Sábado
Gosto da madrugada, não da noite. Gosto de acordar depois que todos dormiram e enquanto São Paulo ainda está silenciosa. As luzes lá fora estão todas apagadas e consigo até esquecer as dezenas de prédios que normalmente vejo da minha janela. A sala vazia, os sapatos fora do lugar, os vestígios do dia anterior ainda presentes no dia que ainda não amanheceu, neste tempo suspenso entre o ontem e o amanhã que ainda é só promessa.
Meu silêncio é interrompido por freadas de ônibus nos viadutos que cercam o prédio, o bebê da vizinha chora. Quatro e vinte, os primeiros ônibus, aqueles que buscam os outros motoristas que levarão os operários e trabalhadores aos seus empregos, já começam a circular. São Paulo não para, diziam as reportagens sobre a cidade, o que me fazia pensar numa cidade agitadíssima, mas a verdade é que só quem não para são os trabalhadores invisíveis e as mães das crianças pequenas.
