23, e agora?

ou sobre como buracos negros não são tão negros assim

não importa quando: há sempre de haver um momento em que você se olha no espelho e se sente (nem que só um pouco) satisfeito com o que você é. e em um espelho metafórico, isso quer dizer que tudo parece estar bem. eu tive essa sorte. não por muito tempo.

a teoria da relatividade ainda é o maior legado da física. nem a mais nonsense das hipóteses da cosmologia contemporânea faria sentido sem a nossa ideia básica do espaço-tempo. obrigado, einstein. mas a verdade é que todas as inquietações astrológicas ao longo da história estão diretamente ligadas ao maior mistério da natureza: o tempo.

o tempo age sobre nós. não só fisicamente, mas em níveis mais profundos. chame-os como quiser: psicológicos, espirituais, existenciais. e é assustador pensar que tudo se move para frente, nada para trás. ainda mais assustador é pensar que as transformações ao nosso redor trazem a percepção de que esse movimento se dá cada vez mais depressa. notícias caminham tão frenéticas quanto a velocidade da luz e a sensação de não pertencimento é inevitável. frustração: nada mais é sólido e a liquidez da modernidade de bauman nunca foi tão fluída.

é como estar preso em um filme da sofia coppola e não conseguir encontrar o pause

O maior exemplo da relatividade inserida nos dias de hoje é o instagram: do lado de lá, o tempo parece se mover mais rápido, enquanto que, do tédio do nosso scrolling, tudo parece mais devagar. mesmo que hawking acredite que o tempo é (deve ser!) como um avião capaz de ir e voltar, ainda não podemos embarcar nessa nave. resumo: em momentos de crise, olhar para trás não é só a única opção, é fundamental.

de garoto estiloso com cabelo bonito, passei a um ermitão fake de pijamas que esqueceu o significado da palavra salão. de “em um relacionamento sério”, passei a “é complicado” e a única função atual do facebook parece ser me perguntar onde eu estudo e trabalho. zuckerberg, por favor, apenas pare. que dia é hoje? eu sinceramente não sei. planos para o final de semana? tampouco. meu quarto é o meu deserto e a minha mente é uma badtrip que nunca conheceu um psicotrópico. estar sóbrio nunca foi tão difícil ao mesmo tempo em que fugir nunca foi tão fácil. sufoco: para onde ir? respirar é reconfortante, mas, você sabe, a vida continua vivendo e o mundo continua existindo. o tempo passa, afinal.

e se você não faz ideia de quem você é ou do que você está fazendo, parabéns. se você não sabe para onde ir, nota dez. é porque é aí que você percebe que a dúvida é o que te move. que a constante transmutação é o mais traiçoeiro e essencial do combustíveis. que sem a incerteza do futuro, passado e presente não fariam o menor sentido e, aí sim, estaríamos presos na singularidade de um buraco negro.


não importa quando: há sempre de haver um momento em que você se olha no espelho e se sente (nem que só um pouco) satisfeito com o que você é. e em um espelho metafórico, isso quer dizer que tudo parece estar bem. eu tive essa sorte. não por muito tempo.

e isso é um bocado de sorte também.

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