérios danos a ignorância. Acho que por isso muitos têm medo de ler, de pesquisar e de encontrar respostas, preferem acobertar suas ignorâncias porque as vezes dói em seus egos e a verdade contraria as suas confortáveis paixões.

Simultâneo ao conhecimento do veganismo comecei a estudar o espiritismo, doutrina de teor religioso, científico e filosófico que busca o aprimoramento moral do indivíduo. Bem, essa é uma síntese das leituras que me transformaram à vida adulta, mas comecei esse texto com o propósito de pontuar um debate intrigante entre veganos: o fato de um produto conter traços de determinado ingrediente de origem animal.

Muitos não vêm problema nesse fator desde que a listagem de ingredientes seja 100% vegetal, passando a considerar esses alimentos como vegano. Outros como eu consideram que não são veganos porque existe no tal produto vestígios de derivados animais; ilustradamente como você pode ver nos sinais de acentuação gráfica como adverti no princípio da redação. É inegável que eles estejam no texto. Suponhamos que as letras são vegetais e os acentos os traços de origem animal, esse produto não é 100% vegano, não na minha concepção e eu não estou sozinho nesse conceito.

Isso tem me chamado atenção. Você pode ir a uma pizzaria e pedir uma pizza vegetariana, a definição é vulgarmente tão extensa que você pode comer uma pizza com massa de ovos, quatro queijos com borda catupiri e quem sabe até com peixes se fosse comum em pizzas. O termo vegetariano é popularmente tão amplo que em último caso é estrito. Me assombra correr esse risco com o veganismo e pior é que já estamos correndo, falarei disso daqui dois parágrafos.

Eu já trabalhei em indústria alimentícia, de modo geral sei como funcionam as coisas em uma produção, conheço alguns maquinários e certas rotinas de limpeza, tanto quanto enxergo o que é um traço e ele não é invisível, não senhoras e senhores: ele não está nos utensílios que foram cuidadosamente lavados em uma residência. Por favor não se façam cegos, não se acomodem. ​A acomodação ativista gera comodismo empresarial, gera comodismo militante e gera pontos divergentes no que deve ser unido.

Em nossa pauta já defendemos os direitos animais e agimos dentro das nossas possibilidades, mas não podemos nos aquietar diante o fato do “pode conter traços”, ao vegano não importa se a informação está ali por razões alergênicas, o fato é que está e não deve ser ignorado. Debater é importante para expandir essa discussão e chegar a um ponto em comum para os fundamentos. Ouso dizer que o vegano que não consome traços, tal como não voltará a comer carne, não abrirá precedentes para comer traços por uma convenção plural que diga: contém traços mas é vegano. Por obséquio, não vamos especular fantasias nem ilhas desertas e etc, vamos enfrentar a realidade ao alcance daqueles que querem seguir caminhando. ​ A causa avança, ela não deve estagnar.

Além de tudo o que já defendemos coloco também como importância o respeito ao consumidor, o direito a informação. Por ausência de legitimidade ou mesmo de posição, conheço estabelecimentos veganos que fazem produtos com uma listagem de ingredientes 100% vegan mas que podem conter traços de leite, ovos e afins. E aí? Eu boicoto os traços em minha filosofia mas e o vegano que entende que está tudo bem em usar um chocolate que pode conter leite? Isso fere a minha posição, por isso luto pelo direito de ser honestamente informado. Cada um de nós pode escolher e os fatos dão devem ficar ocultos.

Não posso me dar por satisfeito, meu ativismo não acaba aqui. Como diria um debatedor nesses fóruns: somos humanos com traços de especismo por esse motivo aceitamos os traços. Ao meu ver quando consumimos um produto (e eu não estou dizendo uma marca, não estou nessa amplitude de questão) apenas me refiro a uma unidade produzida que contenha traços de origem animal, noto que no mínimo há traços de exploração ali e se eu posso evitar me alimentar desse contingente, eu continuarei evitando e sobretudo defendendo o direito de ser informado da possibilidade de incorrer nesse consumo aceito como vegano aos olhos de muitos mas percebido como não vegano por outros.

Aos extremistas, digo: erra aquele que acha que porque não pode fazer tudo não deve fazer nada ou um pouco mais. Se eu posso boicotar os traços, vou boicotar. Se eu não posso evitar comprar de uma multinacional que explora animais, eu vou optar por comprar ou usar o seu produto vegano desde que não contenha traços de origem animal, os traços configuram a contaminação de princípios. Embora nesse cenário eu ainda não possa deixar de comprar de determinada empresa posso escolher um produto livre de crueldade. É simples, é uma decisão, ninguém vai morrer porque deixou de comer determinados chocolates, snacks e afins; onde há mercado tem sacolão.

Veja, eu também sou um pobre mortal que tem uma rotina, que vive em um centro urbano e que está sob as mesmas condições da maioria, vem a calhar um provérbio bem conhecido: quem quer encontra um meio, quem não quer arranja uma desculpa.

Me esforço para controlar as palavras tentando ser amável para não ofender o direito de ninguém, mas também não quero que ofendam meu direito, afinal somos livres para pensar, eu as vezes penso que a consciência precisa de um choque, é sabido que uns vão pelo amor outros pela dor. Tento aprender com o espiritismo que não impõe nada e educa pela fraternidade, mas outras vezes meus impulsos tomam a energia daqueles a quem vão chamar de radical, e quer saber: que seja enquanto ainda me lapido para compreender as opiniões diversas ao ponto em que algo me parece claro. Eu sei que preciso aprender com a humildade daqueles que nada cobram, mas sou um sujeito comum, um yin-yang, espírita mas também vegano e sabe o que é mais legal nesses inter-meios: uma verdade nunca se sobrepõe a outra, isso é maravilhoso!

Por fim, sei que divaguei entre o concreto e o abstrato, assim é a minha literatura: livre, sem a pretensão de provar A ou B, apenas com a intenção de provocar a reflexão e não de definir o outro, como alguns se assustam e logo atacam para defender. É preciso lembrar que estamos discutindo ideias e não a particularidade das pessoas.

Ao ponto central que eu queria tratar, concluo a reivindicação de que o mínimo que os veganos merecem, é o direito de serem informados mesmo em um produto “vegan” se há ou não traços de algum ingrediente animal, afinal de contas para muitos de nós: se contém traços não é vegano.

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