Ainda sem título

Meus ouvidos foram deixando a música romântica de fundo, à medida que quase ia desaparecendo. Era um senhor quem cantava MPB enquanto tirava o lixo da calçada. Dei um sorriso gratuito e segui meu percurso.
Como se não bastasse, um vapor de cigarro acompanhava o vento, fazendo irritar o nariz.
O dia de hoje não foi fácil, assim como todo início de semana. Um mix de vontades e oportunidades para finalmente colocar as coisas no lugar.
Mas pouco importa. Preciso apressar o passo, encontrar o bilhete do metrô na mochila e evitar filas. Mesmo assim, caminho como quem mora na próxima quadra. Sempre foi difícil essa ideia de ficar ofegante para mim.
Amanhã é terça feira mais uma vez. E eu estou perseguindo a ideia de que as coisas estão para melhorar. No fim das contas (e do dia) tem coisas que não dependem tanto assim, da gente. Assim como a música que fica de fundo. Acho que para isso que se fazem tantos fones de ouvido. Pra que cada qual viva seu mundo.
Que som tem o meu mundo agora?
Não sei.
Talvez seja o choro da criança há uns 3 metros de distância, ou a fofoca das duas moças que cá estão na minha frente. Ou, quem sabe, o mascar de chiclete do rapaz ao lado. A voz irritante da menina com aparelho nos dentes. O bocejar de alguém cansado se espreguiçando. Pode ser o bip do smartphone, a gargalhada das crianças, ou o barulhinho das pastilhas na bolsa da mulher.
O meu som é coletivo.
O meu tom é o timbre de todos.
Das histórias que por ali acontecem, das palavras que são de todo mundo.
Das histórias que constituem esse mundo.
Meus ouvidos são instrumento itinerante e meus olhos como um passageiro sagaz, que sempre segue enxergando motivo em tudo. Acrescentando tanta coisa em nada.
Mas, como estava falando, deixei a música romântica lá no fundo, e segui meu caminho cá para frente.
Continuo deixando ver e sentir as coisas do mundo, disfarçando o que meu coração sente.

Foto: Valéria Rezende (maio/2015)
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