Dever cívico

Na tarde de hoje, reservei alguns minutos para uma leitura que no final se revelou extremamente satisfatória. No texto Os salvadores da pátria do amigo Renato Thibes, econtrei uma opinião bem próxima à minha, o que me levou a redigir esse texto. Já adianto à você que fazem uns bons anos que não escrevo nada de cunho político, afinal, tudo sempre acaba como um belo textão de facebook perdido em um emaranhado de compartilhamentos.

Domingo, a minha grande escolha foi ficar em casa recuperando o meu sono que tenho tratado tão mal. Isso mesmo. Enquanto milhares (ou milhões, insira seu contador preferido aqui) iam às ruas fazer história, eu emitia belos sons nasais que alguns pobres homens nomeiam rudemente ronco. Tal grandioso ato de traição não passou incólume. Antes mesmo de tirar as ramelas do olho, fui questionado sobre a minha falta de interesse em cumprir meu dever cívico. Repliquei insolentemente com “não muda nada” e não fiquei para ver o resultado.

Obviamente que resumir uma posição política (vulgo isentão, segundo alguns tantos outros) à “não muda nada” foi bem leviano (alô senador da farinha) de minha parte e só uma forma de poder descansar sem ser incomodado. O fato é que mais leviano que isso é achar que bater panela de vez em quando ou lotar, impressionantemente, as ruas, seria a solução para todos os nossos problemas.


Transferência de responsabilidades

Desde o momento que o ser humano entendeu que precisava ser liderado, transferimos nossas responsabilidades para que alguém cumpra de fato aquilo que devíamos estar a realizar todos os dias. A democracia é simples e “funciona” por essa facilidade com que permite que nós meros mortais possamos transferir nossa responsabilidade com apenas um número e o botão confirma. Lacra a omissão!

O fato de protestar contra a corrupção, só revela o quanto nós odiamos ser roubados. Ou para alguns, o quanto odeiam não poder fazer parte da boquinha. Já deveria ser um fato aceito pela sociedade que o poder corrompe. Se o grande plano de futuro é investir na democracia, poderíamos fazer um favor a nós mesmos e passarmos a cobrar o que realmente precisamos.

Quando elegemos um certo político, um representante, só colocamos o nosso dever de cuidar da sociedade, nas mãos desse responsável. Cobrar que aquele tucano, petralha ou pmdbista pare de roubar, cientificamente comprovado, não gera mais empregos, não constrói moradias, não regula o mercado e muito menos fará com que o precioso preço da gasolina caia. E antes que o argumento “mas nós cobramos isso, cobramos o governo ruim” venha à luz, o problema não é cobrar o governo atual, o que eu acho até de grande valia, o problema se dá que, quando assumir o Temer (Aécio/Bolsonaro/Sua escolha aqui), a cobrança volte aos seus níveis iniciais de, “tomara que ele não roube”.

Lembra quando seu amigo cobrou a falta do plano de governo da Dilma? Ou que o plano de governo do Aécio era muito esquisito? Pois é. Não podemos fazer uma cobrança válida enquanto o que usamos para eleger candidatos é validar se ele é corrupto ou não, ficha limpa ou não.

É preciso saber o que exatamente queremos cobrar. Quais ações efetivas esperamos do governo. Não podemos viver a mercê de transferir nossas responsabilidades, igual como quando em todos os anos doamos roupas e comida, tapando sol com a peneira. O que precisamos é cobrar do governo que nenhuma pessoa careça de comida ou roupa.

Nós elegemos os representantes. Podemos transferir a responsabilidade da ação, mas nunca a responsabilidade da fiscalização. E a fiscalização, essa é uma linha contínua e não pontilhada.