Há alguns meses, li em sequência quatro livros de não ficção que me deixaram de certa forma fora do rumo. Os temas não facilitaram: cultura do estupro em “Missoula”, preconceito de gênero em crianças afegãs em “Meninas de Cabul”, terrorismo doméstico em “Um de Nós” e terrorismo do Estado em “Vozes de Tchernóbil”.

Essa sequência me impediu de entrar em outros livros. Comecei e parei um bom par de títulos, sem ter concentração suficiente para continuar e se envolver com a história. Nem romances policiais deram conta, como “Acqua Alta”, de Donna Leon, pode testemunhar.

Ao mesmo tempo, as noites ficavam mais vazias, sem aquele tempo precioso dedicado à leitura. E isso me angustiou por uns dias, até que decidi fazer outra tentativa. Desta vez, fui a Tolstói.

Peguei um romance, “Os Cossacos” (Amarilys), que começou bem, mas depois voltei a ficar desconcentrado quando atingi a metade. Tentei reler “Kadhji Murát” (Cosac Naify), novela que considero um dos grandes feitos do autor russo. Mas nem passei da página 10.

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Busquei então tentar enganar o cérebro, uma insistência que se revelou um grande acerto. Fui à estante pegar os “Contos Completos” (Cosac Tolstói), obra que reúne os textos curtos do escritor em três volumes.

Foi nesse momento que encontrei aconchego. Não só porque a edição permite essa sensação — o formato se encaixa nas mãos e permite o manuseio sem grandes dificuldades -, mas principalmente graças ao texto do russo.

Dos três volumes, escolhi o segundo, que reúne os “Livros Russos de Leitura”, quatro coletâneas de pequenas fábulas morais, cada uma tão curta que poucas avançam para a segunda página.

A leitura então fluiu com segurança e tranquilidade, me deixava cada vez mais magnetizado pela potência do texto de Tolstói, que, com temas que poderiam soar infantis ou tolos, transforma as histórias em exercícios de linguagem e alta literatura.

O ápice surgiu quando alcancei a parte final do volume 2, “Contos Populares (1880)”. Da memória dos fabulosos “Padre Sérgio” (Cosac Naify) e o “O Segredo de Ivan Ilitch” (Editora 34), emergiu desses contos a construção de personagens que insistem em colar e se transformar em imagens vívidas, tão vívidas que a sensação é de algo realmente presenciado.

Seus 17 contos não só me devolveram a fluência da leitura, mas me apresentaram a outro Tolstói. O escritor explora seu cristianismo por meio de fábulas morais, típicas de textos religiosos. Ao final de cada um, podemos até esperar a moral da história, mas Tolstói, apesar de usar a estrutura do gênero, escapa dessa solução.

Ele leva seus personagens ao extremo, introduz tons cinzentos nos caráteres de cada um deles, sem deixar claro quem é bom ou mau. Daí surgem “Os Três Eremitas”, “Do que Vivem os Homens?”, “De Quanta Terra Precisa um Homem”, “Dois Velhos” e “O Afilhado”, obras-primas do formato curto.

Ao chegar ao final, estava aliviado. Daquelas leituras que precisam ser revisitadas, esses contos me devolveram o prazer da leitura após ler sobre o quão terrível o homem pode chegar — e se superar.

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