Revelação

Levantei para tomar meu café, do meu apartamento escutava buzinas na rua, mais um dia de caos, algum time ganhou algum campeonato local, não sei, nunca fui muito fã de esportes. Esperava a cafeteira esquentar, aquele barulho inconfundível da máquina borbulhando a água e os pombos na janela do meu apartamento, tinha que lembrar de espantá-los, mas a preguiça sempre foi maior e eles permaneciam naquele lugar.

Dia vinte e dois de junho, quarta-feira, um dia comum, sem feriados próximos, mais um dia em que o trabalho será entediante e pesado. Ligo a televisão, deixo no canal que estava no momento em que cochilei no sofá na noite anterior, está passando o jornal da manhã, algo sobre o oriente médio, provavelmente mais algum atentado a bomba por causa de um conflito religioso ou territorial. Desligo o noticiário a tempo de perceber que estou atrasado para o trabalho, saio as pressas de casa com o pão em minha boca e pegando meu casaco. Chego no estacionamento e lembro das chaves, sempre esqueço onde estão as malditas chaves do carro, subo correndo e as pego na calça que deixei no chão do quarto.

Quando saio é aquela mesma rotina, trânsito cheio, pessoas estressadas tentando chegar aos seus destinos para uma jornada de oito horas de trabalho e então retornar aos seus lares para sua vidinha medíocre, não que a minha seja diferente, mas pelo menos reconheço isso. Ótimo, um acidente a frente, o cara de trás bateu no da frente no sinaleiro, provavelmente estava falando no celular e não viu quando o sinal fechou. Mais estresse para a cidade, mais uma pessoa que provavelmente não vai dormir pensando na conta do estrago que terá que arcar. A polícia no local já está fazendo suas perguntas habituais, teste do bafômetro, fichando os dois motoristas, para isso eles são mais ágeis que um foguete, porém quando é uma chamada de assalto, roubo ou assassinato demoram meio século. Ligo o rádio do carro e novamente notícias sobre o Oriente Médio, creio que o tal do atentado gerou mais repercussão do que eu imaginava, desligo o rádio, não quero saber de tragédias, de tragédia já basta a minha vida.

Quando chego ao trabalho, o mesmo de sempre. Pessoas correndo de um lado para o outro, querendo resultados, sempre resultados. Sento em minha mesa e começo a ligar para meus clientes, por incrível que pareça hoje estão mais receptíveis à minha abordagem, bom se todo dia fosse assim, conseguiria atingir minha meta mensal em uma semana. Na hora do almoço vou ao fast-food mais próximo, além de ter pouco tempo para lanchar, estou empolgado com o trabalho, fato raro. No almoço ouço várias pessoas comentando sobre o ocorrido naquelas regiões árabes, esse povo não tem mesmo o que fazer, ficar discutindo fatos que não influenciam suas vidas de forma alguma, pelo simples prazer de ter algum desastre para comentar. De lamentar sobre a vida alheia, culpar alguém e se sentir confortável com a sua segurança.

Volto ao trabalho e meu chefe vem a minha mesa, que é a mais próxima do escritório dele, ele nunca sai da sala dele a não ser para dar bronca em alguém, já repasso em minha mente as dezenas de contratos que fechei nessa semana tentando lembrar se fiz alguma coisa de errado. Quando ele vem falar comigo é para me dizer para ir para a casa, todos estão dispensados, ninguém mais precisa vir trabalhar até a semana que vem. Ele vai de mesa em mesa falando com os funcionários do nosso setor, o motivo que nos dá é que está acontecendo algo grande no mundo e que todos devem estar com suas famílias, claramente ele está abalado, mas com uma expressão feliz em seu rosto, sei que ele é um religioso fervoroso e algo que a igreja disse deve ter deixado ele assim, eu rio por dentro lembrando do fim do mundo que passou a alguns anos atrás, onde o calendário maia acabava em um dia e o tal dia passou sem mais eventos, ainda tem babacas que colocam nas redes sociais que sobreviveram ao tal dia. Que eu saiba não tem nenhum fim do mundo no dia de hoje, as pessoas se levantam e vão embora. Eu que não vou ficar por aqui se eu estou recebendo para ficar em casa.

