Foto de 5 de julho, após a primeira órbita da sonda ter sucesso. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC

A câmera que mostrou o que Galileu viu

Sonda da Nasa que hoje orbita Júpiter enviou imagens históricas das luas que convenceram o astrônomo a lutar para ‘tirar a Terra do centro do Universo’

Em 7 de janeiro de 1610, São Paulo era apenas uma pequena vila ignorada, prestes a completar 56 anos. A um oceano de distância, em Pádua, na Itália, Galileu Galilei, dez anos mais jovem que a vilinha brasileira, fazia uma observação que mudaria o entendimento da posição da Terra -e da humanidade- no Universo.

Usando um telescópio aprimorado por ele próprio, Galileu conseguiu perceber que Júpiter era orbitado por quatro satélites semelhantes à nossa Lua -hoje sabe-se que o planeta tem pelo menos 67 luas. A conclusão era inevitável: se Júpiter tinha corpos que giravam em torno de si, a Terra não poderia mais ser considerada um ponto geográfico especial no Cosmos e precisava perder o título de “centro do Universo”.

Vale dizer que isso não era uma ideia original do italiano -o polonês Nicolau Copérnico é considerado o pai heliocentrismo-, mas as observações de Galileu foram essenciais para o fortalecimento da ainda impopular teoria.

À época, o modelo mais aceito era o geocentrismo, segundo o qual a Terra estaria em um ponto fixo no centro do Universo, com todos os outros corpos celestes girando ao seu redor. Pensadores como Aristóteles e Ptolomeu foram os principais entusiastas desta ideia, que vigorava há mais de mil anos quando Galileu viu o que a Nasa hoje nos mostra em detalhes.

Concepção artística da Juno orbitando Júpiter. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC

Nesta segunda (4), a sonda Juno -lançada pela Agência Espacial Americana em 2011 a um custo de US$ 1,1 bilhão- chegou a seu destino após viajar 716 milhões de km e passou a orbitar Júpiter. Hoje a sonda dá uma volta no gigante gasoso a cada 53 dias, mas, após ajustes, cada órbita deverá levar 14 dias. A missão prevê 37 ciclos e deve terminar em fevereiro de 2018, com um mergulho da sonda na superfície joviana.

Antes mesmo de entrar na órbita de Júpiter, um dos equipamentos da sonda, a JunoCam, produziu algo inédito: nada menos que um vídeo em time-lapse que mostra o que Galileu sacou quando olhou ao maior planeta do sistema solar através de seu rudimentar telescópio.

Simulação da aproximação a Júpiter e time-lapse dos quatro satélites galileanos. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC
“O que você está vendo na verdade, é a primeira vez que os humanos -em toda a história- podem ver o movimento desses corpos celestes. É assim que a natureza funciona. Foi isso que Galileu entendeu…”, disse o físico Scott Bolton, cientista chefe da missão Juno.

Bolton falou sobre Galileu e o vídeo momentos após receber a confirmação de que a sonda tinha atingido uma marca essencial: Juno havia acabado de deixar de orbitar o Sol e passado efetivamente à girar em torno de Júpiter. Empolgado, Bolton explicou o que Galileu viu naquela noite de janeiro:

“Ele [Galileu] apontou o ‘primeiro telescópio’ para o planeta e foi esperto o bastante para perceber que em poucas noites as estrelas próximas a Júpiter mudaram de posição. Ele entendeu: ‘Puta que pariu [tradução bastante livre de ‘oh my gosh’], isso significa que elas [estrelas] estão dando a volta em Júpiter!’. E claro, isto mudou a nossa cultura para sempre porque de repente você percebe que a Terra não era o centro! Alguma outra coisa tem objetos girando ao seu redor!
Esse foi um momento muito profundo para nossa cultura. Isso nos mudou, mudou as nossas perspectivas e como nos encaixamos na natureza. E agora, 400, quase 500 anos depois, nós podemos ver esse movimento. É a primeira vez! Nós não tínhamos sequer um vídeo de qualquer planeta e uma lua juntos.”, conta Bolton.

A fala do cientista -que também trabalhou na equipe da sonda Galileo, que monitorou as luas de Júpiter de 1995 a 2003- ilustra um pouco da dimensão da façanha da Nasa. Antes mesmo de entrar em órbita a Juno já era capaz de arrebatar um físico experiente como Scott Bolton.

