Perdas

A vida é um sopro, diziam os antigos. A respiração se torna cada vez mais pesada e a vida mais lenta. As palavras começam a ganhar novos sentidos e a tomar novas formas à medida que envelheço, me sinto enlutada mesmo sem que ninguém tenha morrido recentemente. As mortes se acumulam, assim como a certeza de que tenho mais passado que futuro. Penso na Elizabeth Bishop, eu só aprendi a perder... Lembro do dia que minha mãe foi para o hospício, da tentativa de suicídio e de ir morar na casa da minha avó, quase desconhecida, que não falava a mesma língua que eu. Ela estrangeira em meu país, eu estrangeira em sua casa. Eu “não tinha modos”, comia com as mãos, não sabia ler nem contar. Era selvagem e deveria ser apartada da mesa de jantar, da louça de porcelana e dos talheres de prata. Aprendi a praticar o silêncio, com medo da escovinha de metal com que escovavam os cachorros e corrigiam as crianças. Aprendi a ler como quem se agarra a uma boia de salvação.

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