No caminho para o meu carro, que fica em um estacionamento pago, vejo muitas pessoas nas ruas cantando, gritando aleluia, muitas chorando de emoção, eu me pergunto que diabos está acontecendo. Nas rádios apenas música, pelo menos nesse horário o trânsito é mais tranqüilo, chego em casa em vinte minutos. Subo e ligo a televisão para tentar saber o que está acontecendo. O espanto me assombra quando vejo todas falando do mesmo assunto, ao ligar o computador confirmo que todos os portais de notícias também estão com a mesma notícia de capa. Jesus Cristo, Maomé e Buda conversando com o povo em praça pública.

A primeira coisa que me vem a cabeça é o ceticismo, como assim, como podem acreditar nisso? Lendo mais acesso vídeos onde eles mostram ser eles mesmos, realizando milagres e feitos sobrenaturais. Quer dizer que meu chefe mandou a gente para casa por causa desses boatos, desse tipo de charlatanismo? A indignação toma conta de mim por um tempo, até surgirem mais notícias, na Polônia em meio a uma feira local surgiram Thor, Hércules e Osíris.

Agora é que virou bagunça, fico sabendo que na praça principal de nossa cidade estão montando um telão para passar essas notícias e para o povo acompanhar de perto os acontecidos. Eu ainda estou confuso, sempre fui cético, dizem que a palavra é “agnóstico” para o que eu sou, era, não sei mais em que acreditar. Vou a pé para a praça, não estou com vontade de acompanhar tudo de dentro de casa, se tantas pessoas estão se mobilizando não parece ser banal. Chego na praça e várias pessoas estão conversando, chorando, dando graças, porém muitas estão ferozes, praguejando, dizendo que é o fim do mundo, essas mais exaltadas a polícia faz questão de manter fora do cercado de segurança onde ficamos para assistir os eventos no telão.

Quem sabe pode ser o fim do mundo, um dia tão normal, em que ninguém esperava que nada fosse acontecer, assim simples, rápido, de forma inesperada, sempre achei que fosse assim que acabaria o mundo e não com todos aguardando ansiosamente o dia. Quando as transmissões voltam a notícia é de que muitos outros messias e divindades de outras religiões surgem em vários cantos do mundo, que eventos sobrenaturais estão ocorrendo a nossa visão em todos os templos religiosos, o espírito santo pode ser visto nas igrejas católicas, espíritos materializados em casas espíritas, demônios sendo banidos de corpos em igrejas evangélicas.

Assim, tudo está aparecendo para nós sem sutileza alguma, quando deixo meu lado cético de lado vou para a igreja mais próxima e confirmo com meus próprios olhos a experiência. Uma aura branca em toda a área interna e a mesma energia circundando as pessoas que estão ajoelhadas nos bancos. Não posso parar por aqui, porém já está tarde e devo ir para casa, por mais que a vontade seja de ir a todos os locais, as ruas estão um caos total. Temo que algo dê errado, algum extremista radical cometa alguma atrocidade mesmo em nossa cidade. Chego em casa e as notícias ainda estão passando sobre o mesmo assunto, deito em minha cama cedo, algo que não costumo fazer, ouvindo os gritos de alegria e festas pela cidade, será que tudo isso é um sonho ou um pesadelo?

Acordo e sei que não foi sonho algum, está tudo da mesma forma, noticiários, pessoas nas ruas, cartazes de fim do mundo, outros com os dizeres que a vida faz sentido, outros de que o juízo final chegou e os mais otimistas dizendo que finalmente fomos escolhidos. Acordei no susto achando que tinha que ir trabalhar e lembro que fui dispensado, fizeram bem, pois acho que muitas pessoas não iriam ter cabeça para ir trabalhar depois disso. Tomo meu café com as notícias de que todas essas entidades, deuses e messias estão se dirigindo ao litoral do oceano atlântico. Eles não dizem nada a imprensa, apenas que devem saber esperar, pois tudo será revelado no momento oportuno. É claro que a imprensa de certos países foca as suas notícias acompanhando os deuses e messias que são a base de suas religiões, tendenciosos ao extremo mesmo em um momento desses.

