Por Paulo Sales

Durante muito tempo, Ferreira Gullar foi o maior poeta brasileiro vivo. Agora já não há maiores poetas brasileiros vivos. Gullar deixa a vida e com ela o vazio. Na minha modesta opinião, alcançou a estatura de Drummond, Bandeira e João Cabral, que formam a santíssima trindade da poesia brasileira. Mas entre todos era o meu preferido. Aquele que desde a adolescência acompanho como a um farol, me guiando por mergulhos profundos dentro da noite veloz.

ferreira-gullar

Gullar flertou com o experimentalismo da aventura concretista, para depois romper com seus fundadores e gerar embates históricos nas páginas dos jornais. Revolucionou o fazer poético continuamente, transitando entre o poder de fogo e o engajamento de “A Luta Corporal” e a sintaxe ritmada do balanço do trem, que traduzia seus sentimentos mais íntimos na obra-prima “Poema Sujo”:

“Bela bela
 mais que bela
 mas como era o nome dela?
 Não era Helena nem Vera
 nem Nara nem Gabriela
 nem Tereza nem Maria
 Seu nome seu nome era…
 Perdeu-se na carne fria
 perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia”

Sim, Ferreira Gullar. Aquele que uma vez escreveu:

“Sua voz quando ela canta
 me lembra um pássaro mas
 não um pássaro cantando:
 lembra um pássaro voando”

Ou, com ainda mais pleno senso do belo:

“Como dois e dois são quatro
 sei que a vida vale a pena
 embora o pão seja caro
 e a liberdade pequena”

O meu livro preferido, porém, é “Barulhos”, de 1987, cuja velha edição amarelada guardo com carinho e orgulho na estante, porque sei que ali estão alguns dos mais belos e profundos versos já escritos em português. Neles, Gullar espalha seu espanto diante da morte, esta que o levou no domingo, e a perplexidade com o absurdo da finitude, a porta que falta para haver algum sentido, o mais ínfimo sentido:

“À vida falta uma parte
 — seria o lado de fora — 
 pra que se visse passar
 ao mesmo tempo que passa
 e no final fosse apenas
 um tempo de que se acorda
 não um sono sem resposta.
 À vida falta uma porta”

Todos esses poemas ou trechos de poemas me vêm à mente enquanto escrevo. Levaria horas reproduzindo aqui os que mais gosto. Mas seria mais justo mergulhar novamente nos livros do poeta maranhense que agora folheio, “Toda Poesia”, “Em Alguma Parte Alguma”, o já citado “Barulhos” e o lindo livro de memórias “Rabo de Foguete”, sobre os seus anos de exílio.

Assim teria de volta o prazer de me embrenhar naquela profusão de palavras, unidas com a delicadeza com que se concebe uma vida. E me embeber no delírio silencioso dos seus versos. Teria, portanto, ainda mais motivos para afirmar o quanto Ferreira Gullar foi grande.

Agora, deixo aqui a sua “Despedida”:

“Eu deixarei o mundo com fúria.
 Não importa o que aparentemente aconteça,
 se docemente me retiro.
De fato,
 nesse momento
 estarão de mim se arrebentando
 raízes tão fundas
 quanto estes céus brasileiros.
 Num alarido de gente e ventania
 olhos que amei
 rostos amigos tardes e verões vividos
 estarão gritando a meus ouvidos
 para que eu fique
 para que eu fique
Não chorarei.
 Não há soluço maior que despedir-se da vida”

Tagged: Barulhos, Despedida, Ferreira Gullar, Poema sujo

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