Mais impressionante ainda é pensar que a JunoCam sequer é considerada um dos equipamentos científicos da sonda.

Sequência mostra mudanças na Grande Mancha Vermelha. Destaques em vermelho e azul se referem aos comprimentos de onda usados para obter a imagem. Credit: NASA/ESA/Goddard/UCBerkeley/JPL-Caltech/STScI

Os objetivos principais da missão são investigar detalhes da atmosfera -como a Grande Mancha Vermelha- e determinar se núcleo joviano é sólido ou de hidrogênio metálico. Para estas finalidades, uma câmera de luz visível como essa não é essencial.

Os responsáveis pela missão, porém, decidiram incluir o equipamento principalmente para servir como um tipo de chamariz para engajar o público leigo, que não costuma se empolgar com magnetômetros, espectrógrafos ultravioleta ou radiômetros de micro-ondas, também presentes na Juno.

JunoCam instalada na sonda. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC

A JunoCam também vai permitir que astrônomos amadores colaborem com a Nasa. O site da missão tem um espaço para que qualquer pessoa (que tenha o equipamento necessário, claro) faça o upload de imagens de Júpiter feitas a partir da Terra, o que vai ajudar no planejamento das atividades da câmera em órbita.

A ideia é que o público indique e vote nas áreas que julgue mais promissoras para as fotos da JunoCam, que pode parar de funcionar após sete órbitas no planeta. As imagens serão do topo das nuvens do gigante gasoso.

“A JunoCam não tem as responsabilidades científicas dos outros instrumentos da Juno, mas nós encaramos como um desafio construir o melhor instrumento científico que nós pudéssemos. É uma das melhores câmeras que já construímos.”, afirma Michael Ravine, responsável pelo equipamento.
JunoCam e sua caixa operadora. A câmera deverá ser avariada pelas partículas altamente energéticas da região de Júpiter. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC

O sensor da JunoCam, feito pela Kodak, tem uma resolução máxima de 3 km/pixel. A Nasa afirma, porém, que deve fazer imagens de 25 km por pixel, que serão integralmente disponibilizadas ao público em seus arquivos brutos. A maioria das fotos serão feitas quando a sonda estiver em seu momento mais próximo da superfície, a cerca de 5.000 km de distância.

Imagens feitas pela JunoCam em 9 de outubro de 2013, quando a sonda ainda estava próxima à Terra. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC

O hardware da câmera foi baseado no chamado MARDI, usado no jipinho Curiosity, em Marte desde 2012. Já o software foi desenvolvido para as sondas Mars Odissey, que orbita o planeta vermelho desde 2011, e Mars Reconnaissance Orbiter, desde 2005 ao redor de Marte.

Legos de Galileu, Juno e Júpiter embarcados na sonda. Credit: NASA/JPL-Caltech/LEGO

Mas Galileu não foi esquecido pela equipe do JPL (Jet Propulsion Laboratory), órgão da Nasa responsável pelo projeto. O astrônomo será homenageado com uma miniatura Lego de 4 cm, na qual carrega uma luneta e uma reprodução do planeta. Galileu viaja acompanhado dos deuses mitológicos Juno e Júpiter.

A maior homenagem ao filósofo italiano, porém, é uma placa de alumínio com seu auto-retrato, sua assinatura e um texto -em sua própria caligrafia- sobre as suas primeiras observações das luas jovianas. A passagem, de 1610, estava arquivada na Biblioteca Nacional Central de Florença.

“No 11˚ elas estavam nessa formação -e a estrela mais próxima de Júpiter tinha metade do tamanho da outra e estava muito próxima da outra. Assim, durante as noites anteriores, todas as três estrelas observadas pareciam ter o mesmo tamanho e a mesma distância entre elas; fica então evidente que ao redor de Júpiter existem três estrelas se movendo invisíveis até agora para qualquer um de nós”. A placa foi doada pela Agência Espacial Italiana. Credit: NASA/JPL-Caltech/KSC

Novas imagens devem aparecer no fim de agosto. Dados dos diversos equipamentos da sonda já estão pingando nas centrais da Nasa. Não há como prever qual poderá ser o saldo dessa ambiciosa missão, mas o fato é que ele já é positivo. Como disse Bolton:

“Nasa did it again! We are in orbit! We conquered Jupiter!”
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