uma crônica da vida pós-moderna ou ser descolado não é fácil

um dia típico na vida d M. começa assim:

acorda às sete. escova os dentes e cuida da pele com cremes caros. não toma banho porque já tomou na noite anterior. o café está pronto, preparado pela cafeteira inteligente que comprou na Amazon. come uma tigela de cereais importados com leite orgânico. toma o suco nº1 (couve com hortelã + 50mg de Prozac) e fuma dois cigarros que ele mesmo bolara com o tabaco, também orgânico, que um amigo “traz de uma fazenda de uns monges vegans de Minas Gerais; é coisa boa”. lê o jornal — só o caderno de cultura, “o resto é chato”. recicla o lixo. se veste com a roupa que já está preparada no cabide: 1) calça 501 da Levi’s, 2) camiseta listrada da GAP e 3) tênis New Balance. prepara a bolsa com: 1) Moleskine, 2) canetas Stadler, 3) iPhone, 4) carteira, 5) cápsulas de vitamina D, 6) iPod — classic 160GB, 7) óculos Calvin Klein, 8) cigarros de tabaco orgânico que ele mesmo bolara — aqueles que o amigo traz de uma fazenda de “uns monges vegans de Minas Gerais; é coisa boa” 9) fósforos — isqueiro é chato e 10) qualquer livro para ler no metrô. coloca comida para a cachorra, uma golden retriever chamada Lara. deixa 50 reais para a empregada fazer as compras no Pão de Açúcar — menos os vegetais, comprados previamente pela internet no site de uma feirinha (orgânica).

sai de casa:

caminha pelas ruas arborizadas do bairro da moda onde mora sozinho (o pai médico paga o aluguel. e o condomínio. e o salário da empregada. e a conta no Netflix). chega ao metrô e saca o bilhete único (creditado previamente pela contadora do pai). ajeita o cabelo refletido na janela do trem da linha amarela. no caminho, checa o iphone. seis notificações no Facebook: 1) R. convidou para o seu evento “Geeks vs. Hipsters — BYOB”, 2) é aniversário de J., mande uma mensagem para J., 3) K. te tagueou em uma foto, 4) V. comentou em sua publicação, 5) P. curtiu a sua foto e 6) D. te cutucou; cutucar de volta? — nesse momento ele sorri. responde cuidadosamente cada uma das notificações. faz a baldeação. desce na Vila Madalena. pega um táxi até o trabalho. “8 reais”. dá uma nota de 10. “pode ficar com o troco”. “deus abençoe”. “amém”. chega ao trabalho. atravessa o portão do sobrado tombado. observa o jardim de bambus importados da Amazônia, projetado por um paisagista new face de Niterói. “bom dia Dani”. “bom dia M.” Dani é a secretária. caminha pelos corredores claros e decorados com pôsteres da Bauhaus. chega à mesa. senta na cadeira Herman Miller e suspira. M. adora seu trabalho. “sou um workaholic com W maiúsculo”, confessara em seu perfil no OkCupid. M. é designer. abre o Macbook. confere os 34 novos e-mails. 33 vão para a lixeira. acessa o Twitter. abre o Sketchup.

hora do almoço:

ei, M.! vamos almoçar? que tal aquele tailandês na rua Y. dizem que tem um tartare muito bom.

ok.

M., F., e C. deixam a casinha na Vila Madalena e seguem para o restaurante — mesa na varanda. Acendem cada qual o seu o cigarro: M.) tabaco orgânico que ele mesmo bolara — aquele que o amigo traz de uma fazenda de “uns monges vegans de Minas Gerais; é coisa boa”, F.) Malrboro Light e C.) Camel azul.

vocês vão na festa do R.? eu total vou de geek, C. comenta.

total!, M. responde.

Pedem cada qual o seu prato. M.) o tal tartare muito bom, F.) linguine ao curry — al dente e C.) ceaser salad — sem frango, sem molho e sem croutons. Sacam cada qual o seu iphone. M.) foto do couvert no Snapchat, F.) check in no Foursquared e C.) três novos matches no Tinder. comem. pedem a conta. “aceita V.R.?”. três cafés: um leggero e dois ristrettos. saem. no caminho de volta, M. diz:

um desafio? ir na exposição da Yayoi Kusama e não fazer nenhum selfie.

à tarde:

o mesmo de sempre. Sketchup, InDesign, braistorming às três, heiniken grátis às quatro. cliente chato. cliente legal. M. adora seu trabalho. “sou um workaholic com W maiúsculo”, confessara em seu perfil no Google+. sete horas. fecha o Macbook. ajeita a mesa equipada com: 1) luminária Marcelo Rosenbaum para Tok&Stok, 2) folhas sulfite recicladas, 3) post its coloridos, 4) conjunto de lápis Faber-Castell — edição limitada e 5) artesanato indígena comprado na última viagem para Cartagena.

à noite:

terapia às oito, toda quarta. espanhol às nove, terças e quintas. power yoga, todos os dias. no iPod, Capital Cities. Pão de Açúcar. compra o jantar, flores e a comida da Lara. chega em casa. flores no vaso, ração na caixa e jantar no microondas. toma banho. coloca o pijama: 1) camiseta Hard Rock Café Buenos Aires e 2) shorts Topman. come o jantar. lava a louça — amanhã a empregada não vem. prepara o chá: honey vanilla da Twinings. acende um cigarro de tabaco orgânico que ele mesmo bolara — aquele que o amigo traz de uma fazenda de “uns monges vegans de Minas Gerais; é coisa boa”. pensa em virar vegan. “não, eu adoro carne”. pensa em virar monge. “não, eu adoro sexo”. pensa em plantar tabaco. “será que dá na varanda?”. liga para a mãe. desliga o celular — nesse momento ele chora um pouco. vai para a cama e bate uma punheta pensando na entrevista imaginária que daria para a Vice quando largasse tudo e fosse vender flores de bicicleta nos Jardins:

sabe, eu não sou o que você pode chamar de feliz. mas eu acredito em alguma coisa, sabe. não é deus ou nada, mas tem alguma coisa, entende? acho que é energia. é, energia. que liga a gente ao universo e tudo mais. sabe, o que é felicidade, afinal? é mais é as coisas que você faz. minha vida é boa. eu gosto do que eu faço. sou um workaholic com W maiúsculo, um spiritual hacker e tô aprendendo a aproveitar as coisas simples da vida. é que eu me sinto tão sozinho às vezes. tá faltando alguma coisa, entende? e você sabe: chegou nos trinta, fodeu. como eu me imagino daqui a dez anos? ah, você sabe. quero viajar o mundo (em um projeto pessoal, quem sabe), ser famoso no Instagram (um perfil de culinária macrobiótica, quem sabe) ter meu negócio (uma startup, quem sabe), uma casa na praia (em Ilhabela, quem sabe) um filho (adotado, quem sabe), não depender do meu pai (ou talvez não, quem sabe)…

…putz, pera. eu não faço a menor ideia.

vai dormir — e nesse momento chora mais um pouco.