Batatas

Às vezes acho chato ter que explicar nome e sobrenome: sim é inglês, não, eu não sei falar inglês, mas o nome é de uma deusa, grega, sim, é mais comum em língua inglesa, não, não precisa pronunciar como em inglês... Não sei se por resistência ou por causa de algum tipo de bloqueio, quando meus avós falavam em inglês eu me desligava deles e divagava analisando suas roupas e gestos, gostava de me imaginar num filme, aquela casa era um belo cenário e minha avó era uma personagem interessante para uma garota de nove anos. Ela nunca saía de casa sem luvas e chapéu, o chapéu era preso por um alfinete e ela fazia os seus próprios vestidos com base nuns moldes europeus dos anos 1950, até hoje guardo alguns... Mas nada superava o sotaque, minha avó viveu 50 anos no Brasil e nunca conjugou um verbo em português, pensando bem, talvez eu simplesmente tenha a mesma dificuldade que ela para aprender idiomas.
Mas as batatas… Ah, as batatas sim me fazem lembrar da casa onde cresci e na qual fui criada à base de açúcar e batatas. Batatas fritas, batatas cozidas, purê de batatas, batatas gratinadas, sopa de batatas, batatas assadas — as minhas favoritas — , e mais uma infinidade de variações menos corriqueiras em casa. Às vezes tento explicar que batatas para mim são como arroz e feijão para a maior parte das pessoas, que basta ter batatas, ervilhas e um pedaço de carne no prato e que para momentos de tristeza não há nada como batatas e ovos cozidos, com a gema ainda um pouco mole, temperados apenas com sal e um fio de azeite. Resisti à língua, mas não às batatas, aos chás, ao ovo quente pela manhã e aos bolos de especiarias…
