David Bowie, 1947–2016

Acordar sob o impacto da notícia da morte de David Bowie exige um certo esforço de credulidade. Vídeos, fotos, gifs, notícias, tudo pipoca em todas as TLs, de gente que conheço, de amigos de amigos e páginas curtidas. O que poderia ser uma tentativa de não acreditar no fato escorrega pelas mãos quando vejo o perfil da estrela preta comunicar a morte de Bowie.

Tomado pela emoção, vejo multiplicar, ao passar dos minutos, vídeos compartilhados do YouTube. A onipresente “Heroes” em várias versões se soma a dezenas de outras canções, pois cada um tem uma história diferente com Bowie.

Eu mesmo, no sábado passado, publiquei um vídeo para homenagear o aniversário de 69 anos do artista, um dia depois da data real. Era uma versão ao vivo de “Changes”, uma das minhas favoritas de Bowie.

Então, o gatilho das memórias foi acionado. Um amigo relembra o show que assistimos em 1990, da turnê “Sound + Vision” — nome que até deu título a uma coluna musical que escrevi para um jornal de Belo Horizonte no final dos anos 90.

Se não foi o melhor dos shows, ainda assim era David Bowie. Ah, provincianismos à parte, como não se emocionar com o homem no palco, burocrático ou não. Sim, eu vi David Bowie ao vivo, num show bem mais ou menos, mas eu vi. E isso fez toda a diferença.

Busco meu iTunes e vejo lá mais de 30 álbuns, mais de 300 músicas. Todas percorridas dezenas de vezes. O caminho aberto para lembrar de Bowie precisava de uma trilha, e veio com “Hunky Dory”, talvez o meu preferido de toda a obra.

“Hunky Dory”, o álbum, que comprei num sebo no centro antigo de São Paulo, na Barão de Itapetininga — ou seria na Sete de Abril? Numa época em que comprava discos de Bowie alucidanamente, meses antes do show que chegaria ao Brasil. Muito mais que “Let’s Dance”, “Modern Love” e “Blue Jean”, queria ouvir e descobrir o que Bowie fez até chegar ali, numa turnê revisionista.

E assim “Heroes”, “Low” (uau, que disco), “The Man Who Sold the World”, “Space Oddity”, “Diamond Dogs”, “Pin Ups”, “Young Americans”, “Station to Station”, “Ziggy Stardust” (um álbum que comprei umas três vezes, graças aos relançamentos especiais em CD), todos, em versões novíssimas ou usadas, se somaram à discoteca. Eram vinis, numa época em que ouvir música se resumia a poucas opções, num mercado que dependia de importações ou da boa vontade das gravadoras.

Não posso dizer que Bowie foi o artista que mais ouvi. Mas foi o que mais encarei em diversas mídias, moda, artes plásticas, cinema — “O Homem Que Caiu na Terra”, “Fome de Viver” (Bowie com Catherine Deneuve!!), “Basquiat” (como Andy Warhol), “A Última Tentação de Cristo”, “Furyo”, entre outra dezena de filmes.

Cena de “Fome de Viver”

Bowie rompeu meus preconceitos. Ouvi discoteca e música eletrônica só por causa de seus discos. Se hoje sou fã de soul, só posso agradecer ao Thin White Duke. Experimentalismos eletrônicos, jazz, rock, glam, tudo passa por Bowie, e ouvi-lo me levou descobrir tanta coisa que não conseguiria agradecê-lo nem em um século de “obrigado”.

Mesmo assim, eu não saberia como terminar este texto sem dizer obrigado, mesmo sabendo que não seria suficiente para demonstrar minha gratidão por tudo o que me ofereceu e que permanece aqui comigo. Para sempre.

Obrigado, Bowie.