Já vivi um tempo em que me sentia obrigado a chegar ao final de um livro que não estava me encantando. Caminhava até a última página, com muito custo, levando o tempo necessário.

Hoje, já não me sinto culpado por fechar um livro e devolvê-lo à estante da biblioteca caso ele não tenha me conquistado. Seja um clássico ou um título contemporâneo, vou somente até onde conseguir, 20, 30, 50, 100 páginas, não importa. Se o livro não engrena, fecho e sigo em frente.

“Sábado”, a decepção

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Este livro se encaixa nesse caso: desisti. E a decisão não foi fácil. Explico.

O livro de Ian McEwan foi muito bem recomendado, várias vezes. Ele foi lançado numa época em que eu não estava afeito ao autor inglês, após algumas decepções. Instigado por um amigo, comprei uma edição de “Sábado” (Companhia das Letras), mas deixei reservado na estante por mais de ano. Até agora.

Comecei a ler com uma expectativa renovada após a leitura de “A Balada de Adam Henry”, mas a leitura não fluiu. Uma sensação semelhante à que tive quando li “Na Praia”. A prosa me surgiu travada para contar a história do neurologista Henry Perowne, que acorda numa madrugada com um sonho alucinante e tenta lidar com as visões. Tudo acontece no mesmo dia em que Londres viverá uma das maiores manifestações contra a Guerra do Iraque.

Não alcancei a metade do livro, pois virar a página era uma ação custosa. “Sábado” é do período em que o autor não me conquistou, cujos livros lançados nessa época sofreram com o impacto de “Reparação”.

Ele já lançou um novo livro, “Enclausurado”. Talvez seja a prova de fogo, a confirmação de que para este leitor McEwan está entre os grandes, firme, cujos altos superam qualquer baixa na bibliografia.

Um assombro chamado “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”

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Depois de passar pelo que certamente será um dos melhores livros lançados neste ano, o primoroso “Vozes de Tchernóbil”, a sensação que restou era de querer mais de Svetlana Aleksiévitch. A Companhia das Letras comprou os direitos de quatro livros da autora bielorrussa logo após o anúncio do Nobel de Literatura de 2015.

Este é o segundo, lançado na esteira de “Tchernóbil”, para aproveitar a passagem de escritora pela Flip. Virão mais dois, “Time Second Hand” e “Last Witness”.

A leitura deste “A Guerra” reflete a potência da sua estreia no Brasil. No mesmo formato, com as transcrições de depoimentos das suas personagens, Aleksiévitch investiga o papel das mulheres soviéticas na campanha da 2ª Guerra Mundial.

Os relatos impressionam, infelizmente, pela atualidade: preconceito, sexismo, covardia, as mulheres eram vistas como inferiores e incapazes de realizar o trabalho e as funções de um homem. Leve-se em conta que elas estavam em ambiente masculino, a guerra e suas trincheiras.

A ideia geral era que as mulheres deveriam ficar em casa ou realizar tarefas burocráticas, no máximo. Os relatos mostram como as soldadas enfrentaram essa condição e lutaram — dupla luta, que emerge com sensibilidade das páginas do livro.

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