Sobre a tolerância e o respeito

Sempre que leio textos sobre tolerância, como acabei de fazer com um do Flávio Gikovate no Facebook, parece-me que sempre fica faltando deixar claro o que é exatamente tolerância e o que é respeito. Algumas vezes toleramos e respeitamos, muitas vezes respeitamos sem tolerar, muitas vezes toleramos sem respeitar e outras vezes não toleramos e nem respeitamos. Prega-se muito sobre ser tolerante, porque a intolerância é um mal a ser combatido com todas as forças. Não é bem assim, não dá para tudo tolerar. E se você diz “mas, peraí, ser tolerante não é ser idiota!”, já fica muito claro que, se você não tolera uma condição ou pessoa que te põe em uma situação ruim, você não é de todo tolerante. E nem deve ser.

Há uma linha tênue que separa a tolerância do respeito, você tolera aquele seu chefe que te humilha, porque você não pode perder o emprego; apenas teme a demissão, mas não tem o mínimo respeito por ele quando o xinga pelas costas. Se isso está moralmente correto ou não, entra aí a questão cristã da prática contínua do perdão, mas isso entra em outra discussão. Da mesma forma, podemos não tolerar as atitudes de uma pessoa e decidir nos afastar dela para não entrar em atrito e, dessa forma, não perder o respeito, tanto à pessoa quando a si mesmo.

Podemos não tolerar muitas coisas. O criminoso, por exemplo. Suas atitudes devem ser repreendidas, respondidas e pagas perante a justiça, mas sem nunca deixar de respeitar sua condição de ser humano, ainda que ele não tenha tido qualquer tipo de respeito pelas suas vítimas. Do contrário, seria apenas vingança por vingança sem visar qualquer melhoria, seja para o indivíduo, seja para a sociedade, afinal, não queremos de volta para a sociedade um indivíduo ainda pior. Nesse caso, há (ou deveria haver) o respeito, mas não a tolerância. Respeito não talvez à sua pessoa, mas às leis e à condição de ser humano em que todos nós estamos, sem que seja tolerada qualquer ação criminosa.

E existem muitas coisas e atitudes que não devem ser toleradas e tampouco respeitadas: o racismo, a homofobia, o machismo, a discriminação de qualquer espécie, o ódio deliberado, a exclusão e a marginalização social. Sem sombra de dúvidas, a opção sexual (que compete única e exclusivamente a cada indivíduo), as diferenças sociais, raciais e de crenças merecem e devem sempre ser respeitadas, e não apenas toleradas na sociedade.

Entre o respeito e a tolerância está o bom senso, e este, acima desses dois, parece que é o que mais falta entre nós.


Originally published at unserewelten.blogspot.com on March 3, 2016.

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