Vou almoçar em um restaurante perto de meu apartamento, puxo papo com uma família que está em uma mesa próxima a minha e logo eles me convidam para comer junto com eles, descubro que são espíritas e que este momento está sendo de realização para todos, jamais vi expressões e atitudes de simpatia e bondade em toda a minha vida, chegam mesmo a me contagiar até certo ponto. Não demora muito para eles me convidarem para ir ao centro espírita que eles freqüentam. Lá eu vejo para meu assombro que os espíritos estão materializados por todos os lados, mesmo pessoas que dizem incorporarem espíritos tomam os adornos e características físicas que os espíritos tinham em vida. Despeço-me deles com a certeza de que a ida valeu a pena. Me espanta que todos os templos religiosos agora estão abertos praticamente o dia inteiro, aguardando a chegada de fiéis para esclarecimentos sobre o que está acontecendo.

Volto a praça principal quando estão transmitindo outra notícia, de que todos os Líderes, o termo que passaram a utilizar para o grupo de entidades, apenas estão esperando a chegada de todos ao litoral do atlântico para que continuem a sua jornada. Várias pessoas conjecturam sobre o que possa acontecer, frotas navais foram retiradas do oceano inteiro para segurança. Foram duas horas que esperamos na praça, conversando e tentando decifrar o porquê de tudo isso estar acontecendo.

Neste momento sentimos o chão tremer sob os nossos pés, um tremor incomum, algo tão forte que parecia que o mundo estava se pronunciando, querendo nos dizer algo, depois soube que o tremor foi sentido em todo o planeta. Silêncio absoluto, tenho certeza que passou pela cabeça de todos ali que o mundo acabaria naquele momento, temor era o que podia ser observado em todos os olhares, o que quebrou nossas expressões de medo foi a jornalista que apareceu em nosso telão mostrando imagens de uma ilha enorme surgindo em meio ao oceano atlântico, uma ilha com proporções incríveis, alguns diziam que era do tamanho da Austrália. E logo a identificaram como sendo Atlântida, aquela famosa ilha, que diziam ter afundado, ressurge diante da humanidade como se ela sempre estivesse ali. Embarcações surgem para levarem os líderes para lá, pois era lá que tudo será revelado, o mais espantoso é observar que muitos deles podem desafiar as leis da gravidade e ir voando, muitas piadas se fizeram nesse momento perguntando se um deles iria andando sobre a água, mas ele foi humilde o suficiente para ir em uma das embarcações, iria mais rápido. Assim fora anunciado que dentro de dois dias eles fariam os anúncios, quem quisesse ir para a ilha estava convidado para testemunhar os fatos.

Logo começaram a organizar caravanas, milhões de pessoas se organizando para levar a todos para aquele local, o mais incrível foi que ninguém foi privado ou barrado para ir, não haveriam custos, foi informado que haveria alojamento e mantimento para todos que fossem, mesmo o transporte não seria cobrado em nenhum local do mundo. Não pensei duas vezes, se todas as pessoas do mundo podem testemunhar o que estava para acontecer, eu não deixaria essa oportunidade passar. Peguei meu carro e fui abastecer para poder ir para o litoral, mesmo os postos de combustível não tinham frentistas, cada um abastecia o necessário para sua viagem, uma utopia estava se instalando na sociedade, honestidade extrema, me perguntei até quando isso duraria. Então comecei a viagem, tenho certeza que os líderes aprontaram alguma coisa com o tempo, com a passagem do tempo, pois eram muitas pessoas indo para os mesmos lugares, congestionamento muito grande e era como se ninguém se incomodasse com isso, pessoas saíam de seus carros quando o trânsito não andava e conversavam umas com as outras, o sol não saía de sua posição no céu ou estava se movendo muito devagar, sei que parecia que por um lado a viagem durou uma semana, por outro e pelo que todos nós percebemos ela não durou mais que uma hora. Muitos carros ficaram nas estradas mesmo, pois as cidades litorâneas não tinham capacidade para abrigar tantos veículos.

Quando embarquei e o navio começou a se movimentar olhei para os lados e vi as dezenas de outros navios se dirigindo para o mesmo lugar, o que está acontecendo não é algo simples, quantas pessoas foram mobilizadas para possibilitar isso. Conheci diversas pessoas durante a viagem, várias religiões, culturas, muitas das quais eu nunca tinha escutado falar e pelo que diziam todas estariam representadas nesse evento, nessa conferência. Mesmo durante a viagem muitos não hesitavam em praticar seus rituais religiosos, Para muitos parecia um cruzeiro turístico a felicidade e serenidade nos rostos de todos era contagiante. Chegando a Atlântida fomos recepcionados e destinados cada qual a seus alojamentos, quando entrei em meu cômodo vi que era igual a meu apartamento, fora tudo personalizado individualmente para que todos se sentissem em suas casas. Levou mais algum tempo para que todos chegassem e, como antes, não pareceu que esse intervalo foi longo, resolvi dormir para tentar dar uma relaxada na minha mente, era muita informação ao mesmo tempo para ser assimilada.

