De onde eu venho as coisas são assim.

Eu sou de São João de Meriti. Onde fica isso?”, me perguntaram inúmeras vezes. “Não sei onde fica, mas imagino que fique bem longe”, disseram outras inúmeras vezes. “Nossa, é ali bem depois de Pavuna, não é?”, fui questionado outras incontáveis vezes. E, vindo do outro lado da cidade, do lado desconhecido, para a capital para estudar e trabalhar foi como atravessar uma ponte imaginária que separa dois cantos distintos. Foi como trocar o lado do disco, ou da fita. É experimentar dos dois lados.

Agora, a gente vive numa divisão política parecida com esse processo de travessia. “Eu odeio essa mulher”, alguns dizem. “Ela é uma incompetente! Fora!”, outros dizem. Enquanto estes assumem o discurso miojo-alike, pronto em três minutos, de “Fora PT” e “Fora Dilma”, outros parem para o outro lado da discussão e ecoam o “não vai ter Golpe!” (que, por sinal, mostra que toda forma de resistência é linda e válida).

Em São João, as coisas nunca foram muito fáceis, pra ninguém. Na verdade, se você não tem um esquema de lavagem de dinheiro ou de milícia, certamente as coisas serão ainda menos fáceis. Na escola que eu estudei, que fica em um bairro-meia-boca chamado Jardim Meriti (o mesmo nome do Colégio), eu era uma das crianças que tinham a opção de comer em casa. E eu era um sortudo. Sim, sortudo. Muitos amiguinhos da escola iam para a escola “só para comer a merenda”, como os tiozões gostam de implicar. Sim. Eles iam para a escola só pra isso. Sabe por quê? Porque eles não tinham o almoço em casa. E muitas vezes nem a janta.

Em São João, as coisas nunca foram muito fáceis, pra ninguém. Na verdade, se você não tem um esquema de lavagem de dinheiro ou de milícia, certamente as coisas serão ainda menos fáceis.

De onde eu venho, os alunos do Colégio não podiam entrar para as aulas se seus uniformes não estivessem impecáveis. Mas de onde eu venho, nem todo mundo tinha dinheiro para um uniforme impecável. Então, muitos dos meus amiguinhos eram obrigados a voltar para casa porque não tinham um tênis todo preto para estudar. Afinal, coitados, eles só podiam comprar um tênis para sair, jogar bola, brincar de queimada, ir para a igreja e eventos sociais e, claro, estudar. Mas estava tudo bem. A mãe de alguns se apertava aqui, dali e conseguiam comprar um tênis para eles conseguirem estudar.

Conforme foi passando o tempo, eu cresci tanto como pessoa, quanto como aluno. Consegui um feito que, do meu ciclo de amizades, só um colega tinha conseguido até então: uma bolsa de estudos, 100%, na maior universidade privada do Rio. Teria sido a sorte sorrindo para mim, se não tivesse sido por um programa de inclusão do Governo Federal. E mesmo não pagando a faculdade, fazer uma graduação ainda assim é uma coisa muito cara. Os livros, as passagens, as cópias, pastas e tudo mais que a gente precisa comprar são gastos enormes para qualquer família da so-so-called classe média. Mas, de novo, a gente aperta aqui, aperta ali, e consegue se virar para fazer as coisas que a gente sonha em fazer.

Quase cinco anos se passaram e cá estou eu, escrevendo esta publicação, no meio de uma grande divisão política, econômica e simbólica. Eu estou descobrindo coisas novas todos os dias. Descobri Niterói dia desses. Vocês sabiam que fica há 40 minutos do centro da cidade? Pois é. Assim como São João de Meriti. Onde também (surpreendam-se) existem shoppings (o maior da Baixada!), compradores e uma classe média com o poder econômico muito maior do que quando eu comecei a estudar.

O Governo é o governo e não pode fazer política para todos, ou ele simplesmente não consegue governar. Os messias, salvadores da Pátria, estão muito ocupados cheirando pó, arquitetando as eleições de 2018, ou fazendo a cabeça dos fiéis para ganhar mais dinheiro. Mas eu, ainda assim, sei que existe um lado certo.

Nessa polarização ideológica e política, é difícil escolher lados. As manchetes (que são como gasolina batizada) sujam e tentam sujar cada vez mais a imagem do Governo para que eles tenham um melhor desenvolvimento econômico. O Governo é o governo e não pode fazer política para todos, ou ele simplesmente não consegue governar. Os messias, salvadores da Pátria, estão muito ocupados cheirando pó ou arquitetando as eleições de 2018. Ou fazendo a cabeça dos fiéis para ganhar mais dinheiro. Mas eu, ainda assim, sei que existe um lado certo. E você só consegue ter certeza disso quando finalmente consegue virar o lado da fita, assoprar a poeira do vinil e conhecer os dois lados da situação. A propósito, São João de Meriti fica na região metropolitana do Rio, na Baixada Fluminense; tem 467.827 moradores, segundo dados do IBGE, e é considerado “o formigueiro das Américas”, devido ao grande número populacional em relação ao pequeno espaço territorial, de apenas 34,83 km.

Ah, e os íntimos podem ficar à vontade para chamar, carinhosamente, de Sanja.

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