Visita
Minha mãe encomendava cigarros, muito mais cigarros do que ela fumava. Como na prisão, os cigarros eram moeda de troca… Roupas, pente, xampu e creme rinse. Se sobrasse dinheiro eu levava um doce daqueles bem baratos em forma de coração. Às sextas-feiras eu pegava um volume de O tempo e o vento na biblioteca da escola para ler no ônibus intermunicipal, que cheirava a detergente de maçã. O lugar era distante para evitar a fuga dos pacientes, ou para que fosse mais fácil para as famílias esconderem os esquizofrênicos, loucos, viciados e outros pacientes psiquiátricos. Eu gostava daquele lugar. Provavelmente gostava mesmo era de ir visitar a minha mãe e de preencher os vazios que a falta dela deixavam. E ela me apresentava a todo mundo: as duas velhinhas que passaram a vida internadas sem que ninguém nem lembrasse os motivos, a menina que tinha ido para a Alemanha e tomado drogas até pirar, o argentino que dizia que era ex-presidente do seu país e que havia sofrido um golpe… Até hoje desconfio que isso possa ser verdade e que algum dia vou ler nos jornais que um ex-presidente argentino passou anos num hospital psiquiátrico do interior de São Paulo. Eu tinha quinze anos e ficava feliz de passar as tardes de sábado num hospício.