No outro dia foi uma comoção intensa, os líderes estavam prontos para anunciar o que quer que eles tinham preparado para nos revelar. Fomos todos a um templo no meio da ilha, eu imaginava o que eles iriam nos dizer, se era um novo passo na evolução humana, se todos nós fomos privilegiados com a graça divina, se não precisaríamos mais nos preocupar com os problemas banais do cotidiano já que eles vieram para nos salvar, nos orientar para um novo caminho, com certeza esse dia ficará marcado para sempre na história da humanidade.

O templo era enorme, colossal, a estimativa é de que mais de três bilhões de pessoas se encontravam ali naquele momento, e por mais que eu estivesse distante do centro era como se pudesse enxergar os líderes a cinco metros na minha frente, eram muitos deles sentados em círculo, sem ninguém no centro, ninguém se sobressaindo mais que os outros, uma imagem de igualdade entre todos, claramente não havia um líder entre os líderes, todos eram equivalentes, sem diferenças quanto a credo ou raça. Finalmente chegou o momento, a hora que todos estavam esperando, cada líder falava ao mesmo tempo que os outros e destinando seu discurso a seus seguidores, quem mais me chamava a atenção era um homem comum que eu nunca tinha visto antes, vestia roupas comuns como as minhas, se eu não estivesse tão embasbacado com o momento poderia dizer que ele era eu mesmo.

Quando eles tinham terminado o discurso inicial de boas vindas aconteceu algo que ficaria marcado para todo o sempre. De algum lugar e de todos os lugares surgiram pessoas armadas e começaram a atacar os líderes, nenhum deles foi poupado, os projéteis passavam muito próximos de nós, mas os únicos que eram atingidos eram os líderes, toda a população ficou em silêncio após a saraivada de balas. Um silêncio profano, fúnebre tomou conta do templo. Imagino o que se passava na mente de todos naquele momento, mas logo senti as lágrimas correndo pelo meu rosto. Uma tristeza que nunca senti igual se apossou de mim e chorei por dentro. Vi um dos atiradores e ele também estava chorando, me pergunto até hoje o que se passava na sua cabeça após ter feito aquilo.

Quando voltamos nossas atenções para os líderes vimos que eles estavam de pé, intactos. Uma luz começou a emanar de todos eles, uma luz branca, intensa que bloqueou minha visão naquele momento e senti meu corpo ficando leve, e a única coisa que consegui ouvir naquele momento foi uma voz, forte, retumbante que pareceu vibrar meu corpo por dentro, dizendo: “Vocês não estão prontos.”.

Apareci em meu apartamento, com a mesma tristeza inundando meu corpo, sentei em minha cama e comecei a me perguntar o que tinha acontecido, liguei a televisão e apenas notícias comuns passando, na internet a mesma coisa, foi como se nada daquilo tivesse acontecido, mas eu tinha certeza de que foi real. Passei o dia isolado em casa, me negando a acreditar de que tudo fora uma ilusão.

No outro dia fui trabalhar, o trajeto caótico como sempre, mas sempre que olhava para as outras pessoas sentia que o olhar delas escondia algo. Quando cheguei ao meu trabalho, tive certeza, todos estavam lá, todos tinham vivido o que eu vivi, porém ninguém se atreve a comentar o que aconteceu, todos carregamos o fardo da culpa, todos sentimos o mesmo pesar, aquilo foi real para o mundo todo e sabemos que ainda não estamos preparados. Queremos apagar esse episódio de nossas mentes e seguir com nossas vidas medíocres, sem propósito algum, pois a chance que nos foi dada desperdiçamos, pelo quê? Pelo medo? Pelo egoísmo? Pela falta de auto-conhecimento? Até hoje não sei. Meu chefe sai da sala dele e vem em minha direção. Um dos meus contratos não foi aprovado.