Liana voltou à Maceió. Após doze ou oito fatias de pizza eu adormeci tranquila na cama ouvindo os grunhidos dos zumbis, os tiros e a sua voz resmungando enquanto jogava Resident Evil, no mesmo quarto, como há dois anos. Nada é como há dois anos, mas ainda é. Tenho a impressão que a frase que mais falei naquela semana foi “lembra daquela vez que…”. As piadas são as mesmas. Eu ainda entro no apartamento sem tocar a campainha, abro a geladeira, brinco com os cachorros.

Matheus, cadê Liana?
Foi no supermercado com a tia
Não acredito, ela marcou comigo. Tá assistindo o quê?
Um anime aí…
Seu otaku pervertido. Vai mais pra lá pra eu deitar, sobre o que é?

Liana voltou pra São Paulo e eu já estou morrendo de saudade. Há um tempo, participei de um amigo secreto que não deu certo, de um grupo de facebook que não deu certo também. Nunca recebi meu presente, mas enviei dois livros de poesia e uma carta pra o outro lado do mundo, pra uma pessoa que eu não fazia ideia de quem era. De repente ganhei um amigo de presente. Lucas voltou pra Recife, aqui do lado, e combinamos mil vezes falhas a minha visita.

Vai pro Festival de Inverno em Garanhuns?
Vou, tu vai?

Após três horas de viagem cantávamos ou tentávamos cantar Academia da Berlinda, eu, ele e Manuela, sua namorada, que conheci lá e já queria abraçar como se fosse uma amiga de tempos. Voltei pra Maceió e já estou morrendo de saudade de Garanhuns. As vezes essa paz, tão espontânea, me invade e eu nem percebo. É quando vejo Ivan e os meninos juntos, falando o monte de besteira de sempre. Quando saio com amigos que não se falavam há anos e estão todos bem agora. Quando consigo abraçar alguém que eu já tinha desistido de encontrar naquele dia ou até quando recebo um inbox de “boa noite” com emoji coração. Tem ciclos que se fecham e a gente nem vê. Daí parece que o sol, a lua e as estrelas estão alinhados, em alguma galáxia. Mesmo com meu quarto revirado de roupas, papéis e livros. Minha vida profissional com nenhuma perspectiva. Meu sono desregulado. Minha paranoia com meu peso. Meus dias perdidos na cama, as crises de ansiedade e a vontade de não apostar um puto no futuro.

Rhu, você acha que vai ficar tudo bem um dia, que essa fase vai passar e a gente vai respirar tranquilo lembrando de tudo?

É, as vezes eu acho sim.

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